Primeiro delator da Lava Jato confirma cartel e corrupção em ação contra Lula

Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, disse nesta quarta-feira, 24, a Moro que Odebrecht pagava propinas para esquema do PT e do PP, em processo em que ex-presidente responde por corrupção e lavagem, pelo recebimento de R$ 12 mi da empreiteira, via Palocci

Julia Affonso, Luiz Vassallo, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

24 de maio de 2017 | 18h36

Primeiro preso da Operação Lava Jato a fechar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, em agosto de 2014, o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa confirmou ao juiz federal Sérgio Moro, nesta quarta-feira, 24, que empreiteiras como a Odebrecht pagavam propinas para o PT e para o PP, por contratos na estatal.

Os pagamentos eram padrão para a “Odebrecht e qualquer outra empresa do cartel”, disse Costa, ouvido em Curitiba, na ação pena em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é réu por receber propinas da Odebrecht, na compra de um terreno para o Instituto Lula, em São Paulo, e de um apartamento, em São Bernardo (SP), onde reside. Entre as empreiteiras do cartel, OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e outras.

Paulo Roberto Costa chegou a ser preso duas vezes pela Lava Jato. A primeira em março de 2014, quando foi deflagrada a primeira operação. Solto depois por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-diretor foi pego dias depois em tentativa de destruição de provas e preso novamente.

Primeiro dos alvos da Lava Jato a confessar a existência de um amplo esquema de corrupção na Petrobrás, Costa revelou como era a divisão das três principais diretorias da estatal, entre PT, PMDB e PP: Serviços, Internacional e Abastecimento, respectivamente.

Por elas, diretores indicados arrecadavam com as empresas contratadas de 1% a 3% do valor dos contratos em propinas. O dinheiro – R$ 6,2 bilhões já foram confirmados, em balanço financeiro da Petrobrás, de 2014 – abasteceu partidos, políticos e os agentes públicos corrompidos.

Réu confesso pela primeira vez na Lava Jato, em outubro de 2014, Costa detalhou que “dentro do PT (o contato) do diretor de Serviços era com o tesoureiro do PT, sr. João Vaccari.

As revelações de Costa e do doleiro Alberto Youssef – que fechou acordo na sequência e era o operador das propinas do PP – transformaram a Lava Jato e arrastaram o resto da cúpula da estatal para o centro das investigações da força-tarefa e levaram o esquema ao ex-presidente Lula.

Com três denúncias apresentadas a Moro – duas delas já transformadas em processos -, os procuradores da força-tarefa apontam Lula como o mentor do esquema de corrupção sistematizado, com regras, percentuais fixos, a partir de 2004.

Na época em que falou pela primeira vez a Moro como delator, Costa foi perguntado pelo juiz se ele tem conhecimento de outros diretores que recebiam valores. “Na área de serviços foi o diretor (Renato) Duque, que foi indicado na época pelo ministro da Casa Civil José Dirceu. Ele tinha essa ligação com o João Vaccari dentro desse processo do PT.”

Acusação. O delator foi ouvido nesta quarta como testemunha de acusação do Ministério Público Federal. Ele confirmou tudo o que disse em suas delações. Sobre Lula, Costa não faz acusações.

A denúncia da Procuradoria da República aponta que propinas pagas pela Odebrecht, no esquema de desvios na Petrobrás, que seria liderado pelo ex-presidente, chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a Petrobrás e incluíram terreno de R$ 12,5 milhões para o Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo de R$ 504 mil.

Neste processo em que Lula é réu, o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda/governo Lula e Casa Civil/governo Dilma) é apontado como principal interlocutor com a Odebrecht. O petista era o “Italiano” que aparece nas planilhas secretas da empreiteira e que “Amigo” era o ex-presidente.

Apartamento. A acusação informa que durante as buscas e apreensões da Operação Aletheia, deflagrada em março de 2016, que tiveram Lula como alvo, “teria sido constatado que Luiz Inácio Lula da Silva ocuparia não apenas o apartamento 122, mas igualmente o apartamento contíguo”.

Ao tornar Lula réu, Moro transcreveu trechos da acusação do Ministério Público Federal, no Paraná. “O referido apartamento teria sido adquirido, em 20 de setembro de 2010, por Glaucos da Costamarques. Segundo a denúncia, por rastreamento bancário, foi possível constatar que o custo da aquisição, no valor de R$ 504 mil, teria sido suportado pelo Grupo Odebrecht”, anota Moro.

O magistrado destacou que ‘muito embora tenha sido encontrado um contrato de locação entre Glaucos da Costa Marques e a esposa do ex-presidente, Marisa Letícia Lula da Silva, não teriam sido identificadas quaisquer provas documentais do efetivo pagamento do aluguel’.

Confissão. No dia 12 de abril, o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, também réu nesse processo, confessou a Moro ter comprado o terreno para atender interesses de Lula, após pedido de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e também réu do caso, e o pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente.

“O prédio IL foi aquele pedido que eu comentei com o sr.  Em meados de 2010, o Paulo Okamotto ou o Bumlai, um dos dois, fez o primeiro approach. Mas depois eu conversei com os dois. Veio dizer que o Bumlai e Roberto Teixeira tinham fechado um terreno que queriam que fosse a futura sede do Instituto Lula”, contou Odebrecht.

“Queriam que a gente comprasse o terreno e doasse. Eu tinha acertado o valor que em tese era para ser doado todo. Vocês não querem, vocês ficam pedindo aos poucos. Se arrancar do provisionamento que eu tenho com Palocci, tudo bem. Mas eu tenho que pegar autorização dele. Eu fui em Palocci e disse: ‘Palocci, pessoal tá querendo Instituto. Tem autorização sua para usar esses recursos no IL?’. Ele disse que sim. Eu fiz a transação, a gente comprou o terreno. Eu pedi a um amigo meu que prestava serviço para a empresa, de confiança, ele comprou o terreno no nome da empresa dele. Depois não andou em frente.”

O empresário e delator da Lava Jato afirmou que uma empresa do grupo acabou comprando o terreno para um empreendimento imobiliário. “Depois não teve interesse. Eles resolveram comprar e depois desistiram. Foi feito um débito e lá na frente um crédito ao saldo Amigo”, afirmou Marcelo Odebrecht.

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