Proclamou e sustentou a Independência

Proclamou e sustentou a Independência

José Renato Nalini*

30 de junho de 2022 | 05h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Pedro I não foi somente o proclamador da Independência do Brasil. Também foi um defensor dessa desvinculação, pois o grito do Ipiranga não foi suficiente para pacificar uma Nação dividida.

Prosseguia em maio de 1823 a Guerra da Independência e as tropas portuguesas ocupavam as capitais da Bahia, Maranhão, Grão-Pará e Cisplatina. O Imperador fora sagrado em 1º de dezembro de 1822, mas o Império não havia sido reconhecido por qualquer outra nação.

Muitos pensavam que poderia haver um retorno à situação anterior e o Brasil continuar vinculado a Portugal. Gente influente, como o baiano José da Costa Carvalho, que foi presidente da Província de São Paulo e se casou em 1822 com Genebra de Barros Leite, viúva do rico brigadeiro português Luís Antonio de Sousa.

Atribui-se a Costa Carvalho haver elencado sete motivos para que o Brasil voltasse a se unir a Portugal. São eles: 1. O Brasil deve unir-se a Portugal, logo que este desista de reconquistá-lo; 2. Por morte de D. João VI, o Imperador será Rei de Portugal e com isso teremos melhores relações com a Europa; 3. A união é benéfica porque Portugal é rico e se sustentará sem pesar ao Brasil; 4. Lisboa será o porto adequado a desenvolver nosso comércio; 5. O Brasil precisa dos mestres lusos para a Universidade; 6. Precisamos da tropa portuguesa para nos defender; 7. Labatut já deveria ter proposto a capitulação a Madeira, ainda que perdesse algo.

Dom Pedro ficou muito irritado com os “sete horrendos princípios” e respondeu a cada um deles, em publicação no jornal carioca “O Espelho”, com o pseudônimo “O Brasileiro ultra-brasileiro”.

Justificou a independência, dizendo que o Brasil “deu o passo mais arriscado que podia dar” e que uma das razões foi a de “não querermos aturar jugo de ferro, podendo gozar de uma liberdade, como gozamos, para que a todo tempo não tivéssemos de carregar com um velho às costas e para que o Brasil prosperasse, como vai prosperando”.

A segunda questão era dinástica e Dom Pedro pretendia casar sua filha, a carioca Maria da Glória, com o tio, o Infante Dom Miguel. Ainda assim respondeu: “O nosso Imperador dá-se por muito satisfeito com o seu Império, não ambiciona mais que governa-lo bem, mantendo, como Defensor Perpétuo, a sua integridade e independência; sabe que o Império Romano quando se engrandeceu é que sucumbiu; quer somente viver com os seus brasileiros, que bem claro já o disse a Seu Augusto Pai, que de Portugal nada, nada, não queria nada; se desgraçadamente se fizesse tal união, o Brasil perderia grande parte de suas forças em socorrer a Portugal e não tiraria utilidade alguma”.

Quanto às finanças, D. Pedro disse que só mereceria “duas gargalhadas e nenhuma resposta”. Escorou-se em seu Ministro da Fazenda, José Bonifácio e afirmou que a situação financeira do Brasil era muito superior à de Portugal.

Em relação ao porto de Lisboa, o Imperador sustentou que nossa orla era imensa e que fazer chegar nossos produtos por Lisboa seria “bom, ótimo, isto é maravilhoso para enriquecer os negociantes de nosso Portugal e empobrecer os do Brasil. O Brasil não precisa de interposto na Europa. O Brasil só precisa de si, e todos precisam dele”.

De igual forma, o “Brasileiro-ultrabrasileiro” ironizou a alegada vantagem que adviria da “importação” de mestres de Coimbra para ensinar em nossa Universidade. Esta ainda não existia, embora se cogitasse disso. Foi sarcástico: “não há mais mestres no mundo, senão os da Universidade de Coimbra, que agora estão ótimos! Em forte desgraça está a Europa! Todas as nações hão de mandar seus concidadãos à Universidade de Coimbra, senão ficam todos burros; não há mais mestres no mundo, forte desgraça, valha-nos Deus!”.

A irritação imperial também constou da resposta ao sexto quesito de Costa Carvalho. Como é que o Brasil, que teve de expulsar à força as tropas portuguesas, iria recorrer a elas se delas quis se ver livre e de fato se viu?

A última afirmação também foi refutada. Era a respeito da rendição que o General Labatut, comandante das forças brasileiras que lutavam na Bahia contra os portugueses, deveria oferecer ao oponente, brigadeiro Madeira de Melo. Dizendo que o Brasil estava muito mais forte, asseverou: “Isto é de se por as mãos à cabeça! Isto ninguém atura, nem um santo. É melhor dizer que quer que o Império, sua pátria, volte a colônia, e que esteja às ordens de Portugal, e que todas as despesas e tudo que temos feito seja baldado”.

Termina por afirmar que tais opiniões, “se fossem seguidas, fariam a desordem geral e a ruína total da nação brasileira, que quer só a sua segurança individual, de propriedade e todos aqueles bens de uma justa e liberal Constituição”.

Algo que os brasileiros continuam a querer: respeito integral à sua Constituição. O preço da Democracia é o amor que a ela devotam os verdadeiros patriotas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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