Procurador denuncia delegado ‘Carlinhos Metralha’ por assassinato de líder do MRT que sequestrou cônsul japonês na ditadura

Procurador denuncia delegado ‘Carlinhos Metralha’ por assassinato de líder do MRT que sequestrou cônsul japonês na ditadura

Ministério Público Federal acusa Carlos Alberto Augusto pelo homicídio qualificado do sindicalista Devanir José de Carvalho

Rayssa Motta

26 de maio de 2021 | 20h27

Na manhã do dia 5 de abril de 1971, o sindicalista Devanir José de Carvalho, líder do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), foi vítima de uma emboscada armada por agentes do Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS) de São Paulo. Sem saber que estava indo ao encontro dos militares, ele foi atraído até Tremembé, quando a cidade ainda era um bairro da capital paulista, e baleado com um tiro de metralhadora.

A partir daí, as versões para a morte do guerrilheiro se contradizem. Na narrativa oficial, Devanir morreu a caminho do hospital, com o tiro fatal na perna. “O terrorista Devanir José de Carvalho, ocupando Volks cor azul chapa fria AE 3248, portando metralhadora, manteve tiroteio com policiais e, ferido gravemente, não resistiu e morreu a caminho do hospital”, diz o relatório dos militares.

Mais de 40 anos depois, a história começa a ser passada a limpo pelo Ministério Público Federal, que na semana passada ofereceu denúncia à Justiça, por homicídio qualificado, contra o o delegado Carlos Alberto Augusto, o ‘Carlinhos Metralha’, acusado de participação na morte do sindicalista. De acordo com o documento, Devanir na verdade foi levado com vida ao Deops, onde teria sido submetido a sessões de tortura durante três dias. Ele entrou na mira da repressão depois de participar do sequestro do cônsul japonês Nobuo Okuchi, em março de 1970.

Fotografia do cadáver de Devanir. Foto: Reprodução

O acervo de provas enviado para a 1.ª Vara Criminal Federal de São Paulo inclui depoimentos de testemunhas, a fotografia do cadáver com hematomas no rosto e no corpo de Devanir e o atestado de óbito sem detalhamento sobre a causa da morte. O MPF afirma que o laudo foi falsificado como ‘legalizar’ o assassinato do sindicalista pelas mãos do Estado.

“Em verdade, Devanir foi preso ainda vivo, levado para o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), oportunidade em que foi barbaramente torturado por três dias – entre os dias 05 a 07 de abril de 1971 – pela equipe de Fleury, inclusive com a participação do denunciado Carlos Alberto. Como não conseguiram obter nenhuma informação dele, Devanir foi morto no dia 7 de abril, pela manhã. Em seguida, o laudo necroscópico “legalizou” a morte, confirmando a versão oficial de que Devanir nunca fora preso e que morrera em suposta troca de tiros com a polícia”, diz um trecho da denúncia assinada pelo procurador Andrey Borges de Mendonça.

O procurador aponta como agravantes do crime motivo torpe, recurso que tornou impossível a defesa da vítima, emprego de tortura, abuso de autoridade, violação do dever funcional e o fato do militante estar sob responsabilidade do Estado quando foi morto.

Na avaliação do Ministério Público Federal, não cabe prescrição nem anistia à conduta do delegado. Isso porque, segundo argumenta a Procuradoria, os fatos denunciados se deram em um contato de crimes contra a humanidade, que não são passíveis de prescrição, os prazos permanecem em aberto uma vez que o corpo de Devanir nunca foi encontrado.

COM A PALAVRA, CARLOS ALBERTO AUGUSTO 

A reportagem busca contato com o delegado acusado. O espaço está aberto para manifestação (rayssa.motta@estadao.com).

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