‘Profunda decepção comigo mesmo por ter fraquejado’, diz ex-gerente que confessou propina

‘Profunda decepção comigo mesmo por ter fraquejado’, diz ex-gerente que confessou propina

Roberto Gonçalves, que sucedeu Pedro Barusco na Área de Engenharia e Serviços da Petrobrás, admitiu ao juiz federal Sérgio Moro, em interrogatório na Lava Jato, que 'por um, dois, três erros está nessa situação'

Julia Affonso e Fausto Macedo

29 de julho de 2017 | 10h15

Roberto Gonçalves. Foto: Reprodução

O ex-gerente executivo da Petrobrás Roberto Gonçalves afirmou em interrogatório perante o juiz federal Sérgio Moro estar arrependido de ter recebido propina. O executivo prestou depoimento na quarta-feira, 26.

Gonçalves está preso desde 29 de março, quando foi capturado na Lava Jato. Ele sucedeu Pedro Barusco como gerente executivo da Área de Engenharia e Serviços da estatal no período entre março de 2011 e maio de 2012 – Barusco é aquele delator que confessou ter recebido US$ 100 milhões em propinas.

“Eu não tive vantagem nenhuma nesse processo todo”, declarou Gonçalves. “Assumi aquela gerência como sendo um fator de reconhecimento pelo meu trabalho e por um, dois, três erros meus, não para a companhia, mas erros meus, estou nessa situação. Estou totalmente arrependido. Não tirei vantagem, apesar de não ter prejudicado a minha companhia, eu não tirei vantagem nenhuma disso, estou, sim, arrependido”, confessou.

“A vantagem de estar falando a verdade é que se me perguntarem ‘n’ vezes, ‘n’ vezes vou responder a mesma coisa. Estou, sim, arrependido de tudo isso que fiz. Me sinto com a consciência tranquila em relação ao trabalho que executei. Eu defendo o trabalho que eu fiz em qualquer plenário, em qualquer tribunal, em qualquer lugar do mundo, perante qualquer auditoria interna da companhia. Quanto ao trabalho que eu fiz, eu tenho a consciência limpa. Tenho orgulho do meu trabalho, da carreira que eu fiz nessa companhia sem qualquer ajuda externa, influência externa. Tenho também uma profunda decepção comigo mesmo por ter fraquejado nesse ponto sem qualquer contrapartida.”

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Dois delatores da Lava Jato, Ricardo Pessoa, dirigente da UTC Engenharia, e Mário Goes, operador financeiro e intermediário de executivos e agentes públicos, apontaram o pagamento de propinas a Roberto Gonçalves.

Segundo o Ministério Público Federal, os delatores comprovaram documentalmente quatro depósitos de US$ 300 mil no exterior, a partir de conta em nome da offshore Mayana Trading, mantida por Mario Goes.

Apuração interna da Petrobrás imputou ao ex-gerente executivo parte das irregularidades encontradas nas licitações e contratos do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeior), como a contratação direta em 2011 do Consórcio TUC, formado, entre outros, pela Odebrecht e pela UTC Engenharia.

Autoridades suíças que investigam desdobramentos do caso Lava Jato transferiram ao Brasil investigações por crimes de lavagem de dinheiro relacionadas a Roberto Gonçalves, com base em acordos de cooperação internacional.

Foram identificadas cinco contas bancárias, uma delas registrada em nome da offshore Fairbridge Finance AS, que tem Roberto Gonçalves como beneficiário final. A Fairbridge recebeu, somente em 2011, cerca de US$ 3 milhões de offshores ligadas ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht.

Outra conta, registrada no nome da offshore Silverhill Group Investment Inc. e que também tem Gonçalves como beneficiário final, recebeu, em 2014, mais de US$ 1 milhão provenientes da conta em nome da offshore Drenos Corporation, vinculada ao ex-diretor de Serviços da Petrobrás, Renato Duque – preso e condenado na Lava Jato.