Procuradoria denuncia doze por rede de contrabando de imigrantes para os EUA

Procuradoria denuncia doze por rede de contrabando de imigrantes para os EUA

Bengalês utilizava escritório de agência de turismo no Brás, em São Paulo, para articular travessias ilegais de imigrantes asiáticos, segundo Ministério Público Federal; Brasil era um dos países da rota do tráfico humano

Paulo Roberto Netto

26 de novembro de 2019 | 22h48

O Ministério Público Federal apresentou denúncia contra doze pessoas acusadas de participação em esquema transnacional de contrabando de imigrantes para os Estados Unidos. O grupo foi alvo da Operação Estadão Brás, deflagrada em outubro pela Polícia Federal. O bengalês refugiado no Brasil Saifullah Al Mamun é apontado como líder da rede e um dos articuladores das travessias ilegais.

Posto da patrulha da imigração dos Estados Unidos na fronteira com o México. Foto: Ariana Drehsler / AFP

Além de Al Manun, foram denunciados outros seis bengaleses, três paquistaneses e dois brasileiros. O grupo é acusado de cobrar entre R$ 25 mil a R$ 47 mil para atravessar um imigrante ilegalmente para os Estados Unidos, utilizando o Brasil como rota. O trajeto era realizado a pé pela Selva de Darién, território entre a Colômbia e o Panamá.

A rota é considerada de alto risco devido às condições naturais da travessia, presença de animais selvagens e ocorrências de sequestros e ataques deflagrados por quadrilhas de narcotraficantes da região.

A travessia ilegal era articulada por Al Mamun por meio de sua agência de turismo montada na região do Brás, em São Paulo. Segundo interceptações telefônicas, dados bancários, documentos e emails obtidos pelos investigadores, o bengalês atuava contrabandeando pessoas para os Estados Unidos desde 2016, a maioria dos imigrantes era de países asiáticos, como Bangladesh, Paquistão, Nepal, Índia e Afeganistão.

Em relatório apresentado à Justiça para a deflagração da Operação Estação Brás, que levou Al Mamun para a prisão, a Polícia Federal afirmou que o empresário ‘tinha poder atual e efetivo de corromper agentes públicos brasileiros’. Alguns elementos apontados pelos agentes seria a cooptação de um policial civil e até mesmo o uso de uma viatura para ‘tráfico de seres humanos’.

A investigação aponta que os imigrantes eram recepcionados no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e mantidos em locais controlados pela organização criminosa no Brás. Eles permaneciam no Brasil até pagarem o valor da travessia — R$ 25 mil para entrada no Brasil ou R$ 47 mil para ida aos Estados Unidos.

Para entrar com os imigrantes no Brasil, a organização de Al Mamun apresentava pedidos de refúgio falsos, utilizando identidades falsas e justificando que os imigrantes ficariam na casa de parentes no País. Dois advogados brasileiros ficavam a cargo desta atividade. Outras opções usadas pela quadrilha para ingressar os imigrantes era o uso de passaportes falsos e apresentação de cartas de tripulantes marítimos falsas, que dispensariam vistos.

Aqueles que continuavam viagem rumo aos Estados Unidos eram encaminhados para Rio Branco, no Acre, e transportados até a fronteira com o Peru. A jornada terrestre até os EUA seguiria então pelo Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e México.

O empresário Saifullah al Mamun, refugiado no Brasil. Foto: Polícia Federal

O Ministério Público Federal afirma que há registro da atuação do grupo criminoso em outras cidades brasileiras, como Boa Viagem, em Roraima, e Recife, no Pernambuco. Nos Estados Unidos, Al Mamun acumula oito acusações por conspiração e contrabando de pessoas. As ações correm em um tribunal de justiça do Texas.

O dinheiro obtido com os imigrantes pela travessia era ocultado em contas abertas em nome das vítimas com documentos falsos.

Além disso, Al Mamun remetia parte dos valores para o exterior e também realizava saques em quantias fracionadas, de forma a evitar o acionamento de órgãos de controle financeiro ou despertar suspeitas de lavagem de dinheiro. Somente no Brasil, entre 2014 e 2019, a organização liderada por Saifullah teria movimentado ao menos US$ 10 milhões, indicou a PF.

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