Propina ‘era regra do jogo’, diz delator da Lava Jato

Executivo de empreiteira afirma que na gestão de Costa e Duque na Petrobrás a propina era de 1% sobre o valor dos contratos

Redação

03 de dezembro de 2014 | 16h09

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

O executivo da Toyo Setal Julio Gerin de Almeida Camargo afirmou em sua delação premiada nos autos da Operação Lava Jato que o pedido de propina “era regra do jogo”. Ele disse ainda que durante a gestão dos diretores de Abastecimento e de Engenharia, Paulo Roberto Costa e Renato Duque, respectivamente, deveria ser pago 1% sobre o valor dos contratos vinculado às diretorias para cada área.

“Embora esses percentuais pudessem ser negociados e muitas vezes o foram para menos”, contou.

No documento de colaboração à Polícia Federal, Camargo cita quatro casos em que houve pagamento de propina. Segundo ele, entre setembro e dezembro de 2007, os diretores exigiram propina em cima do contrato da Refinaria Henrique Lage (REVAP).

“Esse pagamento de fato ocorreu e foi feito pelo declarante, por intermédio de Alberto Youssef no caso de Paulo Roberto Costa, mediante pagamentos feitos pelo declarante a Youssef no exterior, que na sequência pagava Paulo Roberto; que no caso de Renato Duque, o pagamento de propina também foi feito pelo declarante, com o auxílio de Pedro Barusco, ou mediante transferências feitas diretamente pelo declarante de duas contas no exterior para contas indicadas por Duque ou Barusco no exterior, ou em reais no Brasil disponibilizados por Youssef, após transferências de valores em contas indicadas por Youssef no exterior”, afirmou.

Camargo contou ainda que pagou propina, parte no Brasil e outra no exterior, R$ 3 milhões a Duque e Barusco, ex-gerente de Engenharia da estatal, em relação ao contrato do Projeto Cabiúnas 2, no fim de 2007. Dois anos depois, ele afirma, pagou propina de R$ 12 milhões a Duque e Barusco em cima de contratos para a construção de uma unidade da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária, no Paraná.

“Como a regra do jogo exigia das empresas o pagamento de propinas para a formalização dos contratos e o declarante era quem atuava junto aos Diretores da Petrobrás, além do fato de firmar os contratos de consultoria para fazer frente às propinas, acredita que os representantes das empresas para as quais atuou, retificando o que disse anteriormente, sabiam dos pagamentos de vantagem indevida”, disse Camargo.

O executivo afirmou ainda que, no segundo semestre de 2012, houve exigência de propina por parte de Costa, Duque e Barusco na construção da unidade de hidrogênio do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ). Ele contou que representantes da UTC Engenharia e da Odebrecht ficaram responsáveis pelo pagamento.

“O declarante não sabe dizer como isso foi operacionalizado. Que apesar disso, como o contrato foi firmado e está em fase final de execução, regularmente, “tudo leva a crer” que os pagamentos de propina foram efetivados”, afirmou. As declarações de Camargo foram dadas em delação premiada feita em 31 de outubro.

Procurada, a Odebrecht informou em nota que nega veementemente “as alegações caluniosas sobre ter feito qualquer pagamento a qualquer executivo ou ex-executivo da Petrobrás”. A empresa disse que mantém, há décadas, contratos de prestação de serviços com a estatal, todos conquistados de acordo com a lei de licitações públicas.

“A Odebrecht repudia especialmente insinuações feitas a partir de menções a nomes de seus integrantes como sendo “contatos” do ex-diretor da Petrobrás para supostas operações ilegais. A empresa reitera que tem todo o interesse em que a verdade seja apurada com rigor – e está, como sempre esteve, à disposição das autoridades para qualquer esclarecimento.”

A  UTC também negou o pagamento de qualquer valor indevido. “Em toda sua história a UTC pautou sua conduta pelos mais rigorosos princípios e valores e sempre realizou obras dentro dos limites da legislação”, afirmou em nota.

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