Procuradoria revela laços de amizade entre ‘juiz dos ingleses’ e doleiro ‘Silvinho’

Procuradoria revela laços de amizade entre ‘juiz dos ingleses’ e doleiro ‘Silvinho’

Em conversa com advogados e sem saber que encontro era ação controlada da PF, diretor de secretaria da 21.ª Vara Cível Federal relatou que doleiro já teria prestado serviços ao juiz Leonardo Safi de Melo, investigado por cobrar propina em troca de decisões em precatórios milionários

Paulo Roberto Netto

05 de agosto de 2020 | 05h00

O Ministério Público Federal apontou suposta amizade entre o juiz federal Leonardo Safi de Melo e o doleiro ‘Silvinho’. A relação teria sido revelada pelo diretor de secretaria da 21.ª Vara Cível Federal, Divannir Barile, que atuava como intermediário do magistrado para cobrar propinas em troca de decisões favoráveis em precatórios milionários.

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Leonardo Safi e Divannir Barile, junto do perito Tadeu Rodrigues Jordan, foram denunciados na segunda, 3, pela Procuradoria Regional da República da 3.ª Região (PRR3) por corrupção, lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. O MPF também pediu abertura de inquérito para apurar outros casos envolvendo o grupo.

Segundo a denúncia, após elaborar laudo fraudulento para a Empreendimentos Litorâneos S/A, o perito Jordan convocou dois advogados da empresa para uma reunião com presença de Barile. No ato, o diretor cobrou propina em nome do juiz ‘dos ingleses’, ao se referir a Leonardo Safi.

Os advogados levaram o caso à PF, que realizou ação controlada em um segundo encontro conduzido em março deste ano. Na ocasião, Barile tratou Safi como ‘cardeal’, dizendo que era o ‘longa manus’ do juiz. Durante a conversa, o diretor afirmou que, em acordos ilícitos firmados com outras empresas no passado, o magistrado cobrava que parte da propina, entre 10% a 20%, fosse feita em espécie, reais ou dólares.

Se fosse preciso, Barile disse aos advogados que poderia usar os ‘serviços’ do doleiro ‘Silvinho’, com quem ele e Leonardo Safi tinham amizade.

LEIA O DIÁLOGO:

DIVANNIR – Gente eu vou deixar bem claro uma coisa, pra gente poder
avançar, tudo aqui eu to sendo ‘longa manus’ do CARDEAL lá, e ele é, combinou tá combinado.
ADVOGADO – Mas eu quero dizer o seguinte.
DIVANNIR – Uma coisa que ele sempre me pontuou, é o seguinte, em
outros negócios que a gente fez é, teria a possibilidade de uma parte, não importa o volume, em dinheiro?
ADVOGADO – Ah isso foi conversado com o cliente, eu acho que, não posso te responder.
ADVOGADO – Mas quanto é isso em termos representativos?
DIVANNIR – Eu acho que pra dar uma diluída nisso aí, é 10 a 20% em
dinheiro, é uma coisa que quebraria bastante essa movimentação financeira.
ADVOGADO – 10 a 20% cash?
DIVANNIR – Cash, pode ser dólar ou real, e se precisar uma outra
possibilidade, eu tenho amizade com o SILVINHO, com o doleiro, tá, se precisar receber pelo doleiro também dá pra receber.
ADVOGADO – Isso pode ser.
DIVANNIR – Inclusive o CARDEAL é amigo dele.
ADVOGADO – Entendi, isso ajuda muito né?
DIVANNIR – Já foi lá, já conhece, e ele não ‘achaca’ não, em termos de percentual.

O juiz Leonardo Safi de Melo

A Procuradoria ainda busca identificar ‘Silvinho’. Em outro momento da conversa, Divannir apontou aos advogados que o doleiro poderia utilizar empresas com atividades que movimentam grandes quantias de dinheiro para simular serviços. Segundo o diretor, ‘Silvinho’ tinha ‘n firmas’ que trabalham sob seu guarda-chuva.

“Qual o tipo de firma? Se é firma de festa de aniversário, que entra muito dinheiro, sai muito dinheiro”, disse.

O pagamento de propina, ao fim, ficou firmado por meio de contratos firmados com as advogadas Deise Mendroni de Menezes e Clarice Mendroni Cavalieri, que atuavam em conluio com Leonardo Safi e Divannir Barile. Ambas também foram denunciadas.

Precatórios. O esquema de venda de sentenças em precatórios em troca de propinas na 21ª Vara Federal Cível foi desbaratado pela Polícia Federal na Operação Westminster, deflagrada no dia 30 de junho. Leonardo Safi e Divannir Barile foram levados presos pelos investigadores, mas foram beneficiados por liminares do STJ, que colocou os dois em liberdade monitorada.

Segundo as investigações, o juiz escolhia processos milionários para o esquema. Por meio do secretário da 21.ª Vara Federal Criminal, Leonardo Safi se aproximava de uma das partes da ação e pedia uma ‘comissão’ para expedir os precatórios.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO JUIZ LEONARDO SAFI DE MELLO
O advogado Leonardo Massud, que defende o juiz Leonardo Safi de Melo, informou que vai se manifestar sobre a denúncia quando seu cliente for notificado oficialmente.

COM A PALAVRA, OS CRIMINALISTAS RUBENS DE OLIVEIRA E RODRIGO CARNEIRO MAIA, DEFENSORES DE DEISE MENDRONI DE OLIVEIRA
“Trata se de denúncia recente, o qual esta defesa técnica ainda não teve conhecimento, bem como ainda não foi alvo de recepção pelo E. TRF-3”

COM A PALAVRA, OS DEMAIS DENUNCIADOS
A reportagem busca contato com os demais denunciados. O espaço está aberto a manifestações.

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