Preso na Manus, Henrique Alves é acusado de receber R$ 3 mi de propinas da JBS

Preso na Manus, Henrique Alves é acusado de receber R$ 3 mi de propinas da JBS

Irmãos Batista entregaram notas e contratos para repasse para ex-ministro na campanha de 2014, dentro dos R$ 35 milhões repassados do PT para compra do PMDB do Senado

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

06 de junho de 2017 | 18h49

O ex-ministro Henrique Eduardo Alves, preso pela Federal. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O ex-ministro Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), preso nesta terça-feira, 6, alvo da Operação Manus – desdobramento da Lava Jato – também é acusado pelos delatores da J&F pelo recebimento de R$ 3 milhões de propinas, em 2014. O dinheiro seria parte dos R$ 35 milhões repassados pelo grupo, da “conta” da ex-presidente Dilma Rousseff, por indicação do ex-ministro Guido Mantega, para compra de apoio de caciques peemedebistas.

“Dentro do dinheiro do PMDB, foi destinado R$ 3 milhões para o Henrique Eduardo Alves, que era presidente da Câmara naquele momento e candidato ao governo do Rio Grande do Norte”, afirmou Ricardo Saud, que era relações institucionais da J&F, espécie de lobista do grupo no Congresso. (assista aos 18min e 13seg do 1º vídeo abaixo)

Henrique Alves foi preso nesta terça, em Natal, por agentes da Polícia Federal. Ele está sob suspeita de envolvimento em esquema de desvios e superfaturamento de R$ 77 millhões nas obras da Arena das Dunas para a Copa 2014. Sua campanha ao governo do Rio Grande do Norte, naquele ano, teria sido abastecida com propinas das empreiteiras Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia. Henrique Alves teve dois decretos de prisão expedidos, um juiz federal de Natal, outro de Brasília.

Na delação da JBS, os delatores entregaram para a Procuradoria-Geral da República (PGR) uma planilha com os dados dos R$ 3 milhões e as notas e contratos que serviram para repassar o dinheiro para o ex-ministro dos governos Dilma Rousseff e Michel Temer e ex-presidente da Câmara, preso nesta terça.

Do valor, R$ 1 milhão foi doação oficial, mas segundo o delator, propina oculta. Foram pagas ainda duas pesquisas do Ibope. O restante repassado por meio de notas fiscais emitidas por uma empresa de consultoria, a Consultoria e Perquisa Técnica Ltda., de Natal (RN), e um escritório de advocacia, Alves Andrade e Oliveira Advogados Associados, em São Paulo.

“Essas empresas nunca fizeram nenhum tipo de trabalho para nós. Todas as notas são frias e os contratos são falsos”, disse Saud. Segundo ele, só no caso do Ibope os serviços foram prestados para o beneficiário, mas pagos pela empresa.

“Várias vezes eles mandavam contrato e um punhado de pesquisa e diziam ‘ó, você arquiva isso aí tudo direitinho, se amanhã ou depois acontecer alguma coisa, você mostra isso aí’. Eu falei, ‘rapaz, agora você está querendo me ensinar a roubar dos outros?’.”

O delator Ricardo Saud, lobista da J&F no Congresso, entregou ainda uma anotação manuscrita sobre o repasse para Henrique Alves. Nela, há a anotação de “EC” como suposta origem do repasse.

O ex-deputado Eduardo Campos (PMDB-RJ), que está preso desde setembro de 2016, em Curitiba, foi alvo de nova ordem de prisão preventiva nesta terça-feira, 6, na Operação Manus. Ele é Alves teriam relação com as propinas relacionadas aos negócios de empresas com o Fundo de Investimentos do FGTS.

Saud explicou aos procuradores que tratava dos repasses com um cunhado de Henrique Alves. O delator disse estar disposto a fazer uma acareação com o intermediário.

 

 

Compra PMDB. Em depoimento à PGR, o delator relatou que a JBS teria acertado com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, os repasses de R$ 43 milhões de “propinas dissimuladas” aos “coringas” do PMDB no Senado.

O objetivo, segundo o delator, era abafar uma rebelião deles contra a candidatura à vice-presidência de Michel Temer na chapa de Dilma. Saud contou que Temer, ao saber do acordo feito sem sua autorização, teria ficado “indignado” e acabou recebendo outros R$ 15 milhões.

Responsável pela Diretoria de Assuntos Institucionais e de Governo da JBS, Saud disse aos procuradores, no dia 5 de maio, que o dinheiro repassado a Temer foi tirado da “conta-corrente” com o PT, que tinha um montante de R$ 300 milhões para a disputa de reeleição.

“O Guido Mantega comunicou ao Joesley que R$ 35 milhões iam ser destinados à compra do PMDB no Senado”, afirmou o delator. (assista aos 1min e 50seg do 1º vídeo)

No documento entregue aos investigadores e elaborado pela defesa do delator com base nos registros e informações de Saud, estão listados os valores pagos aos caciques do PMDB, entre eles os R$ 3 milhões de Henrique Alves. Os demais seria distribuidos assim: Renan Calheiros (AL), R$ 9,9 milhões, Jader Barbalho (PA), R$ 8,9 milhões,  Eduardo Braga (AM), R$ 6 milhões, Eunício de Oliveira (CE), R$ 6 milhões, Valdir Raupp (RO), R$ 4 milhões, e Henrique Eduardo Alves (RN), R$ 3 milhões.

“E assim foi feito, eu recebi (um bilhete) do Joesley, em um sábado à tarde, em meados de julho.” Saud narra que avisou em 2014 Temer em sua residência, em São Paulo. Por ordem de Joesley, ele procurou o então vice para avisar que seriam pagos R$ 35 milhões aos caciques do PMDB do Senado e que ele estaria fora da lista.

O delator contou em seu depoimento como foi o suposto encontro.

“Era Copa do Mundo, era um jogo da Holanda , eu lembro direitinho que eu assisti lá o jogo com o Michel Temer, o jogo da Holanda. Eu fui lá com o bilhete, que está nos anexos, de R$ 35 milhões que estavam sendo doados para os senadores”, conta Saud. (assista aos 2min e 29seg do 1º vídeo)

O procurador da República perguntou onde ele teria assistido o jogo da Holanda com Temer.

“Na casa dele, na residência em São Paulo, na praça ali, em Alto de Pinheiros. Na residência onde ele mora.”

 

O delator diz ter levado o bilhete de Joesley e avisado o presidente que havia um pedido para doar R$ 35 milhões para o PMDB e não passava por ele.

“Mas como assim, doando R$ 35 milhões, eu que sou…”, teria respondido Temer, segundo o delator. Depois de listar os valores que seria repassados aos caciques do partido no Senado, com nomes e valores, Saud disse ter ouvido do presidente: “Não pode, eu estou vendo que eu preciso reassumir o PMDB, o partido, porque eles estão passando por cima de mim”.  O delator diz que o presidente pediu de dois a cinco dias de prazo (assista aos 5mi e 20seg do 2 vídeo)

O presidente Michel Temer nega, por meio de sua assessoria de imprensa, recebimento de valores ilícitos e diz nunca ter tratado com qualquer pessoa sobre contribuição ilegal.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO MARCELO LEAL, QUE DEFENDE HENRIQUE EDUARDO ALVES

Procurado nesta terça-feira, o advogado Marcelo Leal, que defende Henrique Eduardo Alves, não foi localizado. O espaço está aberto para manifestação. Há duas semanas ele negou recebimentos de propinas da JBS. “A defesa de Henrique Eduardo Alves refuta veementemente as afirmações do delator Ricardo Saud e reafirma que todas as doações de campanha foram regularmente recebidas e declaradas à Justiça Eleitoral”.