Procedimento investiga ex-procurador sobre atuação em escritório

Temer disse que 'um assessor muito próximo' de Janot, 'senhor Marcello Miller', abandonou a Procuradoria para 'trabalhar em empresa que faz delação premiada com o procurador-geral'

Fabio Serapião, de Brasília, e Marcio Dolzan, do Rio

27 de junho de 2017 | 20h06

Sede da PGR, em Brasília.

O ex-procurador Marcello Miller, ex-integrante do Grupo de Trabalho da Lava Jato entre 2014 e 2016, é alvo de um procedimento preparatório (PP) na Procuradoria da República do Distrito Federal (PR-DF). O PP foi aberto após uma representação feita na PR-DF e é uma etapa anterior a instauração formal de um inquérito ou do arquivamento do caso.

Miller foi citado pelo presidente Michel Temer em pronunciamento na tarde desta terça-feira, 27. Temer disse que “um assessor muito próximo ao procurador-geral da República, senhor Marcello Miller, homem de sua mais estrita confiança” abandonou o MPF para “trabalhar em empresa que faz delação premiada com o procurador-geral (Rodrigo Janot)”. “Ganhou milhões em poucos meses. O que talvez levaria décadas para poupar”, afirmou o presidente. Segundo Temer, Miller “garantiu ao seu novo patrão um acordo benevolente, uma delação que o tira das garras de Justiça, que gera uma impunidade nunca antes vista”.

A delação citada por Temer é a dos executivos do grupo J&F. Miller, após deixar o MPF, foi contratado pelo escritório de advocacia Trench, Rossi e Watanabe, que representou a J&F durante parte das negociações do acordo de leniência com o MPF.

“No âmbito do PP, já foram solicitadas informações acerca do ingresso de Marcello Miller no escritório de advocacia Trench, Rossi e Watanabe, que representou a holding J&F durante parte das negociações que levaram ao fechamento de acordo de leniência entre o grupo econômico e o MPF. Também foram pedidos esclarecimentos à seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, onde um procedimento interno apura o caso”, afirma em nota o MPF sobre o PP instaurado em 26 de maio.

A nota foi divulgada após o ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmar em entrevista ao SBT que o MPF deveria apurar a participação do ex-procurador na condição de advogado do Grupo J&F.

Janot. Em resposta a Temer, o procurador-geral Rodrigo Janot já havia divulgado uma nota sobre Miller. Janot afirma que ele não participou das negociações do acordo de colaboração premiada dos executivos do Grupo J&F.

“Ele integrou a Assessoria Criminal do procurador-geral da República de setembro de 2013 a maio de 2015. De maio de 2015 a julho de 2016, ele foi designado para integrar o Grupo de Trabalho da Operação Lava Jato na PGR, em Brasília. A partir de 4 de julho de 2016, ele voltou a ser lotado na PR/RJ, com processos distribuídos ao seu ofício, atuando junto ao Grupo de Trabalho somente como membro colaborador. Ele solicitou exoneração do cargo de procurador da República em 23 de fevereiro de 2017, a qual foi efetivada em 5 de abril de 2017”, explica a nota.

COM A PALAVRA,  MARCELLO MILLER

O advogado Marcello Miller, ex-assessor do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que “não cometeu nenhum ato irregular” desde que deixou a Procuradoria-Geral da República. Sócio do escritório de advocacia que trabalhou no acordo de leniência do Grupo JBS, Miller foi citado pelo presidente Michel Temer na tarde desta terça-feira, 27, que sugeriu que ele teria “recebido milhões” em função do acordo.

“Não cometi nenhum ato irregular, mas não responderei às afirmações a meu respeito pela imprensa”, afirmou o advogado, em comunicado a imprensa. “Apenas me manifestarei perante as autoridades com competência para examinar os fatos e com interesse na aferição da verdade.”

Durante pronunciamento em Brasília, Michel Temer afirmou que Marcello Miller – a quem se referiu como “homem da mais estrita confiança do senhor procurador-geral (Janot)” – deixou a PGR para “trabalhar em empresa que faz delação premiada para o procurador geral”. Apesar de não citar nome, o presidente da República insinuou que Rodrigo Janot se beneficiou financeiramente da remuneração de Miller.