Marco Aurélio vota contra recebimento da denúncia de Bolsonaro por racismo

Marco Aurélio vota contra recebimento da denúncia de Bolsonaro por racismo

Para ministro-relator, contexto da fala 'configura manifestação política que não extrapola os limites da liberdade de expressão'

Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo / BRASÍLIA

28 de agosto de 2018 | 15h36

O deputado e candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL). Foto: Wilton Jr./Estadão

*Texto atualizado às 17h40

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou na tarde desta terça-feira, 28, o julgamento sobre a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, pelo crime de racismo.

Relator do caso, o ministro Marco Aurélio Mello votou contra o recebimento da denúncia. Para ele, a manifestação de Bolsonaro não extrapolou os limites da liberdade de expressão e está coberta pela imunidade parlamentar.

“Declarações, ainda que fora das dependências do Congresso e eventualmente sujeitas à repressão no plano moral, estão cobertas pela imunidade prevista no Constituição Federal. As declarações mostram-se desprovidas da finalidade de repressão, dominação, supressão, razão pela qual tendo em vista não se investir de caráter discriminatório, são insuscetíveis a caracterizar o crime previsto no artigo 20 da lei 7.716 (que prevê pena de um a três meses e multa por discriminação ou preconceito de raça)”, disse Marco Aurélio.

Em abril deste ano, a Procuradoria-Geral da República (PGR) encaminhou ao STF uma denúncia contra o deputado federal pelo crime de racismo, sob a alegação de que, em palestra realizada no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, o parlamentar “se manifestou de modo negativo e discriminatório sobre quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs”.

Na palestra, Bolsonaro disse: “Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual essa raça que tá aí embaixo ou como uma minoria tá ruminando aqui do lado.”

Na ocasião, o parlamentar também afirmou que visitou um quilombola em El Dourado Paulista, onde “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de um bilhão de reais por ano gasto com eles.”

Em seu voto, Marco Aurélio afirmou: “Não se constata haver o denunciado (Bolsonaro) proferido discurso visando à supressão ou eliminação de grupo, revelando-se impróprio asseverar tratar de conteúdo discriminatório a tratar o tipo penal”.

Para o ministro-relator, o contexto da fala “configura manifestação política que não extrapola os limites da liberdade de expressão”. “As falas referidas na peça acusatória estão vinculadas ao contexto de demarcação e proveito econômico das terras, sendo descabível confundir o interesse na diminuição de reservas indígenas ou quilombolas com a supressão e e eliminação dessas minorias”, observou Marco Aurélio.

O julgamento estava marcado originalmente para 4 de setembro, mas foi antecipado para esta terça-feira a pedido da defesa de Bolsonaro.

Caberá aos cinco ministros da Primeira Turma do STF – colegiado composto por Marco Aurélio Mello, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux – decidir se abrem ou não uma ação penal para investigar Bolsonaro por racismo.

Réu por incitação ao crime de estupro

Bolsonaro já é réu no STF pelos crimes de injúria e incitação ao crime de estupro.

Os deputados federais Pastor Eurico (Patri-PE) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS) prestaram depoimento como testemunhas de defesa do candidato à Presidência da República do PSL.

Os depoimentos devem ser os últimos prestados na ação penal aberta a pedido da PGR e da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), sobre quem Bolsonaro declarou, em 2014, que “não estupraria porque não mereceria”.

O próximo passo no processo deve ser o interrogatório de Bolsonaro, que ainda precisa ser marcado pelo ministro Luiz Fux, relator da ação penal. Depois, são prestadas as alegações finais.

Tudo o que sabemos sobre:

Jair BolsonaroSTFRacismo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.