Profissionais introvertidos ou extrovertidos: quem é mais motivado para o trabalho?

Profissionais introvertidos ou extrovertidos: quem é mais motivado para o trabalho?

Fredy Figner*

15 de fevereiro de 2020 | 13h00

Fredy Figner. FOTO: DIVULGAÇÃO

Qual a primeira coisa que você pensa quando escuta a palavra “motivação” no trabalho? Alguém feliz, risonho, agitado, com os olhos brilhando, não é mesmo? Mas a realidade nem sempre é essa. Quando o assunto é motivação, outros fatores devem ser avaliados. Segundo Jung, pai da psicologia analítica, as pessoas têm duas atitudes no mundo: introversão e extroversão. Os extrovertidos são pessoas de quem a energia flui de maneira natural para o mundo externo de objetos, fatos e outras pessoas. Costumam ser impulsivos (agem antes de pensar), comunicativos e sociáveis. Geralmente gostam de ser o centro das atenções.

Na introversão, o indivíduo direciona a atenção para o seu mundo interno de impressões, emoções e pensamentos. Possuem uma postura reservada, retraimento social e facilidade de expressão no campo da escrita. Um bom exemplo são aquelas pessoas que geralmente gostam de assistir a um filme sozinho, comendo pipoca, em um sábado à noite.

Então, por que mantemos o estereótipo das pessoas extrovertidas como as mais motivadas? Veja este exemplo: Fernando é um médico sério, levemente tímido e fala o mínimo possível. Todo dia chega no horário, escuta seus pacientes ativamente, orienta-os com calma e, nos casos mais graves, faz o acompanhamento pessoalmente. Apesar de Fernando ser de poucas palavras, já tirou dinheiro do próprio bolso para custear o tratamento de pacientes. Na avaliação de satisfação do hospital, ele recebe sempre feedbacks positivos, acima dos demais médicos.

Esse profissional é sinônimo de motivação no trabalho ou não? É evidente que sim. Seu perfil é introvertido e é focado nos resultados dos tratamentos de seus pacientes. Nossa cultura sustenta o fato de que ser popular, influente, comunicativo e alegre é sinal de motivação. Mas nem sempre essa é a realidade, como acabamos de ler.

Embora a motivação seja “motivo + ação”, o fato de levantar da cama, enfrentar o trânsito, chegar ao trabalho e desempenhar as tarefas, já não seria o fato do funcionário estar motivado? Para alguns gestores não.

Certa vez, uma vaga de vendedor era oferecida por uma loja em um processo seletivo conduzido por mim. O gestor solicitou um novo vendedor para fazer parte da equipe e, após muito pesquisar, encontrei o principal vendedor da marca Y e o convidei para participar do processo.

Logo após a entrevista, o gerente me informou que não gostou do perfil do vendedor, pois ele não parecia motivado. Eu tentei entender um pouco mais sobre o que seria o tal “motivado” e adivinhe? Ele não achou o vendedor risonho, simpático, carismático, atencioso, etc. Mesmo argumentando que era um profissional extremamente estratégico, de nada adiantou. Pois bem, foi contratado um vendedor mais comunicativo. Após dois meses, adivinhe só? O novo funcionário era bem focado em relacionamentos, mas convertia pouco suas vendas.

Quando me chamam para um treinamento ou palestra sobre motivação, sempre tento compreender o que o contratante entende sobre o tema. E, acredite, já escutei muitas pérolas – o que só confirma os pré-conceitos sobre o assunto.

Portanto, penso que os introvertidos podem nos ensinar uma forma mais sutil de motivação, sem grandes exageros. Nem todos nós demonstramos motivação por altas gargalhadas, por chamar atenção ou por esbanjar simpatia. Como extrovertido, comecei a respeitar e entender cada vez mais o poder de quem está quieto, daquele que presta atenção, que sabe se posicionar na hora e da maneira certa, que escuta mais e fala menos.

*Fredy Figner é psicólogo, coach e especialista em treinamentos em grandes empresas

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.