Promotor pede bloqueio de R$ 42 mi de intermediário da campanha de Alckmin em repasses da Odebrecht

Promotor pede bloqueio de R$ 42 mi de intermediário da campanha de Alckmin em repasses da Odebrecht

Para Ricardo Manuel Castro, do Ministério Público de São Paulo, ficou 'comprovado que Sebastião Eduardo Alves de Castro, por ser assessor de Marcos Antônio Monteiro (ambos funcionários públicos), foi a pessoa indicada para receber as quantias especificadas da Odebrecht, em benefício de Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho'

Fabio Leite e Luiz Vassallo

06 de maio de 2019 | 19h21

Sebastião Eduardo Alves de Castro. Foto: Perfil de WhatsApp/Acervo Pessoal

O promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro pediu à Justiça o bloqueio de R$ 42 milhões de Sebastião Eduardo Alves de Castro, ex-assessor do tesoureiro da campanha do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) acusado de intermediar entregas de R$ 4,5 milhões da Odebrecht à candidatura do tucano. Também requereu que ele seja condenado por improbidade administrativa em ação civil pública em que Alckmin é réu por supostos repasses em caixa dois da construtora na campanha de 2014.

Documento

Alves de Castro foi assessor do ex-secretário de Planejamento de Alckmin e tesoureiro da campanha do tucano, Marcos Monteiro. Ele entrou na mira da Promotoria após o Estado revelar que seu endereço e seu celular são citados em conversas entre funcionários Transnacional, transportadora de valores usada por doleiros da Lava Jato para entregar dinheiro vivo.

Ele também é flagrado em diálogo gravado com um funcionário do doleiro Alvaro José Novis sobre suposto repasse. “Aguardo na porta, então”, afirmou, na ligação gravada em 2014. Quando chamado à Promotoria para prestar depoimento sobre a gravação, ele preferiu ficar calado.

OUÇA O ÁUDIO:

Castro: Alô
Emissário: Eduardo?
Castro: é
Emissário: Eduardo Castro?
Castro: Isso mesmo, Eduardo Castro
Emissário: Fala, meu amigo, tudo bem? tranquilo? É que nós temos uma reunião marcada de 11h às 15h e eu já mandei o pessoal para a reunião e estão no local.
Castro: Ah, tá bom, eu aguardo na porta então.
Emissário: Mas você já está aí no endereço certo?
Castro: estou, estou aqui.
Emissário: tá, então, por favor, eles estão aí.
Castro: Ah, tá bom, estou indo lá. Até já então.

Em depoimento ao Ministério Público Estadual, um dos funcionários responsáveis por fazer os pagamentos ilícitos da Odebrecht reconheceu Alves de Castro em foto como sendo um dos destinatários das ‘encomendas’ e a fachada da casa dele no Brooklin, zona Sul da capital paulista, como um dos endereços onde fez entregas de dinheiro da empreiteira.

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Segundo o ex-presidente de Infraestrutura da empreiteira, Benedicto Junior, o ‘BJ’, o destinatário de recursos para a reeleição do tucano a governador em 2014 seria Marcos Monteiro, cujo codinome usado pelos delatores da Odebrecht era ‘M&M’.

Ricardo Manuel Castro, que integra os quadros da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e Social – braço do Ministério Público do Estado -, anexou à ação conversas pelo aplicativo Skype entre funcionários da Transnacional sobre repasses a Eduardo Alves de Castro.
Todas ocorreram em 2014. ‘rua manguata 09 brooklin , sr Eduardo castro a senha é arvore entregar 500 mil’, diz uma delas, em setembro daquele ano, em meio ao pleito eleitoral.

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“Na rua manguatá o contato eduardo castro não esta no local a esposa jaqueline informou a senha porém so vc para autorizar a liberação??”, afirma um funcionário da Transnacional ao seu superior, responsável por gerenciar as entregas.

Em outro diálogo, um operador afirma: “Entrega da Manguatá, agentes estão no local, o contato não tem previsão para chegar”. Eis que obtém a resposta de seu superior. “EDUARDO TAVA PERTO DA CASA E TA VOLTANDO PRA RECEBER OK”.

“NA ENTREGA DA MANGUATA JA FOI ENTREGUE 300MIL”.

“rua manguata n° 9 casa ,brooklin , senhor Eduardo castro senha é cimento entregar 1.000.000,00”, diz outra mensagem.

O promotor elenca as supostas entregas que teriam sido feitas a Eduardo Alves de Castro, que batem com os valores, senhas, codinomes e datas que constam nas planilhas da Odebrecht.

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a) Em 10 de julho de 2014, R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais), pagos mediante o uso da senha “Formiga”, valor este pago em duas entregas fracionadas;
b) Em 05 de agosto de 2014, R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais), paga mediante uso da senha “Tesoura”;
c) Entre 13 e 15 de agosto de 2014, foi paga a quantia de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), com a senha “Marceneiro”, quantia paga em entregas fracionadas;
d) ente 26 a 29 de agosto de 2014, foi feito o pagamento da quantia de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), mediante uso da senha “Bolero”;
e) em 02 de setembro de 2014, foi entregue a quantia de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), com a senha “Árvore”; e
f) entre 16 a 18 de setembro de 2014, foi feito o pagamento da quantia de R$ 1.000.00,00 (um milhão de reais), com a senha “Cimento”.

Segundo o promotor, ficou ‘comprovado que Sebastião Eduardo Alves de Castro, por ser assessor de Marcos Antônio Monteiro (ambos funcionários públicos), foi a pessoa indicada para receber as quantias acima especificadas da Odebrecht, em benefício de Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho’.

Ele solicita que a ação contra o ex-assessor seja julgada, por dependência, junto da ação civil pública movida contra o ex-governador. O processo foi aberto pelo juiz Alberto Alonso Muñoz, da 13ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, que determinou o bloqueio de R$ 39,7 milhões de Alckmin, Monteiro, a Odebrecht, e quatro de seus ex-executivos.

“O prejuízo ao erário, correspondente aos valores ilicitamente acrescidos ao patrimônio dos requeridos Marcos Antônio Monteiro, Sebastião Eduardo Alves de Castro e Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, no caso concreto, soma R$ 10.729.063,36, correspondente aos valores acima pagos, de acordo com os atos de improbidade narrados, corrigidos monetariamente por meio da tabela de débitos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”, pede Castro.

COM A PALAVRA, SEBASTIÃO EDUARDO ALVES DE CASTRO

A reportagem fez contato por telefone com Sebastião Eduardo Alves de Castro. “Não posso falar agora.”

Quando abordado pela primeira vez pelo Estadão, Alves de Castro negou enfaticamente ter recebido o dinheiro, mas afirmou ter longa amizade com Monteiro.

ESTADÃO: Por que seu endereço é citado em diálogos entre entregadores de dinheiro como destinatário de repasses em 2014?
SEBASTIÃO EDUARDO ALVES DE CASTRO: Não tenho nada disso, pelo amor de Deus. Nessa altura do campeonato, não é possível. Estou, de fato, preocupado. Eu não tenho porque estar nesse grau de ou nesse tamanho, nesse envolvimento. Não tenho ideia do que possa ser isso. Não me preocupa nesse sentido, me preocupa o fato de que nunca tive meu nome em coisa alguma, e muito menos nessa dimensão que você está me dando.
ESTADÃO: Mas por que eles citariam seu endereço?
CASTRO: Eu não passo sequer, você imagina uma conversa neste patamar que você se refere, algo que corre no STF, eu posso ter sido… citado… não tenho nenhum… bom, enfim, sei lá. Não dá nem para te dizer como isso possa aparecer. Não sei nem como te dizer sobre isso.
ESTADÃO: O endereço citado é sua casa e este já era seu celular à época?
CASTRO: Tenho esse número desde que trabalhei na Telesp celular.
ESTADÃO: E o endereço ao qual os transportadores se referem é sua casa?
CASTRO: Esse, de fato, é o endereço da minha casa e esse é meu número de telefone. Vou confessar. Não tenho a menor ideia do que isso se trate. Eu tenho que rir, porque como eu vou aparecer nessa conversa?
ESTADÃO: Qual é sua relação com Marcos Monteiro?
CASTRO: É meu amigo. É o cara com quem trabalhei, uma pessoa que conheço há 500 anos, mas não tenho esse tipo de envolvimento. Não sei o que tem a ver uma coisa com a outra, entendeu?
ESTADÃO: Ele nunca pediu ao sr para receber algo em nome dele?
CASTRO: Não tive nenhuma relação nesse nível. Eu não tenho, sei lá, esse patamar, esse tamanho, essa dimensão de participação em coisas dessa ordem. Estou tomando um susto aqui de você me dizer que surge em algum momento.
ESTADÃO: O sr perguntaria a Monteiro sobre o que significa sua casa e seu número de celular estarem citados em uma investigação sobre caixa dois em que ele é acusado de pedir o montante à Odebrecht?
CASTRO: Eu acho que vou ter. Eu vou ter que conversar, estou absolutamente assustado.
ESTADÃO: O sr ainda é agente público?
CASTRO: Ele (Marcos Monteiro) saiu, foi para outra função, eu não fui, não acompanhei, e continuei no meu cargo, no meu trabalho, e pronto. De lá saí, e pronto. Hoje estou desempregado.
ESTADÃO: Marcos Monteiro, então, nunca pediu ao sr para receber qualquer tipo de valor nessa época?
CASTRO: Não tenho noção de como isso foi parar, desconheço, nunca recebi esse tipo de valor, nessa dimensão, nunca passou isso na minha mão na vida.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO GUILHERME CORONA, QUE DEFENDE MARCOS MONTEIRO

“O advogado Guilherme Corona, responsável pela defesa de Marcos Monteiro, informa que seu cliente não é réu da referida ação e que por isso não tem o que comentar sobre os fatos narrados e que se encontra à disposição da justiça para qualquer esclarecimento necessário”
COM A PALAVRA, O ADVOGADO FÁBIO OLIVEIRA MACHADO, QUE DEFENDE GERALDO ALCKMIN

“Ainda não tive acesso a essa ação de improbidade, mas diante de todo o conjunto comprobatório apresentado na ação contra o ex-governador, não existe absolutamente nada que possa ligar essa suposta doação, esse suposto dinheiro, à campanha dele.”

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