Procuradoria afirma que Odebrecht e Andrade Gutierrez pagaram R$ 632 mi em propinas

Informação, amparada em documentos enviados pela Suíça, consta das denúncias contra os presidentes das duas maiores empreiteiras do País, Marcelo Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo, presos da Lava Jato

Redação

25 de julho de 2015 | 06h00

Os presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, respectivamente, foram presos na nova fase da Lava Jato. Foto: Reuters e Estadão

Os presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, respectivamente, foram presos na 14ª fase da Lava Jato. Foto: Reuters e Estadão

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O Ministério Público Federal afirma que as duas maiores empreiteiras do País, a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, pagaram R$ 632 milhões em propinas para obter contratos bilionários na Petrobrás. Nesta sexta-feira, 24, a força-tarefa da Operação Lava Jato denunciou criminalmente os presidentes das construtoras – Marcelo Bahia Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo, ambos presos desde 19 de junho – e outros 20 investigados, alguns ligados a eles, um funcionário da Petrobrás e operadores de propinas.

Os 22 são acusados de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Alguns acusados estão presos preventivamente desde o dia 19 de junho, quando foi deflagrada a 14ª fase da Operação Lava Jato – batizada Erga Omnes. Na denúncia da Andrade Gutierrez são 13 acusados, por 167 atos de corrupção, no total de R$ 243 milhões, e 62 atos de lavagem de dinheiro, envolvendo um montante de R$ 6,79 milhões e US$ 1 milhão.

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Na denúncia da Odebrecht são 13 denunciados também, por 56 atos de corrupção, no total de R$ 389 milhões, e 136 atos de lavagem, no total de R$ 1 bilhão. São mais de R$ 7 bilhões buscados de ressarcimento.

Quatro acusados – o ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa (Abastecimento), o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco, o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque – são citados nas duas denúncias.

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No caso da Andrade Gutierrez, a denúncia envolve obras em oito unidades da Petrobrás, entre elas o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), a Refinaria de Paulínia (Replan), em São Paulo, as obras no Cenpes (centro de pesquisa da estatal), no Rio e o Gasoduto Urucu-Manaus. São R$ 8,94 bilhões em obras.

Já no caso Odebrecht, a denúncia envolve a construção do edifício sede da Petrobrás, em Vitória (ES), entre 2006 e 2014, o contrato da Braskem de compra de nafta da Petrobrás e os contratos em refinarias e no Comperj – dentro do esquema de cartel, denunciado inicialmente pela Lava Jato.

Pelo esquema, PT, PMDB e PP fatiavam diretorias na estatal, por meio das quais arrecadavam de 1% a 3% nos contratos bilionários fechados com empreiteiras de um cartel. “Nos aproximamos da verdade por meio de provas e documentos”, disse o procurador da República Deltan Dallagnol.

Foi uma alusão aos extratos bancários enviados pela Suíça que, segundo o Ministério Público Federal, comprovam que a Odebrecht pagou propinas “em valores elevados” no exterior a ex-diretores da estatal petrolífera.

O delegado da Polícia Federal Eduardo Mauat da Silva disse que o embate da Lava Jato “é profissional e técnico, embate de ideias, trabalho na técnica”. ”Esperamos que a operação (Lava Jato) não seja mais uma em que as pessoas são presas, condenadas e o dinheiro recuperado, mas não haja mudança da mentalidade.”

Mauat disse que neste caso “não existem vilões e mocinhos, mas partícipes, cada um com sua responsabilidade”.

O procurador da República Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Operação Lava Jato, afirmou nesta sexta-feira, 24, durante oferecimento de denúncia contra a cúpula das duas maiores empreiteiras do País, Odebrecht e Andrade Gutierrez, que já foram recuperados R$ 870 milhões aos cofres públicos. Do total, R$ 385 milhões são objeto de repatriação.

Segundo ele, vive-se “um momento histórico”. “Nós também vivemos um período de cifras históricas. Por um lado, essas cifras são uma tragédia. Elas são uma tragédia quando elas representam um valor desviado dos cofres públicos jamais visto antes na história.

Esses desvios deixam uma cicatriz na segurança, na educação e na saúde e nós não conseguiremos pagar essas cicatrizes. Por outro lado, essas cifras históricas nos trazem uma esperança, porque jamais houve uma recuperação de valores tão grande na história do Brasil”, afirmou Deltan Dallagnol.

“Nós estamos falando de um valor já restituído aos cofres públicos de R$ 870 milhões. Esses valores foram restituídos por meio de acordo de colaboração firmados entre investigados e Ministério Público Federal. Desses valores, R$ 385 milhões, são objeto de repatriação. Quando na história, antes do caso Lava Jato, nós tínhamos uma repatriação inferior a R$ 45 milhões, apenas nesse caso nós temos uma repatriação de R$ 385 milhões. A título de multas e ressarcimentos, o Ministério Público já pediu em feitos cíveis o valor de R$ 4,4 bilhões de reais, em feitos criminais, o valor de R$ 2,2 bilhões.”

A denúncia será analisada pelo juiz federal Sérgio Moro, que deve decidir até o início da próxima semana se abre ou não processo contra os acusados, que passariam a ser réus. A Operação Erga Omnes, que teve como alvo os executivos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, são desdobramento da Operação Juízo Final, de 14 de novembro de 2014. Na ocasião foram denunciados os executivos do primeiro pacote de investigados do núcleo empresarial do esquema de corrupção na Petrobrás.

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