Produtoras culturais acusam segurança do Metrô de São Paulo de confundir mulher com homem no banheiro feminino na estação Sapopemba

Produtoras culturais acusam segurança do Metrô de São Paulo de confundir mulher com homem no banheiro feminino na estação Sapopemba

Funcionário da companhia teria usado de brutalidade e crime de ódio no domingo, 10, segundo denúncia de coletivo

Júnior Moreira Bordalo

12 de abril de 2022 | 14h41

Integrantes do coletivo de batalhas de rimas e saraus Máfia das Minas acusaram um segurança do Metrô de São Paulo de “agressão e crime de ódio contra mulheres que não performam feminilidade” após um episódio ocorrido no último domingo, 10, na estação de Sapopemba, da Linha 15 – Prata. Através das redes sociais, o grupo divulgou imagens da situação e, em um dos trechos, o funcionário da organização de transporte dá um tapa no rosto de uma das mulheres para tentar derrubar o celular apontado para ele.

O caso teria se iniciado quando a produtora cultural, Julia Mendes, de 21 anos, uma mulher lésbica cisgênero (que se identifica com o gênero feminino), decidiu usar o banheiro feminino da estação. Ela estava retornando com um grupo de amigos — integrantes do coletivo — de uma ação com crianças e adolescentes no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA) de Sapopemba. Na ocasião, duas funcionárias da limpeza pensaram se tratar de um menino. “Isso é algo que acontece diariamente comigo. Já sabia que estavam me alertando. Não é um caso isolado. Tanto que já olhei para trás, balançando a cabeça, como quem diz ‘entendi que vocês estão falando comigo, mas está tudo bem’”, iniciou em entrevista ao Estadão.

“Quanto estou fazendo xixi, sou surpreendida com vários e vários socos na porta. Levei um susto muito grande. A minha reação imediata foi a abrir a porta daquele jeito mesmo”, prosseguiu. Mendes narrou que um segurança estava do outro lado já com “brutalidade”. “Disse a ele: ‘você está me constrangendo’. Ele não recuou, mesmo averiguando que não era aquilo. Ele me peitou e, aos berros, falou que não estava me envergonhando, que tinha sido acionado com uma denúncia de um homem no banheiro feminino”.

A produtora relatou que o funcionário só saiu do local quando um amigo — que ouviu os gritos do banheiro masculino chegou e falou que se tratava de uma mulher. “Entendo que ele precisa averiguar, esse não é o problema. A questão é como ele fez isso. Ao ver meu amigo, ele se sentiu ofendido e começou a gritar mais ainda. ‘Você não é o machão? Vamos ver lá fora sem o uniforme’”, teria dito.

Neste momento, os outros integrantes do coletivo já estavam reunidos e começaram a filmar a situação. O segurança, então, aparece sem a identificação no uniforme e acaba atingindo Maria Luiza, que também se identifica como mulher lésbica cisgênero. “Ele veio para cima de mim. Nesse tapa, bate no meu rosto e no celular. Ficamos sem reação, sem entender o que estava acontecendo”, contou. “O crime de ódio contra mulheres que não performam feminilidade é mais que evidente, sabe? Isso é ódio contra as mulheres que não servem de padrão para o prazer masculino. Isso está nítido”, completou.

Para Julia Mendes situações assim tendem a levantar questionamento sobre sua própria identidade. “Ainda me senti culpada por usar o banheiro, como se tivesse realmente errada. É muito desgastante. Ele nem sequer recuou e pediu desculpas”. A produtora reforçou que o incomodo não foi com a açãs das funcionárias da limpeza. “As pessoas me confundem com homem, eu sei quem eu sou. O X da questão foi como tudo isso foi abordado. Realmente parece que não sou ninguém”, lamentou.

COM A PALAVRA, METRÔ DE SÃO PAULO

Em comunicado, a equipe responsável pelo Metrô de São Paulo informou que a instituição não compactua com ações discriminatórias e que não irã tolerar desvio de conduta dos seus funcionários. “A empresa já afastou o agente de segurança e está apurando com rigor os fatos com todos os envolvidos”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.