Procuram-se talentos: o desafio das empresas de tecnologia diante da falta de profissionais

Procuram-se talentos: o desafio das empresas de tecnologia diante da falta de profissionais

Iomani Engelmann*

08 de agosto de 2021 | 03h00

Iomani Engelmann. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em um país onde 14 milhões de pessoas estão desempregadas, falar que sobram vagas e que empresas disputam profissionais em um setor parece quase absurdo. Mas essa é a realidade do segmento de tecnologia brasileiro, e que deve se intensificar nos próximos anos. O cenário de falta de talentos se agravou ainda mais na pandemia. O distanciamento social exigiu das empresas uma transformação digital urgente e reforçou o trabalho remoto, o que levou a uma disputa global por mão de obra. Assim, é necessário um esforço conjunto imediato de entidades, governo, academia, empresas e sociedade em geral para formar profissionais, suprir essa demanda e, como consequência, auxiliar no desenvolvimento econômico e social de municípios, estados e do país.

Para dar uma dimensão da relevância desse mercado de trabalho, em um levantamento realizado pela Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), a estimativa das empresas de base tecnológica, apenas de Santa Catarina, é de abrir mais de 10 mil novas vagas até 2022, e mais da metade delas para desenvolvedores. Para solucionar essa difícil equação – de um lado o número de vagas que aumenta a cada ano, e de outro poucos profissionais qualificados disponíveis – o caminho passa por uma jornada de formação de talentos. Essa iniciativa de longo prazo deve englobar todas as fases de aprendizado, inclusive com projetos para que crianças despertem para a tecnologia.

Depois, o momento é de dar acesso aos jovens a informações e cursos para começar a formação na área de tecnologia. Nesta etapa, um dos grandes desafios ainda é o baixo percentual de graduados nos cursos de engenharia, que formam boa parte dos profissionais desse mercado. Para exemplificar isso: Santa Catarina é o segundo estado do Brasil com maior percentual de alunos do ensino superior em cursos voltados às competências de tecnologia, porém apenas 11% se formam nessas graduações. Para driblar essa alta taxa de evasão uma das saídas é melhorar o aprendizado em ciências exatas no ensino fundamental. A medida pode alavancar a formação na área e consolidar ainda mais o ecossistema catarinense, que já fornece tecnologia e talentos – principalmente agora com a ampliação do sistema de trabalho remoto – para todo o país e mundo.

Outro ponto seria garantir cursos profissionalizantes, em parceria com as empresas que querem contratar. Assim, teríamos uma formação baseada na demanda do mercado, com desenvolvimento de habilidades necessárias pelas organizações. Uma iniciativa neste sentido foi lançada no ano passado pela ACATE e pelo SENAI: o DEVinHouse, um programa online para formação de desenvolvedores em nove meses e com bolsas de estudo integrais. Empresas participam do projeto como patrocinadoras e depois contratam parte dos formados. Na primeira turma, a parceira foi a Softplan e, mesmo antes da conclusão do curso, já contratou 12 alunos. A expectativa do DEVinHouse é iniciar a formação de 225 desenvolvedores neste ano. Mas, apesar de ser relevante, a medida ainda é paliativa e distante de resolver a questão. Considerada uma das principais desenvolvedoras de software do país, somente a Softplan abriu, no primeiro trimestre de 2021, uma média de 100 vagas por mês.

E, por mais que as empresas de tecnologia sejam altamente impactadas pela ausência de mão de obra – arcando com custos de formação de profissionais, disputando talentos com empresas do exterior e tendo que pagar salários acima da média — , no final das contas, toda a sociedade perde com esse deficit. As remunerações na área de tecnologia partem de R$ 3 mil e costumam ser três vezes superiores ao salário médio da indústria. Ou seja, um emprego na área pode representar um ganho significativo e capaz de gerar renda para as famílias. Outro ponto é que esse setor movimenta a economia como um todo, respondendo por apenas 3% do PIB brasileiro

Além disso, é importante destacar que empresas de outros segmentos, com a transformação digital que se impõe, também precisam desses profissionais. Estima-se que um terço dos talentos da área tecnológica atuam em companhias de outros setores da economia. Afinal, as empresas necessitam desse tipo de serviço para vender o produto na internet, desenvolver sistemas de gestão, de entrega, entre tantos outros. Já temos inclusive startups que não conseguem tirar a ideia do papel por falta de profissionais qualificados para fazer o negócio desenvolver. Assim, não é exagero dizer que se não tivermos ações efetivas e imediatas, podemos, em breve, enfrentar um “apagão” da tecnologia brasileira. Isso irá impactar todos os setores produtivos e travar a transformação digital das empresas, algo urgente para a sobrevivência dos negócios, principalmente neste cenário de crise sanitária. Ou seja, apoiar e desenhar programas de formação e incentivo a talentos na tecnologia é responsabilidade de todos e pode ser a chave para garantir a recuperação econômica brasileira e geração de empregos em um cenário pós-pandemia.

*Iomani Engelmann, presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.