Propina de Eduardo Cunha foi 10 vezes maior que ‘padrão Petrobrás’

Propina de Eduardo Cunha foi 10 vezes maior que ‘padrão Petrobrás’

Procuradoria revela que parte supostamente destinada a deputado afastado foi de quase um terço de US$ 34 milhões, valor correspondente à compra de campo de petróleo na África; média de repasses ilícitos ficava entre 1% e 3% dos contratos da estatal, segundo Lava Jato

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Ricardo Brandt

09 de junho de 2016 | 15h05

Eduardo Cunha fala ao Conselho de Ética. Foto: Reprodução

Eduardo Cunha fala ao Conselho de Ética. Foto: Reprodução

Na denúncia da Lava Jato apresentada contra a mulher do presidente afastado da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Cláudia Cruz, a Procuradoria da República aponta que a propina que abasteceu o parlamentar e seus familiares foi de quase um terço do valor total do negócio de US$ 34, 5 milhões fechado pela Petrobrás para a aquisição de um campo de exploração de petróleo em Benin, na África, em 2011.

O valor de US$ 10 milhões, que transitou por contas secretas e offshores de funcionários da Petrobrás e do próprio Cunha (identificada pelas autoridades suíças) é cerca de dez vezes maior do que a média da propina cobrada no esquema de corrupção da Petrobrás, que variava de 1% a 3% do valor total dos contratos, segundo confissão do ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera Paulo Roberto Costa – dado comprovado pelos investigadores da Operação Lava Jato.

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A Lusitania Petroleum, cujo dono Idalecio Oliveira também foi denunciado, é a holding controladora da empresa que vendeu o campo de exploração em Benin para a Petrobrás. Dois dias após fechar o negócio com a estatal petrolífera, a Lusitania transferiu US$ 10 milhões para uma conta no exterior da empresa Acona, do lobista João Augusto Resende Henriques, apontado como operador do PMDB no esquema.

“É de se destacar que o valor da suposta consultoria – US$ 10 milhões  – é absolutamente desproporcional ao valor recebido pela empresa – US$34,5 milhões – e já apontava claramente para indícios de corrupção e lavagem de capitais”, afirma a Procuradoria na denúncia.

Dessa quantia, 1,3 milhão de francos suíços foi encaminhado para uma das offshores de Cunha, que então repassou a quantia para outras offshores e uma parte desta quantia, no valor de US$ 165 mil, foi para a offshore Kopek, de Claudia Cruz. Na acusação, a força-tarefa aponta ainda que vários destinatários, incluindo eventuais políticos, dos US$ 10 milhões ainda não foram identificados.

Além disso, a Kopek recebeu outros US$ 1,1 milhão provenientes de outra offshore de Cunha. ” Desse modo, ao receber na conta Köpek recursos criminosos provenientes da Orion SP e da Triumph SP, Cláudia Cordeiro Cruz cometeu o crime de lavagem de capitais”, segue a acusação. A partir daí, o dinheiro da Kopez foi utilizado pela família de Cunha em cursos para os filhos do casal e na aquisição de itens de luxo e viagens por Nova Iorque, Miami, Orlando, Barcelona, Zurique,Paris, Roma, Lisboa e Dubai.

A reportagem entrou em contato com o escritório que defende Idalécio e deixou recado, mas não obteve retorno. O espaço está aberto para a manifestação do empresário.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA PIERPAOLO BOTTINI

Claudia Cruz responderá às imputações como fez até o momento, colaborando com a Justiça e entregando os documentos necessários à apuração dos fatos. Destaca que não tem qualquer relação com atos de corrupção ou de lavagem de dinheiro, não conhece os demais denunciados e jamais participou ou presenciou negociações ilícitas.

A NOTA DIVULGADA POR EDUARDO CUNHA NO TWITTER:

“Trata-se de procedimento desmembrado do inquérito 4146 do STF, em que foi apresentada a denúncia, pelo Procurador Geral da República, ainda não apreciada pelo Supremo.

Foi oferecida a denúncia do Juízo de 1º Grau, em que o rito é diferenciado, com recebimento preliminar de denúncia, abertura de prazo para defesa em dez dias e posterior decisão sobre a manutenção ou não do seu recebimento.

O desmembramento da denúncia foi alvo de recursos e Reclamação ainda não julgados pelo STF que, se providos, farão retornar esse processo do STF.

Independente do aguardo do julgamento do STF, será oferecida a defesa após a notificação, com certeza de que os argumentos da defesa serão acolhidos.

Minha esposa possuía conta no exterior dentro das normas da legislação brasileira, declaradas às autoridades competentes no momento obrigatório, e a origem dos recursos nela depositados em nada tem a ver com quaisquer recursos ilícitos ou recebimento de vantagem indevida.

Eduardo Cunha”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE JOÃO HENRIQUES:

O criminalista José Claudio Marques Barbosa, que defende João Augusto Rezende Henriques, informou que só vai se manifestar sobre a acusação pelos autos e após se encontrar com seu cliente, que está preso no Paraná.

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