Prevenção do câncer ginecológico durante a pandemia

Prevenção do câncer ginecológico durante a pandemia

Márcia Mendonça Carneiro*

03 de setembro de 2020 | 11h47

Márcia Mendonça Carneiro. Foto: Divulgação

O rastreamento e a detecção precoce do câncer são estratégias importantes para a identificação de tumores em fases iniciais, permitindo o uso de tratamentos menos invasivos com melhores chances de sucesso e cura.

A pandemia da Covid-19, entretanto, produziu inúmeras transformações, afetando inclusive o rastreamento e o tratamento do câncer. A Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) alertaram para os milhares de diagnósticos de câncer que deixaram (ou deixarão) de serem feitos no Brasil durante a pandemia e estimam que possivelmente até 50 mil casos deixaram (ou deixarão) de serem identificados e tratados.

O câncer ginecológico pode se manifestar no colo do útero, endométrio (revestimento do útero), ovário, vulva e vagina. O câncer do colo do útero é o terceiro tumor maligno mais frequente encontrados nas mulheres brasileiras, ficando atrás apenas do câncer de mama e do intestinal, sendo a quarta causa de morte de mulheres por câncer no país, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA).

Dados do INCA estimam que em 2020, haverá 16.950 novos casos  de câncer do colo do útero.  Em 2017, ele foi responsável pela morte de 6.385 mulheres. Este câncer é causado pela  infecção persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano (HPV),  que é transmitido por via sexual e  muitas vezes é silenciosa, mas que pode ser identificada através do exame citopatológico, popularmente conhecido como Papanicolau.

Medidas preventivas incluem o uso de preservativo (feminino e masculino) e da vacinação disponibilizada pelo Ministério da Saúde. Mulheres vacinadas, entretanto devem manter a rotina de realização periódica do Papanicolau, visto que a vacina não oferece proteção contra todos os tipos de HPV capazes de levar ao câncer.

O útero também pode ser acometido por neoplasia na sua porção interna (endométrio), para o qual são esperados 6.540 novos casos em 2020, segundo o INCA.  Além da predisposição genética, são fatores de risco para o câncer de endométrio a obesidade, diabete, primeira menstruação antes dos 12 anos e menopausa após os 52 anos, anovulaçâo crônica, uso de hormônios e nuliparidade/infertilidade. Embora não haja exames preventivos específicos para o câncer de endométrio, este costuma anunciar-se através de sangramento genital, principalmente em mulheres na pós-menopausa.

Para o câncer de ovário, que atinge mulheres acima de 50 anos e pode evoluir de maneira silenciosa, são esperados 6.650 novos casos em 2020.

Infelizmente não há prevenção nem rastreamento eficaz para o câncer de ovário, que foi responsável pela morte de 3.879 mulheres em 2017. Entre os fatores de risco, além da idade, primeira menstruação antes dos 12 anos e menopausa após os 52 anos e obesidade,  há alterações genéticas (mutações em genes, como BRCA1 e BRCA2), que estão associadas ao aumento do risco de câncer de mama e de ovário.

Vulva e vagina são raramente afetadas por câncer e não há exames de rastreamento para detecção de lesões pré-cancerosas. A presença de sintomas como coceira, alterações da coloração da pele local e sangramento são sinais que demandam atenção.

Diante da pandemia, as orientações de isolamento social, higiene, evitar aglomerações e usar máscaras devem ser seguidas. Isso não quer dizer que outras doenças potencialmente graves como o câncer possam ser deixadas de lado.

O cuidado com a saúde, principalmente com a dieta para evitar obesidade assim como a prática de atividade física regular são medidas gerais e que ajudam na prevenção do câncer, entre outras doenças.

O sobrepeso e a obesidade aumentam o risco de pelo menos 12 tipos diferentes de câncer e segundo as Recomendações de Prevenção de Câncer do World Cancer Research Fund (WCRF), uma dieta saudável associada à atividade física são fundamentais para a saúde do sistema imune. Obviamente parar de fumar e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas também são recomendados.

O câncer ginecológico pode ser tratado com excelentes resultados principalmente se diagnosticado precocemente. Os avanços no campo da oncologia resultaram em tratamentos eficazes com redução de efeitos colaterais e melhora significativa da sobrevida. Neste contexto, o diagnóstico precoce tem papel primordial.

As queixas como dor persistente que não melhora após uso de analgésicos comuns, sangramento genital volumoso e/ou que surge após a menopausa e febre sugerem necessidade de avaliação mais imediata. Os nódulos que surgem na região genital, mama ou axilas também devem ser prontamente examinados. Por outro lado, a realização de exames preventivos pode ser organizada de modo a evitar aglomerações e saídas desnecessárias.

*Márcia Mendonça Carneiro, ginecologista do Corpo Clínico do Biocor Instituto. Professora Associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG

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