Promotora denuncia Marcos Zheng por receptação de 15 mil testes de coronavírus roubados

Promotora denuncia Marcos Zheng por receptação de 15 mil testes de coronavírus roubados

Além do presidente da Associação Shangai no Brasil, outros 15 são acusados também pelo crime de associação criminosa, no âmbito de operação da Polícia que apreendeu também máscaras e armas de grosso calibre no dia 11 de abril

Luiz Vassallo

25 de abril de 2020 | 18h37

Marcos Zheng. Foto: Palácio dos Bandeirantes

A promotora de Justiça Yolanda Alves Pinto Serrano de Matos denunciou Zheng Xiao Yun, o Marcos Zheng, e outros 15 alvos de operação da Polícia Civil de São Paulo que apreendeu 15 mil testes de coronavírus no dia 11. A eles, são imputados os delitos de receptação e associação criminosa. Investigadores suspeitam de que a carga teria sido desviada no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

O grupo foi preso em flagrante durante ação da Polícia Civil. Infiltrado, um delegado se passou por interessado na carga, e acertou o valor de R$ 3 milhões pela venda dos testes de coronavírus. Também foram apreendidas armas de grosso calibre. Comparando os preço pago pela importadora, e o pedido inicial dos investigados pela carga, de R$ 4 milhões, o lucro seria de 5.000% para o crime. O Estado obteve acesso à investigação e revelou detalhes sobre o caso. 

No dia seguinte à ação, a Justiça decretou a prisão preventiva de 14 investigados. Ao fazer a denúncia, a Promotoria pede que mais dois investigados. Um fugiu do local no dia do flagrante. Também já foi determinado que parte do material apreendido seja destinada a hospitais públicos e delegados de Polícia.

Além da denúncia, o Ministério Público Estadual de São Paulo pediu a abertura de uma nova investigação sobre o crime de lavagem de dinheiro. Os investigadores suspeitam da compra, por R$ 1,1 milhão, de máscaras e equipamentos de proteção, feita por Fu Zihong, amigo de Marcos, no Armarinhos Fernando – loja tradicional da 25 de Março, em São Paulo.

Segundo a promotora, os investigados ‘explorarem financeiramente crise global’ do coronavírus e ‘mantinham um galpão,
localizado na Rua Cipriano Barata, 2305, Ipiranga’, com o escopo de receber, ocultar, armazenar e expor à venda’ os produtos, ‘parte dos quais de origem ilícita’. “Produtos estes que eram livremente negociados no local, mesmo após a prisão em flagrante dos acusados”.

“Zheng é o proprietário do imóvel e o cedeu para as práticas delitivas ora descritas; juntamente com Fu, comandavam a ação criminosa, delegando funções aos demais denunciados. Ambos mantinham escritório no imóvel onde eram realizadas as práticas ilícitas. Inclusive, o local era sede das empresas de Zheng, além da associação por ele presidida”, diz a Promotoria.

Segundo a Promotoria, o sargento aposentado do Exército, Paulo Sérgio Perniciotti, e o cabo afastado da PM Cleber Marcelino da Silva ‘eram os responsáveis pela segurança armada do galpão e dos outros comparsas, atuando para garantir as negociações e a proteção dos produtos ilícitos ali mantidos’.

“Ainda, contavam com o apoio de Leandro Manoel da Silva, tanto para a segurança armada quanto para o fornecimento de armamentos utilizados nas empreitadas delituosas praticadas pela associação criminosa”, diz a acusação.

“Os acusados Marcelo Martins da Silva, Kawe Mycon Brito dos Santos, Hilmar Jose Duppre Júnior, Antonio Ricardo dos Santos Lima, João Rodolfo Rodrigues da Silveira, Alex Liberto Santos e Flávio Porto Alencar eram responsáveis por angariar compradores para os produtos ilícitos, oferecendo-os (inclusive pela Internet) e intermediando as negociações, além de receber os clientes, triando-os, e encaminhá-los até o imóvel onde as mercadorias eram armazenadas”, sustenta.

Dagoberto da Silva Tomo, Lanfen Zong e Wu Wang, também denunciados também são apontados como intermediários da venda do material. Eles foram presos dentro do imóvel de Zheng, quando 14 foram detidos em flagrante durante a negociação. Zhang Ruifeng morava no local, era amigo de Marcos Zheng, e também foi preso e denunciado.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DANIEL BIALSKI, QUE DEFENDE MARCOS ZHENG

Do ponto de vista de indícios de autoria, causou surpresa que o Marcos tenha sido denunciado, diante do próprio teor não só do depoimento do delegado que comandou toda a operação, mas do próprio relatório final, já que a investigação não trouxe qualquer elemento que indicasse que ele tenha participado de foma direta ou indireta ou que ele tenha cometido algum ato de coautoria ou coparticipação em todo esse evento.

O fato de ele ser proprietário do imóvel, tendo locado esse imóvel para terceiro, já mostra que de forma alguma ele poderia ser responsabilizado.

Do ponto de vista jurídico, eu acho que a capitulação da denúncia é extremamente excessiva, inexiste qualquer tipo de cogitação a respeito da violação desse artigo, e, mais do que isso, o próprio MP coloca em dúvida se aqueles testes que eram alvo de suposta receptação são os mesmos que foram desviados da vítima.

Tanto que ele pede diligência pericial para isso. O que se espera é o quanto antes o exame desse excesso pelo Poder Judiciário.

A defesa vai contestar todos esses aspectos, não somente para que ele seja colocado em liberdade, já que sua situação é particular e personalíssima – a situação fático processual dele é diferenciada -, mas também do ponto do de vista de discussão a respeito dos tipos penais que foram extremamente distorcidos.

 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

Marcos ZhengChina [Ásia]coronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: