Preso para extradição, dono da TelexFree lavava dinheiro em frente à Procuradoria, diz PF

Preso para extradição, dono da TelexFree lavava dinheiro em frente à Procuradoria, diz PF

Segundo os investigadores, um dia após depor à Polícia Federal, Carlos Wanzeler já estava, mais uma vez, recolhendo o aluguel das vagas no imóvel, que estava em nome de outro investigado pelo esquema de pirâmide que vitimou um milhão de pessoas e sumiu com R$ 3 bilhões

Luiz Vassallo

24 de fevereiro de 2020 | 09h00

Estacionamento atribuído a Wanzeler. Foto: MPF

Preso em Búzios, no Rio, nesta quinta, 20, para extradição aos Estados Unidos, Carlos Wanzeler , conhecido como a ‘face pública’ da Telex Free, é acusado de lavar dinheiro com o uso de um estacionamento que fica em frente à sede do Ministério Público Federal em Espírito Santo, no valor de R$ 2,3 milhões. Segundo os investigadores, um dia após depor à Polícia Federal, ele já estava, mais uma vez, recolhendo o aluguel das vagas no imóvel, que estava em nome de outro investigado pelo esquema de pirâmide.

Além de responder a 17 denúncias por crimes como lavagem, operação de falsa instituição financeira, e evasão de divisas, todos relacionados a suposta tentativa de ocultar dinheiro do esquema de pirâmide mundialmente conhecido por vitimar um milhão de pessoas, sumir com R$ 3 bilhões. Os crimes teriam ocorrido entre 2012 e 2014.

A última denúncia contra Wanzeler é decorrente da Operação Alnilam, deflagrada em dezembro de 2019 – quando foi preso pela Justiça Federal no Espírito Santo, e solto pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Segundo a denúncia, em outubro de 2014, o empresário adquiriu, com dinheiro das fraudes da TelexFree, um imóvel na Avenida Peincesa Isabel, nº 117, no centro de Vitória (ES), em frente à sede do Ministério Público Federal.

Reprodução

A empreitada se deu ao lado de Carlos Roberto Costa, outro acusado no esquema de pirâmide. Até 2019, eles teriam recebido R$ 460 mil em aluguéis. O imóvel estava em nome da empresa Capixaba Eventos, que estava em nome de laranjas. Um deles é Carlos Wanzeler, brasileiro também envolvido no caso TelexFree, com quem foram apreendidos US$ 20 milhões dentro de um colchão, nos Estados Unidos.

Segundo as investigações, Wanzeler recebeu pessoalnente R$ 5.494.00 (cinco mil quatrocentos e noventa e quatro reais) em 08/11/2019 a título de aluguel, mesmo depois de ter comparecido à Polícia Federal no dia anterior, quando, então, teve ‘ciência de que estava sendo
investigado por crimes de lavagem de dinheiro, incluindo o relacionado à ocultação e dissimulação da propriedade do mencionado imóvel’.

“Tal cifra pode parecer insignificante se levarmos em consideração que os bens e valores apreendidos na Operação Orion somam mais de R$ 1.000.000.000,00 (um bilhão de reais) e, ainda, que o faturamento da TELEXFREE, informado no Laudo Pericial da Ernest & Young, foi de US$ 1.276.972.269,78 (um bilhão, duzentos e setenta e seis milhões, novecentos e setenta e dois mil duzentos e sessenta e nove dólares americanos e setenta e oito centavos), que atualmente equivalem a mais de R$ 5.000.000.000,00 (cinco bilhões de reais)”, diz a PF, referindo-se à operação que mirou Wanzeler em 2014, no auge dos escândalos nos EUA.

Segundo as autoridades dos Estados Unidos, por volta do dia 13 de abril de 2014, a TelexFree declarou falência e pediu a reorganização pelo Capítulo 11 no tribunal de falências federal dos EUA’.

“Dois dias depois, por volta do dia 15 de abril de 2014, agentes federais dos EUA executaram uma série de mandados de busca para os escritórios da TelexFree em Massachusetts. Pouco antes da execução dos mandados de busca, Wanzeler fugiu dos Estados Unidos pelo Canadá para o Brasil”, afirma a embaixada dos EUA.

Segundo a PF, ‘para sair daquele país, o acusado cruzou a fronteira com o Canadá de carro e, dias depois, embarcou em um voo de Toronto para São Paulo’.

A TelexFree é acusada de operar um esquema de pirâmide financeira que atraiu mais de um milhão de participantes ao redor do mundo. Inicialmente criada como uma empresa para vender serviços de telefonia pela internet, a companhia, segundo o processo, oferecia a abertura de contas para “promotores comerciais”.

Estas contas davam direito a publicação de anúncios onlines. Os participantes recebiam créditos pelos anúncios publicados e também por conseguirem novos membros. A promessa era de retornos de 200% a 250% para quem vendesse os pacotes e atraísse novos associados.

Wanzeler perdeu a nacionalidade brasileira por decisão do Supremo Tribunal Federal. Apesar de nascido no Brasil, ele é cidadão norte-americano.

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