Procuram-se CEOs de coragem

Procuram-se CEOs de coragem

João Marcio Souza*

25 de fevereiro de 2020 | 05h00

João Marcio Souza. FOTO: DIVULGAÇÃO

Entre as inúmeras competências ou “Soft Skills” inerentes aos CEOs (Chief Executive Officers) ou Presidentes, a Coragem mostra-se determinante para o contínuo sucesso do executivo e da organização.

O atual contexto “VUCA” (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) do mercado global de trabalho, portanto, de rápidas e constantes mudanças, exige resiliência e coragem extrema por parte dos executivos no alto escalão no momento de assumirem posições e tomarem decisões que tenham real impacto para os acionistas.

Diferentemente dos executivos de gerações passadas, mas ainda contemporâneos e no comando de muitas organizações, o atuais CEOs enfrentam desafios muito maiores ao planejar estratégias de médio e longo prazos vis-à-vis a velocidade das mudanças que hoje é significativamente maior se comparada ao período pré-global ou anterior à revolução 4.0 e, em muitos casos, observa-se que ao fim do período planejado, o executivo nem esteja mais no cargo ou na mesma empresa.

A coragem é uma competência inata que é desenvolvida e aprimorada ao longo da vida e é facilmente identificada nos executivos por meio das suas tomadas de decisões e, também, pelo modo como endereçam assuntos estratégicos aos acionistas e à alta liderança e conduzem a comunicação e as relações com todos os stakeholders.

Por outro lado, mesmo em meio a cenários adversos de mercado e mudanças estratégicas constantes, ainda é comum a figura do CEO mais clássico ou “analógico”, que demonstra comportamento linear e administra politicamente a própria retenção de forma a evitar conflitos com o Board, e afastando-se da posição de mensageiro de notícias ruins. Trata-se de um perfil executivo que “navega” de forma a não se indispor com quaisquer stakeholders  e isso pode ser extremamente prejudicial à organização, uma vez que não se ousa mudar os planos estratégicos, mas sim, trabalhar pela manutenção da posição de CEO e a preservação da própria imagem de “sucesso” perante o mercado, muitas vezes estampada equivocadamente nas capas de muitas revistas de negócio.

É preciso que um CEO deixe sua marca, seu legado e não tenha medo de seguir com sua estratégia mesmo quando outros líderes tenham opiniões contrárias. Um importante estímulo para essas tomadas de decisões dos executivos é a intuição, realidade apresentada em pesquisa realizada pela Talenses Executive sobre o modo como os líderes tomam suas decisões, em que 76% dos respondentes afirmaram que a intuição tem cada vez mais influência nas escolhas ao longo do crescimento na carreira.

A coragem para agir da maneira necessária e trazer mudanças significativas para as companhias é uma competência que vem antes da resiliência e posterior à intuição ou a visão no mundo dos negócios, e é atualmente bastante rara de se encontrar. Trata-se de uma escolha pessoal, um desejo de protagonizar, mesmo assumindo altos riscos. Como a famosa citação do jornalista e ensaísta José Ortega Y Gasset, “Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo, não salvo a mim”, portanto, a escolha do executivo consorciada com a experiência profissional adquirida ao longo de muitos anos irá certamente viabilizá-lo no momento em que ele ou ela decida protagonizar de fato e tomar decisões corajosas por meio da posição de destaque que já ocupa.

Líderes de coragem são inspiradores para a equipe, provocam ânimo no mercado e posicionam adequadamente suas empresas de acordo com os seus objetivos. É essa característica que difere um grande líder de um grande gerente. O CEO líder arrisca e não teme o fracasso, mesmo sabendo que pode fracassar. Já o CEO gerente, não arrisca por medo do fracasso.

É preciso ter em mente que, quando se escolhe este caminho, abdica-se de algumas questões pessoais e profissionais, porque nem sempre este tipo de CEO será o executivo que vai agradar a todos – e as críticas virão. Por outro lado, ele transmite aos líderes, conselho e acionistas exatamente aquilo que a empresa está enfrentando, não tem medo de se indispor internamente e leva adiante a estratégia que acredita ser a mais adequada.

Este executivo certamente terá o respeito e a autonomia que precisa para exercer sua função com êxito e trazer benefícios efetivos para a organização que representa.

*João Marcio Souza é CEO de Talenses Executive

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