Prevenção às drogas passa pelos familiares, não pelos filhos

Prevenção às drogas passa pelos familiares, não pelos filhos

Cirilo Tissot*

28 de outubro de 2019 | 11h55

Dr. Cirilo Tissot, médico psiquiatra. Foto: Divulgação / Assessoria de Imprensa

Houve uma época em que eu fazia parte de um trabalho de prevenção às drogas, realizado a partir da campanha de uma rádio em São Paulo, e visitava escolas levando comigo ex-pacientes reabilitados. E o que eu descobri, na prática, foi que a prevenção nesse formato não funcionava. Ao falarmos sobre drogas despertávamos nos adolescentes a curiosidade e não uma visão crítica sobre a situação que envolvia o seu uso e os problemas a ele relacionados. Acredito que, bem ou mal, todos nós já sabemos dos malefícios das drogas. Mas a prevenção passa pela postura dos familiares e não pelos filhos.

Me formei médico muito cedo, e quando comecei a atuar como psiquiatra na clínica da qual depois viria a ser sócio, minha meta era fazer com que as pessoas que viessem a se internar ficassem abstinentes por seis meses após sua saída. Para alcançar essa meta tinha equipe qualificada e toda estrutura necessária para tratar pacientes involuntários graves, viciados em cocaína e injetáveis (ainda não havia a disseminação do crack) que não queriam se internar.

E por que seis meses? Porque os estudos já mostravam que quem fica seis meses sem usar drogas, fica um ano. A primeira coisa que aprendi nessa jornada é que certos mitos que trazemos caem por terra. A ideia de que para a pessoa não usar drogas ela precisa praticar esporte, por exemplo, é uma bobagem. Assim como também que a pessoa, para sair do vício, precisa arrumar um (a) namorado (a) que possa se transformar num relacionamento afetivamente sério. Tudo isso não servia.

Demoramos 20 anos para aprender quais, entre tantas variáveis, nos faziam alcançar nossa meta. Era o tipo de terapia? Era a terapia em família? Eram as diferenças entre os tipos de famílias? Era a ajuda de uma atividade física? De uma terapia com música, de uma massagem? Eram tantas possibilidades que levou tempo para sentirmos que estávamos no controle da reabilitação.

Mas, definitivamente, a primeira coisa que descobri e a única durante uma internação que faz toda diferença do mundo, em qualquer dos pacientes que lá estejam, é aquilo que chamamos de função paterna, papel que pode ser assumido por qualquer pessoa: pai, mãe, filho, irmão, professor. Se não tem função paterna, não existe reabilitação.

Se existe função paterna, quando a pessoa sai da instituição fica anos sem registro de recaídas. Mas percebemos que uma parcela dos pacientes voltava a usar drogas após cinco anos ou mais de abstinência, como se nunca tivesse feito tratamento na vida. Isso porque aquilo que fazia a pessoa ficar longe das drogas era se o projeto de vida dela tinha tido êxito ou não. Se a vida pós ou antes das drogas fazia ou não sentido. Quando cheguei nesse ponto, como médico, pensei: “como vou dar sentido à vida do meu paciente? ”

É como a preocupação sobre de que forma vamos criar nossos filhos para a vida. Que pressupostos teremos como linha e bússola para que enfrentem a vida de um jeito melhor? Vamos treinar nossos filhos para que fiquem craques na diversão, ou vamos prepará-los para a satisfação? São duas coisas diferentes que existirão na vida deles, queiramos ou não.

Para melhor explicar: posso de repente vivenciar uma situação e ficar alegre. Eu não controlo quando vou ou não ficar alegre. Não controlo quando vou ficar eufórico ou o que vai me fazer ficar eufórico. Mas a ideia da satisfação é algo sobre o que, teoricamente, nós temos controle. É como se criássemos uma filosofia de vida. Algo que faço hoje e pretendo repetir para a vida. Que me dá satisfação e dá sentido à minha vida.

Diante de tantas opções e dúvidas que a convivência pode despertar, o exercício da função paterna se realiza na presença do não, do estabelecimento claro dos limites. Do adulto assumir a responsabilidade da criação da pessoa. E ter consciência de que é a prática do não, de fixar limites, que vai fazer a pessoa (seu filho) se frustrar, ir contra você.

A reação psicológica de uma pessoa ao receber o não, sempre é a mesma, e já está descrita em cinco fases emocionais: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Se você consegue superar esse processo, seu filho entenderá e aceitará o que vier pela frente para sempre, mesmo quando estiver sozinho, autônomo.

É preciso ter firmeza, o que nem sempre acontece. Por que na realidade são inúmeras batalhas desse nível para conseguir dar vivências aos filhos, para que possam escolher o seu projeto de vida. É de responsabilidade dos pais, e não da escola, entender que tipo de vivência os filhos precisam ter, o que se precisa negar a eles, o que liberar, para que eles comecem a ter essa visão. E para darem sentido à própria vida.

*Cirilo Tissot, psiquiatra, especialista em dependência química e diretor técnico da Clínica Greenwood, psiquiatra, especialista em dependência química e diretor técnico da Clínica Greenwood

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