Procurador municipal de Registro não admitia mulher na chefia, dizem promotores

Procurador municipal de Registro não admitia mulher na chefia, dizem promotores

Pepita Ortega

30 de junho de 2022 | 14h25

Procuradora-geral foi agredida dentro da prefeitura por colega em Registro (SP). Fotos: Reprodução

No âmbito das apurações que culminaram na denúncia contra o procurador municipal de Registro Demétrius Oliveira de Macedo, por tentativa de feminicídio da chefe Gabriela Samadello Monteiro, testemunhas relataram ao Ministério Público que o agressor, agora réu, apresentava um ‘comportamento diferente do acusado em relação às mulheres com quem ele trabalhava’.

Segundo os promotores Daniel Godinho e Ronaldo Muniz, que subscrevem a acusação contra Demétrius, havia um comportamento diverso nas ocasiões em que o procurador estava sob chefia de mulheres, que não era o mesmo ao apresentado quando estava sob chefia masculina.

De acordo com as investigações, o procurador passava a não querer receber ordens, acatar as ordens, e ‘ficava contrariado de estar sendo chefiado por uma mulher’. Os promotores indicam ainda que, no âmbito do procedimento interno que teria sido o estopim para as agressões dentro da prefeitura, registradas em vídeo no último dia 20, é mencionado um caso de um desacato que o procurador teria praticado contra a chefe.

“Algo assim, de palavras duras, de não querer cumprir algumas funções. Não só quanto à vítima nesse caso, mas quanto a outras mulheres que falam abertamente: quando se tratava de um homem ocupando essa posição de destaque o comportamento era totalmente diferente, de acatar ordem, fazer o trabalho da forma como era pedida, de entregar aquilo que se espera. Quando uma mulher ocupava esse cargo o comportamento se alterava para esse comportamento de enfrentamento, de não se conformar de estar numa posição em que uma mulher ocupa um cargo de superioridade hierárquica”, relatou o promotor Daniel Godinho.

Preso preventivamente desde o dia 23, Demétrius responde não só por tentativa de feminicídio, mas também por injúria e coação no curso do processo. Há uma expectativa dos promotores de que seja realizada uma audiência preliminar em dois ou três meses e que o caso possa ser levado ao Tribunal do Júri em cerca de um ano.

O juiz Raphael Ernane Neves, da 1ª Vara de Registro, aceitou a denúncia oferecida pelos promotores Daniel Godinho e Ronaldo Muniz na terça-feira, 28, e desde então foi aberto prazo de dez dias para aos advogados do procurador apresentarem a defesa. “O Ministério Público apresentou descrição suficiente dos fatos criminosos relacionados à ofensa à integridade corporal”, diz um trecho da decisão.

Como mostrou o Estadão, em um primeiro momento, o juiz não especificou os crimes que motivaram a ação penal. Após um recurso do Ministério Público, a decisão foi aditada. O magistrado se justificou dizendo que não queria “antecipar juízo” ou “influenciar” um eventual julgamento no Tribunal do Júri.

Para a Promotoria, não há dúvida sobre a imputação de tentativa de feminicídio. A denúncia ressaltou que Macedo agiu com “evidente intento homicida” e “tentou matar” Gabriela.

“A brutalidade, a forma como ele busca a cabeça da vítima atingir com golpes. O vídeo é uma fração das agressões sofridas pela vítima. Os relatos dos colegas que viram é de que ela se inicia com uma gravidade ainda maior, sempre buscando a cabeça. Para ser contido as servidoras tem uma dificuldade extrema. Uma delas inclusive foi agredida no ímpeto de ele continuar na sua intenção de matar a vítima. Só depois de muito esforço é que as servidoras consegue salvar a vida da vítima, trancando ela numa sala, para que ele não conseguisse ter acesso”, indicou o promotor Daniel Godinho.

O promotor Ronaldo Muniz ressalta que o vídeo ‘diz por si próprio’, mas não retrata o ‘episódio integral’ envolvendo Demétrius. Para ele, a tentativa de homicídio está ‘bastante demonstrada com a gravidade a recorrência continuidade das agressões’.

“É o registro do ataque violento a partir de um momento que ele já estava em curso. O que eu quero dizer com isso é que já havia violência antes do vídeo começar. A intensidade, a recorrência e o local dos golpes, na região vital do corpo demonstram, ao nosso ver, a vontade de matar”, explica.

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