Procuradoria revela os caminhos do dinheiro ilícito de Cláudia Cruz

Procuradoria revela os caminhos do dinheiro ilícito de Cláudia Cruz

Ministério Público Federal rastreou propina para deputado afastado Eduardo Cunha (PMBD/RJ), desde negócio da Petrobrás na África até a transferência de parte dos valores da conta Netherton para a offshore Köpek, em nome da mulher do parlamentar que virou ré do juiz Sérgio Moro

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt

09 de junho de 2016 | 15h49

ARANHA DA PROPINA

A força-tarefa da Operação Lava Jato rastreou minuciosamente o dinheiro que Cláudia Cruz, mulher do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), usou à farta no exterior para compras de artigos de luxo, como bolsas, sapatos e roupas nas lojas e departamentos mais requintados da Europa. Nesta quinta-feira, 9, o que tanto Eduardo Cunha temia aconteceu: Cláudia virou ré do juiz federal Sérgio Moro, que recebeu denúncia da Procuradoria da República contra a mulher do parlamentar pelos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O caminho do dinheiro começa no pagamento da Petrobrás à petroleira CBH, que controlava um campo de petróleo na África. Em 3 de maio de 2011 a estatal brasileira transferiu US$ 34,5 milhões (R$ 138.345.000,00) para a empresa e, na mesma data, houve a transferência de US$ 31 milhões da CBH para Lusitania Petroleum, uma holding de propriedade de Idalecio de Oliveira que, abrange, entre outras empresas, a própria CBH.

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Segundo a investigação, no dia 5 do mesmo mês a Lusitania depositou US$ 10 milhões em favor da offshore Acona, de propriedade de João Augusto Rezende Henriques, apontado como operador do PMDB no esquema da Petrobrás. “Os US$ 10 milhões já haviam sido combinados como pagamento de vantagem indevida”, afirma a Procuradoria.

A perseguição ao dinheiro mostra que da offshore Acona, 1.311.700,00 de francos suíços foram depositados na conta Orion SP, de propriedade de Eduardo Cunha, por meio de cinco transferências bancárias entre os dias 30 de maio e 23 de junho de 2011.

CAMINHO DO DINHEIRO

Os investigadores descobriram que ‘para dar continuidade ao estratagema criminoso e dificultar a identificação dos recursos ilícitos por parte das autoridades’, em 11 de abril de 2014 a offshore Orion SP repassa para a conta Netherton, cujo beneficiário final também era Eduardo Cunha, 970.261,34 mil francos suíços e 22.608,37 euros.

Na sequência, em agosto de 2014, houve a transferência de US$ 165 mil da conta Netherton para a offshore Köpek, em nome de Cláudia Cruz.

A conta Köpek, segundo a Procuradoria, desde 2008 já era abastecida ‘por recursos de vantagens indevidas provenientes de outras contas secretas titularizadas por Eduardo Cunha’. Da Kopec saíram pagamentos das faturas de cartão de crédito da American Express entre 2008 e 2012 e da Corner Card, entre 2012 e 2015. Todos os pagamentos são descritos na denúncia contra Cláudia Cruz.

Segundo as investigações, o restante do valor da propina paga pela CBH para fechar o negócio com a Petrobrás (em torno de US$ 8,5 milhões) e que foi depositado na conta Acona, de João Augusto Rezende Henriques, foi distribuído para diversas outras offshores cujos beneficiários ainda não foram identificados, havendo suspeitas de que outros agentes públicos receberam propinas nessa operação.

Os procuradores da força tarefa da Lava Jato ressaltam que “as provas que embasaram as acusações indicam a existência de um quadro de corrupção sistêmica encravado em praticamente todos os contratos da Diretoria Internacional da Petrobrás, sendo que o pagamento de propina era a verdadeira ‘regra do jogo'”.

Para a força-tarefa, as provas mostram desvio de recursos dos cofres da Petrobrás. “Em última análise, há evidências de que Eduardo Cunha e Cláudia Cruz se beneficiaram de recursos públicos que foram convertidos em bolsas de luxo, sapatos de grife e outros bens de uso privado.”

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA PIERPAOLO BOTTINI

Claudia Cruz responderá às imputações como fez até o momento, colaborando com a Justiça e entregando os documentos necessários à apuração dos fatos. Destaca que não tem qualquer relação com atos de corrupção ou de lavagem de dinheiro, não conhece os demais denunciados e jamais participou ou presenciou negociações ilícitas.

A NOTA DIVULGADA POR EDUARDO CUNHA NO TWITTER:

“Trata-se de procedimento desmembrado do inquérito 4146 do STF, em que foi apresentada a denúncia, pelo Procurador Geral da República, ainda não apreciada pelo Supremo.

Foi oferecida a denúncia do Juízo de 1º Grau, em que o rito é diferenciado, com recebimento preliminar de denúncia, abertura de prazo para defesa em dez dias e posterior decisão sobre a manutenção ou não do seu recebimento.

O desmembramento da denúncia foi alvo de recursos e Reclamação ainda não julgados pelo STF que, se providos, farão retornar esse processo do STF.

Independente do aguardo do julgamento do STF, será oferecida a defesa após a notificação, com certeza de que os argumentos da defesa serão acolhidos.

Minha esposa possuía conta no exterior dentro das normas da legislação brasileira, declaradas às autoridades competentes no momento obrigatório, e a origem dos recursos nela depositados em nada tem a ver com quaisquer recursos ilícitos ou recebimento de vantagem indevida.

Eduardo Cunha”

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