Preso a guru, Bolsonaro delega mais do que lidera

Preso a guru, Bolsonaro delega mais do que lidera

Magno Karl*

09 de abril de 2019 | 18h03

Acervo Pessoal

O Brasil é vítima de uma liderança confusa e um governo desorganizado. Espalhado por múltiplos núcleos, sem coordenação ou liderança política evidente, Jair Bolsonaro viu seus primeiros 100 dias no cargo passarem em meio a conflitos internos, proposições vazias e mensagens do filósofo narciso, sempre envaidecido com os espelhos que lhe estendem.

O presidente lidera o país em um momento histórico, quando precisaremos escolher se nos tornamos um país moderno, de economia aberta e instituições reformadas, ou continuamos privilegiando alguns poucos e patinando no subdesenvolvimento.

As eleições terminaram. Um novo congresso tomou posse em fevereiro e o caos não interessa a quem acredita no futuro do Brasil. A hora é de ação, porque o país não tem mais tempo a perder.

Como político, Bolsonaro cativou a população com a simplicidade com que propunha soluções para temas complexos, como a segurança pública, e por opiniões marcadamente retrógradas em questões sociais.

Tornou-se mito para uma parcela da população e elegeu-se derrotando uma dezena de adversários e as certezas dos analistas sobre a viabilidade de sua candidatura. Mas nesses três meses, tornou-se um presidente errático e hesitante, incapaz de encampar com convicção as melhores ideias propostas por sua equipe e cujos méritos se concentram mais no que foi capaz de delegar do que nos temas que se dispôs a liderar.

Um presidente disposto a delegar tamanhos poderes merece reconhecimento, colocando na linha de frente gestores com perfil técnico, como o Ministro da Infraestrutura Tarcísio Gomes de Freitas, responsável pela nova rodada de privatização de aeroportos, ou personalidades com potencial para ofuscá-lo em popularidade, como o ministro Sérgio Moro, responsável pela edição do pacote anticrime.

No Ministério da Economia, Bolsonaro apostou suas fichas em Paulo Guedes, encarregado pela importante inflexão liberal na agenda do governo, evoluindo em relação ao histórico de votação antiliberal do presidente e sua família nas casas legislativas.

A responsabilidade pela promoção e defesa da Reforma da Previdência ficou com a equipe de Guedes, como ficaram também as melhores medidas adotadas pelo governo nestes primeiros 100 dias.

O Ministério da Economia foi fonte das primeiras medidas para a reforma do Estado e melhora no ambiente de negócios. Agora, cargos comissionados na administração federal só poderão ser ocupados após comprovação de experiência profissional ou acadêmica relevante da parte do nomeado.

Além disso, a priorização da melhora do ambiente de negócios no país nos parece clara. A MP 876, por exemplo, permite o registro automático de pequenas e médias empresas, facilita a concessão de CNPJ e dispensa a necessidade de visitas a cartórios para a autenticação de documentos.

Na última semana, 250 decretos obsoletos foram revogados, num esforço que deverá se repetir para diminuir entraves à operação do governo e desburocratizar a vida do brasileiro.

Por fim, aguarda-se a edição da MP da Liberdade Econômica, que visa garantir que a autonomia para empreender seja o imperativo e que restrições às atividades de produção e trabalho sejam exceções.

Acompanhamos com esperança a promulgação de medidas inteligentes e vitais para enfim destravarmos a economia brasileira para mais um ciclo de crescimento.

Enquanto isso, vimos o governo desperdiçar tempo em bate-bocas nas redes sociais e discussões infundadas lideradas por figuras importantes.

A ministra Damares Alves se pronunciou sobre o que chama de ‘ideologia de gênero’ por meio de uma metáfora sobre as cores que as crianças devem vestir.

Enquanto um país vizinho batalha contra uma crise humanitária que já trouxe dezenas de milhares de refugiados ao Brasil, Ernesto Araújo prefere debates sobre o nazismo ser de esquerda ou direita, enquanto o agora ex-ministro Vélez se distraía fazendo a sociologia do brasileiro – ladrão e “canibal” – em viagens ao exterior.

A administração pública moderna exige seriedade, experiência e capacidade. No mais recente episódio de constrangimento coletivo, o governo unido tentou reescrever a história recente do Brasil e minimizar a gravidade das prisões políticas e assassinatos cometidos pelo Regime Militar.

Jair Bolsonaro negou que o regime tenha imposto uma ditadura no país e disse apenas que os governos militares tiveram ‘probleminhas’. Em que pese algumas boas nomeações, parte do time que assumiu o Planalto em janeiro, incluído o presidente, parece subestimar a magnitude do desafio posto a sua frente.

Jair Bolsonaro não é um homem de ideias e não há nada de errado nisso. Luiz Inácio Lula da Silva jamais se vendeu como tal e Dilma Rousseff, a economista popularizada em campanha por sua inteligência, planilhas e suposta capacidade gerencial, afundou o governo em uma crise política e a economia na maior recessão da história.

As ideias de Bolsonaro são reações àquilo que chama sua atenção. Bolsonaro é essencialmente um homem prático, como definiu John Maynard Keynes, um dos economistas mais importantes do século XX.

Keynes escreveu que homens práticos, aqueles que acreditam estar isentos da influência de intelectuais, são, via de regra, escravos de algum economista falecido.

Nosso homem prático e seus 3 filhos práticos não são escravos de economistas mortos, mas, pior, permanecem perigosamente ligados a um filósofo vivo. É hora de quebrarem essa corrente.

*Magno Karl é cientista político, diretor de políticas públicas do Livres e doutorando em políticas públicas pela Universidade de Erfurt

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