Prisão de marqueteiro do PT reforça frente da Lava Jato no setor de comunicação

Prisão de marqueteiro do PT reforça frente da Lava Jato no setor de comunicação

Pagamentos para Editora Gráfica Atitude, que é dos sindicatos dos Metalúrgicos do ABC e dos Bancários de SP, ligados ao PT, é um dos focos dentro da Petrobrás e em outras áreas do governo

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

29 Fevereiro 2016 | 10h00

 

 

 

 

CAPA REVISTA DO BRASIL DILMA 2012

Atualizada às 16h29

A prisão do marqueteiro do PT João Santana – responsável pelas campanhas presidenciais de Dilma Rousseff (2010 e 2014) e Luiz Inácio Lula da Silva (2006) – levou a força-tarefa da Operação Lava Jato a aprofundar as investigações sobre o esquema de corrupção e fraudes no setor de comunicação da Petrobrás e também em outras áreas do governo. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal apuram se contratos de publicidade serviram para ocultar propina.

Uma das frentes é que investiga a Editora Gráfica Atitude, que pertence a dois sindicatos ligados ao PT. Responsável pela publicação da Revista do Brasil, a empresa foi usada para o recebimento de R$ 2,4 milhões do esquema de desvios da Petrobrás, segundo acusa o Ministério Público Federal.

Nos contratos envolvendo a estatal petrolífera, a PF identificou entre 2004 e 2015 o repasse de R$ 676 mil pagos por intermédio de duas das agências, uma delas a Heads Propaganda Ltda – prestadora de serviços da estatal.

AUTORIZAÇÃO VEICULAÇÃO DEZ 11 CAPA DILMA

NOTA FISCAL GRAFICA PETROBRAS DEZ 11 DILMA

É uma pequena parte dos valores movimentados pela Editora Gráfica Atitude. Entre 2010 e 2015 a conta na firma movimentou R$ 67,7 milhões, segundo Relatório de Inteligência Financeira. Foram créditos de R$ 33,8 milhões, R$ 7,5 milhões depositados em terminais de autoatendimento.

A Gráfica Atitude é mais que uma prestadora de serviços de longa relação com o PT. Ela nasceu de dois sindicatos cuja as histórias se unem com a criação do partido: o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e o Sindicato dos Bancários de São Paulo. O primeiro, de onde saiu Lula. O segundo, origem de Vaccari e do tríplex que teria sido reformado para o ex-presidente pela OAS.

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A Lava Jato intimou a Heads, contratada pela Petrobrás, que usou os serviços da empresa ligada aos sindicatos petistas, no final de 2015. Determinou que ela respondesse de quem foi a “opção pela utilização dos veículos de comunicação sob a disponibilidade da Gráfica Atitude”.

Em 23 de setembro, a Heads respondeu: “As veiculações foram decisões do cliente. Apresentamos um fluxograma de trabalho, que demonstra as etapas do processo de compra de mídia para o cliente Petrobrás”.

A agência forneceu cópias de 25 publicações feitas pela Petrobrás, por seu intermédio, entre 2008 e 2013, bem como as autorizações da direção da estatal, que contam com assinatura do ex-gerente de Comunicação Wilson Santarosa, ligado ao sindicato dos petroleiros em Campinas (SP) e amigo do ex-prefeito Jacó Bittar (PT), que comprou o Sítio Santa Bárbara para que a família de Lula usasse.

Capa da revista da Editora Atitude que, segundo o TSE, fez propaganda ilegal de Dilma

Capa da revista da Editora Atitude que, segundo o TSE, fez propaganda ilegal de Dilma

TSE. A Editora Gráfica Atitude já foi punida juntamente com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) por fazerem propaganda eleitoral ilícita em favor da então candidata Dilma Rousseff, e contrária a José Serra, candidato do PSDB em 2010.

Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entenderam que tanto a CUT como a gráfica desrespeitaram a legislação eleitoral ao promoverem a candidatura de Dilma em jornal bancado pela central e em revista produzida pela editora, respectivamente em setembro e outubro de 2010.

grafica vaccari 5

 

Condenação. O ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto e ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque são réus em processo em fase final – que deve ser sentença do juiz federal Sérgio Moro ainda em março –, sobre a lavagem desses R$ 2,4 milhões por meio de pagamentos de falsa propaganda.

INICIAL TRECHO MPF SOBRE PROPINA PT VACCARI GRAFICA

O processo é o primeiro resultado penal do inquérito 1363/2015, aberto pela Polícia Federal para apurar o trânsito de propina entre uma empreiteira do cartel que fatiava obras na Petrobrás – o grupo Setal – e o PT. O empreiteiro Augusto Ribeiro Mendonça revelou em seu acordo de delação premiada que foi repassado R$ 4 milhões para a legenda por contratos nas obras de duas refinarias (Repar, no Paraná, e Replan, em São Paulo).

Desse montante, R$ 2,4 milhões foram “ocultos” por meio de propaganda paga por ele na Revista do Brasil, publicada pela Gráfica Atitude. A realização de doações oficiais ao PT e publicação no órgão ligado aos sindicatos teria sido pedido do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque, intermediado por João Vaccari.

INICIAL TRECHO MPF VACCARI PT GRAFICA E REVISTA 2,4 MI

 

Lula. Avesso a entrevistas, desde que virou presidente da República, em 2003, Lula ganhou capa da Revista do Brasil, em entrevista exclusiva. O ex-presidente foi capa da edição número 100 da publicação da Editora Gráfica Atitude.

A entrevista exclusiva com o ex-presidente Lula foi publicada a cinco dias do segundo turno da eleição presidencial de 2014. Com a disputa acirrada, o ex-presidente fez críticas ao adversário da então candidata Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves (PSDB). Lula não foi questionado pela publicação sobre temas incômodos ao PT ou à campanha de Dilma.

Capa da revista da Editora Atitude

REVISTA DO BRASIL CAPA FOTO MENOR DILMA NOV 10

 

REVISTA DO BRASIL CAPA FOTO MENOR DILMA SET 10

 

REVISTA DO BRASIL CAPA LULA

 

COM A PALAVRA, A HEADS PROPAGANDA

“A Heads Propaganda estranha o fato de ter sido a única agência de publicidade citada nominalmente na reportagem veiculada no blog de Fausto Macedo sob o título ‘Prisão de marqueteiro do PT reforça frente da Lava Jato no setor de comunicação’. Como o próprio texto diz, a Heads não foi a única a agência que, por determinação do cliente Petrobras, veiculou anúncios na Revista do Brasil. Como já esclareceu às autoridades competentes, a Heads atua sempre por ordem e conta do anunciante, agindo como mandatária do cliente e não como contratante em nome próprio, sendo a própria Petrobras a pagadora dos serviços à revista. Vale ressaltar, ainda, que esse procedimento segue a Lei de Licitações de Serviços Publicitários. A Heads Propaganda permanece à disposição das autoridades para quaisquer informações adicionais, além daquelas já prestadas de forma minuciosa. ”

COM A PALAVRA, AS OUTRAS DEFESAS

João Vaccari Neto, por meio de sua defesa, sustenta que inexistem provas de crimes e de seu envolvimento nos delitos a ele imputados. Alega que a acusação se embasa apenas na palavra de réu-colaborador.

O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso afirma que seu cliente, João Vaccari, jamais arrecadou recursos ilegais para o PT e que as acusações contra ele se baseiam ‘apenas nas palavras de delatores’.

O PT tem reiterado que só entra no caixa do partido dinheiro lícito e declarado à Justiça eleitoral.

A defesa de Renato Duque não foi localizada, no processo ele nega todas as acusações. O advogado Alexandre Lopes, que defendeu o ex-diretor na época da denúncia da gráfica, classificou a acusação de inepta. “O alicerce de parte da acusação é a falsa delação de um criminoso confesso, Augusto Ribeiro, que mente para obter benefícios do Judiciário”.

“Duque não recebeu propina, não possui e não movimentou dinheiro fora dom pais e não fará delação premiada, pois não tem o que e/ou quem delatar.”

COM A PALAVRA, A EDITORA GRÁFICA ATITUDE

Nenhum representante da Editora Gráfica Atitude foi localizado neste domingo para comentar as investigações. No ano passado, quando a empresa teve seu nome citado, a editora por meio de seu coordenador de planejamento editorial, Paulo Salvador, afirmou que nunca tratou de patrocínios para a empresa do lobista com o tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

“A Editora Atitude reafirma que toda a receita da empresa destina-se ao custeio das atividades de produção jornalística.”

Na ocasião, ele afirmou que a Atitude não pertence ao PT ou à CUT, mas possui uma ‘afinidade política’ com a sigla nos temas que aborda em suas publicações.

Uma nota foi divulgada na ocasião. Informava que “a Editora Gráfica Atitude, fundada em 2007, não funciona como gráfica e sim como editora com o objetivo de viabilizar um projeto de comunicação construído em conjunto por entidades sindicais e movimentos sociais para levar à sociedade informação de qualidade e fortalecer a luta dos trabalhadores e sua participação maior em assuntos relacionados ao seu cotidiano”.

“A Editora Atitude é formada por 40 entidades sindicais que escolheram o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para representa-los. Localizada no centro de São Paulo, sua estrutura é composta por 34 profissionais que integram a equipe.”

Seguindo a nota, a “Editora Atitude é uma empresa privada que produz conteúdo jornalístico para vários veículos, sem vínculo partidário. Seu conteúdo é focado no mundo do trabalho, no emprego, no crescimento econômico do País com inclusão social, nos direitos humanos e na defesa da cidadania do povo brasileiro”.

Sobre as contas da empresa, informou que “as transações financeiras da Editora passam por uma única conta corrente e sua contabilidade é retratada nos respectivos extratos. Entre junho de 2010 a abril de 2015, a Editora teve receita média de R$ 6,1 milhões/ano (o que totaliza R$ 33 milhões no período) para custeio de despesas com a folha de pagamento e produção jornalística, valor este totalmente compatível com as atividades prestadas”.

Disse aina que “não é verdadeira a informação de que seriam depositados em espécie (em dinheiro) na conta Editora Atitude R$ 17,95 milhões entre dezembro de 2007 e março de 2015. Não há nenhuma movimentação financeira em dinheiro feita pela Editora e todos os depósitos ocorrem por meio de cheques cruzados e nominais”.

 

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