Procurador ligado a Serra pode sair candidato ao cargo de chefe do Ministério Público de SP

Mateus Coutinho

23 Janeiro 2014 | 07h00

Luiz Marrey, que foi secretário de Justiça do tucano, deve decidir nesta quinta feira, 23, se concorrerá às eleições internas.

por Fausto Macedo

O procurador Luiz Antonio Guimarães Marrey, 58 anos, aliado do ex-governador José Serra (PSDB) e próximo do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), diz que “ainda não decidiu”, mas o discurso ele já tem pronto para concorrer ao cargo de procurador-geral de Justiça de São Paulo, posto máximo do Ministério Público Estadual.

“Estou refletindo, ainda não decidi”, afirma Marrey, três vezes procurador-geral (1996/2000 e 2002/2004).

A notícia da candidatura Marrey, antecipada pela coluna de Sônia Racy, no Estadão, terça feira, agita as promotorias. No Ministério Público há 34 anos, embora tenha passado um longo período fora da instituição, ocupando cargos no Executivo, Marrey sustenta que são muitos os apelos de colegas que desejam o seu retorno ao comando.

Nos bastidores das promotorias comenta-se que serristas o procuraram com o propósito de incentiva-lo a concorrer ao cargo de número 1 do Ministério Público. Marrey afirma que apenas promotores e procuradores o tem assediado.

Até recentemente o próprio Marrey dizia e reiterava a interlocutores que não mais tinha pretensões de tentar reassumir a cadeira de mandatário da instituição. “Meu tempo já passou, agora quero dar meus pareceres”, comentava, em alusão à tarefa que ora exerce em processos perante o Tribunal de Justiça.

Parece ter mudado de planos.

As eleições para procurador-geral estão marcadas para 5 de abril. Os promotores em todo o Estado, que são 2 mil profissionais, e mais 300 procuradores, podem votar em até 3 nomes. A lista tríplice é enviada ao governador, que tem prerrogativa constitucional de fazer a escolha.

O chefe do Executivo pode escolher quem quiser, independente da colocação do candidato.

O atual procurador-geral, Márcio Fernando Elias Rosa, vai concorrer à reeleição. Ele assumiu o cargo em abril de 2012, nomeado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Nessa quinta feira, 23, Marrey vai se reunir com seu grupo. O encontro deverá ocorrer na residência de um ex-diretor geral do Ministério Público. “Vou conversar com meus colegas e aí tomarei uma decisão.”

Se alcançar novamente a cadeira de procurador-geral, Marrey irá deparar-se com um cenário delicado: estão em curso investigações importantes contra antigos aliados seus, abertas na gestão Elias Rosa.

Por exemplo, inquéritos em que é citado o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), que era vice de Serra quando Marrey exerceu a função de secretário municipal de Negócios Jurídicos – cargo que um promotor muito próximo de Marrey exerceu na administração Kassab.

O ex-prefeito é alvo de denúncias que o envolvem em suposto esquema de corrupção na administração municipal. Também cairá na mesa de Marrey, se reconduzido ao posto de procurador-geral, o cartel dos trens do setor metroferroviário – esquema que teria operado entre 1998 e 2008 nas administrações Mário Covas, que o nomeou duas vezes procurador-geral de Justiça, José Serra, seu amigo, e Geraldo Alckmin, que o nomeou em 2002, em sua terceira passagem como chefe do Ministério Público Estadual.

ESTADO: O sr. é candidato?

Luiz Antonio Guimarães Marrey: Eu tenho recebido apelos de dezenas de colegas do Estado inteiro. Eu estou refletindo, mas não decidi ainda. Vou pensar e, no momento oportuno, vou resolver se aceito ou não o apelo dos colegas para essa disputa. A abordagem é muito grande.

ESTADO: O sr. foi secretário dos Negócios Jurídicos do governo José Serra na Prefeitura paulistana, tendo Gilberto Kassab como vice prefeito. Depois, o sr. foi secretário de Estado da Justiça da gestão Serra no governo de São Paulo e, mais tarde, secretário-chefe da Casa Civil de Alberto Goldman. Isso não o inibe?

Marrey: De maneira nenhuma. Quero dizer que fui secretário e voltei ao Ministério Público. Não sou filiado a partido político e tenho histórico de exercício independente de minha atividade. É só consultar o período em que assumi a direção do Ministério Público. Será possível constatar, de maneira evidente, que exerci o cargo com independência. Volto a dizer: não sou filiado a partido político, exerci minha atividade de maneira honrada. Denunciei secretária de Estado do governo Mário Covas por peculato em pleno exercício do cargo.

ESTADO: Os apelos são só de colegas ou dos políticos com os quais o sr. trabalhou e conviveu?

Marrey: São só de colegas e nem teria cabimento (que políticos o procurassem). É uma questão interna do Ministério Público. Os apelos são dos promotores e procuradores de Justiça. Quem transitar pela instituição vai encontrar muitos deles pedindo (sua volta). Eu não posso andar no corredor da instituição que já vêm os apelos. E também estou recebendo muitos telefonemas de diversos lugares do Estado.

ESTADO: O que eles querem?

Marrey: Eles querem um Ministério Público vibrante, com uma clara agenda para a sociedade, baseada no combate à violência e à corrupção.

ESTADO: Promotores criticam o fato de o sr. ter ligações muito próximas com Serra e com ele ter trabalhado na administração pública. Não afeta sua independência?

Marrey: Isso é uma manifestação de muito nervosismo diante da possibilidade de eu me apresentar candidato. É curioso porque estão vindo com essa história, mas não abordam que o Márcio (Elias Rosa, atual procurador-geral) é afilhado político do Grella (Fernando Grella, secretário de Segurança Pública de Alckmin e ex-procurador-geral de Justiça em dois mandatos). Foi criado no bolso do colete do Grella. Não tenho medo de comparar históricos.

ESTADO: O procurador Elias Rosa apoiou o sr. para uma vaga no Conselho Nacional do Ministério Público.

Marrey: Eu não fui lá pedir nada. Ele apoiou meu nome para o Conselho Nacional por iniciativa dele. Eu não pedi, me foi colocado que era uma necessidade do Ministério Público de São Paulo (colocar algum representante da instituição no Conselho). Engraçado venderem isso como uma ingratidão. Ninguém deve nada para ninguém. Não indiquei ninguém para a gestão atual, fiquei na minha. Também não atrapalhei em nada. Não é possível quererem cassar minha cidadania de Ministério Público. Não posso botar o pé no Ministério Público que os colegas vêm me consultar. Ou eu me aposento ou peço asilo político em Portugal. Ou fujo dos colegas ou aceito (sair candidato). A decisão (sobre a candidatura) vai ser breve. Desse jeito não pode ficar mais. Ou volto para minha vida normal, simplesmente cuidando dos processos, ou me aposento. Não posso ficar nesse limbo.

ESTADO: O sr. tem compromisso com Kassab?

Marrey: Meu único compromisso é com a sociedade paulista e com os promotores que integram a instituição. É o mesmo compromisso que segui nas 3 vezes em que fui procurador-geral. Essas gestões foram reconhecidas, tanto que fiz meus sucessores (José Geraldo Brito Filomeno e Rodrigo Pinho, ex-procuradores-gerais). Isso mostra que a carreira aprovou (suas gestões à frente do Ministério Público). Quem se lembra do que foi feito naquela época já sabe o que vai ser feito agora, uma gestão independente, profissional, aberta à sociedade.

 

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