Procuradoria apura a criação de selo ‘não é racista’ elaborado pela Fundação Palmares

Procuradoria apura a criação de selo ‘não é racista’ elaborado pela Fundação Palmares

Instituição se propõe a limpar a imagem de pessoas acusadas de racismo, mas, segundo o Ministério Público Federal, o projeto não se encaixa nas atribuições previstas na sua lei de criação

Fernanda Nunes / RIO

27 de maio de 2020 | 20h47

A Procuradoria da República no Rio de Janeiro apura se a Fundação Palmares, criada em 1998 para defender a cultura negra, está se desvirtuando das suas funções ao criar o selo ‘Palmares garante: não é racista’. Com o selo, a instituição se propõe a limpar a imagem de pessoas acusadas de racismo. Mas, segundo a Procuradoria, o projeto não se encaixa nas atribuições previstas na sua lei de criação.

Nas redes sociais, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, conhecido por negar o racismo estrutural no Brasil, disse que ‘pretende restaurar a reputação de pessoas que injusta e criminosamente foram tachadas de racistas em campanhas de difamação e de execração pública promovidas especialmente pela esquerda. Ou seja, limpar a imagem pública das pessoas atingidas’.

Em seu perfil no twitter, ele se identifica como um negro de direita, antivitimista e inimigo do politicamente correto. Diz também sofrer perseguição e censura.

O jornalista Sérgio Camargo na sede da Fundação Cultural Palmares, em Brasília. Foto: Twitter / Reprodução

Em dezembro do ano passado, Camargo foi afastado do cargo pela Justiça do Ceará, que considerou suas declarações nas redes sociais incompatíveis com o papel do órgão para o qual foi escolhido. Passados dois meses, em fevereiro deste ano, sua nomeação foi liberada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), atendendo recurso da Advocacia Geral da União (AGU).

Entre as postagens questionadas pela Justiça do Ceará constavam uma em que se referiu à ativista norte-americana Angela Davis como ‘comunista e mocreia assustadora’. Outra em que sugere a entrega de uma medalha ao ‘branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo’ e outra na qual afirmou que a vereadora Marielle Franco deveria morrer para deixar “de encher o saco”. Marielle e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em março de 2018.

“Todo espaço que dá visibilidade ao movimento negro é positivo. Mas, quando um espaço público nega a existência do racismo, inclusive suas dores e as violências sofridas, presenciamos um retrocesso”, destacou Keka Bagno, representante do Movimento Negro Unificado (MNU) em Brasília. Ela nega que o movimento negro seja vitimista, como afirma o presidente da Fundação Palmares. “Muito pelo contrário, nosso movimento é de afirmação diária. Ao criar um selo anti-racista, o governo tenta nos colocar numa posição equivocada, invertendo posições”, diz Bagno.

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