Preso como operador de propina do PT, Vaccari é suspeito em sete frentes de investigação

Lava Jato tem elementos contra tesoureiro do partido no suposto recebimento de propina em obras de refinarias e unidades petroquímicas, em contratos do setor naval para o pré-sal, em negócios com recursos do fundo de pensão dos trabalhadores da Petrobrás (Petros) e por enriquecimento ilícito

Redação

15 Abril 2015 | 08h57

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Andreza Matais e Fausto Macedo

Preso pela Polícia Federal na manhã deste quarta-feira, 15, em sua residência em São Paulo, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é foco de sete frentes de investigação pela força-tarefa da Operação Lava Jato. As apurações envolvem o recebimento de propina em obras de refinarias e unidades petroquímicas, em contratos do setor naval para o pré-sal, em negócios com recursos do fundo de pensão dos trabalhadores da Petrobrás (Petros) e por enriquecimento ilícito.

Vaccari e sua cunhada foram preso pela Polícia Federal e levados diretamente para a Superintendência da PF em Curitiba, onde estão concentrados os trabalhos da Lava Jato.

Vaccari quando foi levado para depor coercitivamente em fevereiro na sede da PF em São Paulo. Foto: Felipe Rau/ Estadão.

Vaccari quando foi levado para depor coercitivamente em fevereiro na sede da PF em São Paulo. Foto: Felipe Rau/ Estadão.

Denunciado criminalmente como o operador de propina do PT no esquema de cartel e corrupção na Petrobrás, o tesoureiro nacional do partido já havia sido conduzido coercitivamente a depor, no dia 5 de fevereiro. Desta vez, a mulher dele Giselda Rosie de Lima foi conduzida coercitivamente a depor.

Uma das frentes envolve um suposto pagamento de R$ 400 mil, depositado em 2008 na conta da mulher de Vaccari por empresa usada pelo ex-deputado federal José Janene (PP-PR) – estopim da Lava Jato.

Em um pen drive aprendido nas buscas da Lava Jato, a PF localizou o contrato de empréstimo datado de 10 de novembro de 2008 e assinado pela mulher de Vaccari e pela empresa CRA – Comércio de Produtos Agropecuários Ltda., bem como o recibo de quitação de 2009.

A CRA estava registrada em nome do advogado Carlos Alberto Costa, preso em 2014 pela Lava Jato acusado de ser laranja do doleiro Alberto Youssef.

Parte do contrato de empréstimo de empresa ligada a José Janene para mulher de Vaccari

Réu confesso da Lava Jato, Costa revelou que a CRA pertencia a Cláudio Mente e foi usada para movimentar propina das empreiteiras acusadas de corrupção na Petrobrás por Janene e empreiteiras do cartel.

Nos documentos da Lava Jato, está a transferência dos R$ 400 mil para a conta de Giselda no dia 19 de novembro de 2008. O advogado de Youssef afirmou em depoimento que foi ele quem elaborou o contrato de mútuo entre a CRA e a mulher de Vaccari.

“Visava justificar a transferência a Giselda Rousie de Lima. A CRA nunca emprestou dinheiro a ninguém”, declarou Costa em depoimento prestado à PF no dia 13 de fevereiro.

No termo, o laranja de Youssef e Mente declarou ter “certeza de que tanto o contrato de mutuo como o termo de quitação foram feitos na mesma data, como era de praxe, considerando que esse tipo de documento era usado para ‘esquentar’ alguma transação financeira”.

Costa declarou ainda que Vaccari tinha “negócios” com o ex-sócio de Janene “ligados a fundos de previdência”. “Claudio (sócio de Janene) mencionava a influência de Vaccari junto a fundos de pensão de estatais”, disse à PF.

Registro de valores em nome da mulher de Vaccari

Registro de valores em nome da mulher de Vaccari

Na CPI da Petrobrás, Vaccari afirmou que o empréstimo foi por conta de uma transação imobiliária envolvendo a compra da casa onde ele mora, em São Paulo.

“Comprei a casa em que eu moro hoje e coloquei à venda a casa em que eu morava. Achei que ia dar tempo de vender a casa. Dei entrada e não conseguiu vender a casa antiga”, explicou Vaccari.

“Procurei o meu amigo Cláudio Mente e solicitei se ele tinha condição de fazer empréstimo e fizemos um mutuo no qual foi feita a transferência bancária para minha mulher.” Depois de vender a casa ele diz ter pago o empréstimo.

Operador do PT. Conduzido coercitivamente para depor no dia 5 de fevereiro, quando foi deflagrada a operação ‘Que País, é esse?, Vaccari é peça centra da nona fase da Lava Jato, que tem como alvo o esquema de arrecadação do PT na Petrobrás, via Diretoria de Serviços e ex-diretor Renato Duque.

Em delação premiada, o ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco – braço-direito de Duque – afirmou que o PT arrecadou via Vaccari até US$ 200 milhões em propinas entre 2003 e 2013 em contratos da Diretoria de Serviços. Os valores foram arrecadados em cerca de 90 contratos da diretoria, listados pelo delator.

Identificado no registro informal das propinas feito por Barusco como “Moch” – referência à inseparável mochila preta que carrega nas costas -, o tesoureiro do PT nega veementemente qualquer relação com propinas ou doações ilegais. O delator entregou os registros de valor em nome de Vaccari para a PF.

Planilha com registros de propina de Vaccari (

Planilha com registros de propina de Vaccari (“moch”), Renato Duque (“MW”) e outros, entregue por delator

Por meio da Diretoria de Serviços, o PT arrecadava de 2% até 3% de propina em contratos da estatal. As investigações em andamento da Lava Jato resultarão em novas denúncias contra Vaccari. Ele tem negado reiteradamente as acusações de propina. Diz nunca ter operado doações ilegais para o partido, nem ter participado de acertos com empresas.

Tesoureiro do partido entre 2010 e 2014, ele teve papel fundamental na arrecadação de recursos da campanha de reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. É também réu em processo envolvendo fraudes na Bancoop (cooperativa dos bancários de São Paulo envolvida em financiamento imobiliário para cooperados).

Esquema montada pelo PF para suposto elo com pagamento de propina da OAS

Esquema montada pelo PF para suposto elo com pagamento de propina da OAS

 

VEJA A LISTA DE IMPLICAÇÕES DE VACCARI NA MIRA DA LAVA JATO

PROPINA NA DIRETORIA DE ABASTECIMENTO
Vaccari, segundo primeira denúncia da Lava Jato envolvendo seu nome, é apontado por operacionalizar o recebimento de R$ 4 milhões em propina em quatro contratos de obras feitos pela Diretoria de Abastecimento (cota do PP no esquema de corrupção da Petrobrás). Ele é réu na Justiça Federal e apontado por se reunir com Renato Duque mensalmente para, abertamente, discutir os andamentos dos contratos e os pagamentos das propinas como representante do PT.

Os valores teriam sido repassados por empresas utilizadas pelo grupo Setal, do executivo e delator Augusto Mendonça. Os acertos seriam feitos em reuniões em diversos hotéis (Cesar Park, Sofitel Copacabana e Windsor Copacabana, no RJ, e Sofitel Sena Madureira, Transamérica Morumbi e Meilá Alameda Santos, em São Paulo).

US$ 200 MILHÕES EM PROPINA NA DIRETORIA DE SERVIÇOS
Vaccari é acusado de operar o recebimento de US$ 200 milhões em propina para o PT entre 2003 e 2013, em decorrência de pelo menos 90 grandes obras da Petrobrás. Nas reuniões realizadas com o ex-diretor de Serviços Renato Duque e o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco, seu braço-direito, Vaccari chegava a apresentar reivindicações das empresas referentes a licitações, aditivos, cadastro e problemas técnicos, colaborando com a contraprestação do pagamento das propinas. É o que afirmou Barusco em sua delação.

CONTRATOS DO PRÉ-SAL
Obras offshore, como plataformas e de navios, envolvendo multinacionais como Kepell Fels, Jurong, e nacionais como Odebrecht, Queiroz Galvão, UTC e Iesa, envolveram 1% de propina. O delator Pedro Barusco apontou que nos contratos para construção de 28 sondas de perfuração pela empresa Sete Brasil – criada e contratada pela Petrobrás – por US$ 22 bilhões. Do 1%, dois terços eram destinados ao PT e esse recebimento era operado por Vaccari

EMPRÉSTIMO DE SÓCIO DE JANENE
A empresa CRA, que pertence a um sócio do ex-deputado José Janene (PP-PR), morto em 2010 e estopim da Lava Jato, após ser flagrado no mensalão, depositou em 2008 R$ 400 mil em conta em nome de Giselda Rosie de Lima. O contrato de empréstimo e o recibo de quitação da dívida, de 2009, seriam feitos para “esquentar” propina, afirmou o advogado do doleiro Alberto Youssef preso e colaborador da Lava Jato

FUNDOS DE PENSÃO (PETROS)
Vaccari é suspeito de ter intermediado uma transação que envolveu o pagamento de propina de R$ 500 mil a dois diretores do fundo de pensão dos funcionários da Petrobrás, Petros, feito com empresas do ex-deputado federal José Janene, e do doleiro Alberto Youssef, que teria causado prejuízo de R$ 13 milhões – ambos ligados ao PT. A transação na Petros envolveu a compra de título de crédito emitido por uma empresa falida que havia sido adquirida pelo ex-deputado e pelo doleiro: a Indústria de Metais Vale (IMV). Registrada em nome do advogado e testa de ferro de Youssef, Carlos Alberto da Costa, ele confirmou em depoimento que R$ 500 mil “foi desviado para pagamento de propina para funcionários da Petros”. A operação envolveu o aporte de R$ 4 milhões, em 2007, pela CSA Project Finance – que também era usada pela lavanderia de Janene e Youssef – e um contrato de venda com recebimento antecipado de uma grande siderúrgica nacional. Desse modo, a IMV emitiu Cédula de Crédito Bancário (CCB), no montante total de R$ 13.952.055. O fundo Petros comprou esses títulos, depois de negociação com a CSA que teria envolvido Vaccari. A empresa continuou falida e a Petros ficou sem recuperar o investimento

PROPINA DE R$ 800 MIL DA TOSHIBA
O doleiro Alberto Youssef revelou à Justiça Federal que entregou cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo para Vaccari, metade desse valor na porta do diretório nacional do PT, em São Paulo, em 2012. O valor foi entregue à mando “da Toshiba (Infraestrutura)”. O dinheiro teria origem em uma contratação para obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), entre 2009 e 2010. “O primeiro valor foi retirado no meu escritório da (rua) Renato Paes de Barros (São Paulo) pela cunhada dele (Vaccari)”, declarou Youssef, referindo-se à Marice Corrêa Lima.
“Eu entreguei esse valor pessoalmente. O segundo valor foi entregue na porta do diretório do PT nacional pelo meu funcionário Rafael Ângulo para o funcionário da Toshiba para que ele pudesse entregar o valor para o Vaccari.”

PROPINA DA OAS
O executivo da OAS José Ricardo Nogueira Breghirolli, que foi preso pela Lava Jato em 14 de novembro de 2014, é apontado como o responsável por indicar um pagamento para a cunhada de Vaccari, em dezembro de 2013, Marice Correa de Lima. A cunhada é suspeita de ter recebido R$ 244 mil do doleiro Alberto Youssef por indicação dos executivos da OAS. Breghirolli, que está em um organograma montada pela PF demonstrando o caminho do dinheiro, era um dos contatos do doleiro Alberto Youssef em seu celular e trocou mensagens que foram interceptadas pela Polícia Federal. Ele aparece na lista de contatos do doleiro como “J.Ricardo”.
“Segundo as mensagens, José Ricardo orienta Youssef a efetuar uma entrega aos cuidados de sra. Marice, no dia 03/12/2013, às 14h30min, no endereço Rua Doutor Penaforte Mendes, 157, AP 22, Bela Vista”. Pelo relatório dos policiais da Lava Jato, a destinatária seria “Marice Correa de Lima”. Tanto Breghirolli como Vaccari foram monitorados em visitas feitas ao escritório de Youssef em São Paulo.