Presidente da Palmares pediu que diretores tivessem como ‘meta’ entregar a cabeça de ‘esquerdistas’, se não quisessem ser demitidos

Presidente da Palmares pediu que diretores tivessem como ‘meta’ entregar a cabeça de ‘esquerdistas’, se não quisessem ser demitidos

Novo procurador-geral do Ministério Público do Trabalho defende afastamento imediato de Camargo

Vera Rosa e Eduardo Rodrigues/BRASÍLIA

30 de agosto de 2021 | 19h44

O pedido de afastamento imediato do presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, partiu de uma investigação que se desenrola há mais de um ano, na esteira de denúncias de assédio moral, discriminação de funcionários, racismo e perseguição ideológica. Em junho do ano passado, o Estadão revelou que Camargo chamou o movimento negro de “escória maldita” e prometeu dispensar diretores da autarquia que não tivessem como “meta” demitir “esquerdistas”.

De lá para cá, as intimidações feitas pelo presidente da Palmares só aumentaram, de acordo com relato de servidores. Agora, além de seu afastamento, o Ministério Público do Trabalho também pede que Camargo seja condenado a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais aos funcionários.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o novo procurador-geral do Ministério Público do Trabalho (MPT), José de Lima Ramos Pereira, manifestou apoio da instituição ao procurador Paulo Neto, responsável pelo processo que pede à Justiça o afastamento imediato de Camargo. A ação foi protocolada na sexta-feira, 27, na 21.ª Vara do Trabalho de Brasília, como informou o programa Fantástico, da TV Globo.

“O procurador Paulo Neto tem conduzido o processo com muita tranquilidade, firmeza e segurança. Os dados já são dados públicos e dizem respeito a fatos que deixam qualquer pessoa bem preocupada”, disse Ramos Pereira nesta segunda-feira, 30. “Você tem uma entidade como a Fundação Palmares, que foi criada para acolher as pessoas, e está se tornando uma instituição de conflitos e assédios. O procurador tem todo o nosso apoio para continuar o trabalho, para que o assédio moral não tenha guarida nas nossas empresas e instituições”, completou.

As investigações que culminaram com o pedido de afastamento de Camargo colheram o depoimento de 16 pessoas, entre ex-funcionários, servidores públicos concursados, comissionados e empregados terceirizados da Fundação Palmares. De acordo com o processo, as apurações indicaram que Camargo persegue empregados classificados como “esquerdistas”, promovendo humilhações e um “clima de terror psicológico” no trabalho. Relatos mostram que um diretor da Fundação, hoje fora da autarquia, era chamado pelo presidente da Palmares de “direita bundão” por se recusar a demitir quem ele considerava “esquerdista”.

Numa reunião realizada no dia 30 de abril de 2020, Camargo carimbou o movimento negro como “escória maldita”, que abriga “vagabundos”, chamou Zumbi dos Palmares de “filho da puta que escravizava pretos” e estabeleceu a “meta” para a demissão dos “esquerdistas”, sob pena de exoneração. Além disso, manifestou total desprezo pela agenda da “Consciência Negra” e disse que suas opiniões sempre refletiram “liberdade de expressão”. À época, o Estadão divulgou o áudio do diálogo entre Camargo e dois servidores, sendo um deles coordenador de gestão.

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Foto: Gabiela Biló / Estadão

Trajetória. As polêmicas envolvem a trajetória de Camargo. Em dezembro de 2019, o presidente da Fundação Palmares chegou a ser afastado do comando da instituição, durante três meses, por defender a extinção do movimento negro e dizer que o Brasil tem um “racismo nutella”. A Justiça considerou que suas declarações, minimizando o crime de racismo, eram incompatíveis com o cargo.

No encontro com servidores, revelado pelo Estadão, Camargo assegurou, entre um palavrão e outro, que o processo para tirá-lo do comando da autarquia não ia dar em nada porque havia ali uma “usurpação” do poder do presidente Jair Bolsonaro, que o nomeara.

“Esses filhos da puta da esquerda não admitem negros de direita. Vou colocar meta aqui para todos os diretores, cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair. É o mínimo que vocês têm que fazer”, advertiu o presidente da Palmares naquela reunião a portas fechadas, em abril do ano passado.

No Twitter, o presidente da Fundação Palmares se apresenta até hoje como “negro de direita, antivitimista, inimigo do politicamente correto, livre” e sempre compra briga com quem o critica.

Nesta segunda-feira, 30, Camargo adotou novo tom de ataque ao reagir às denúncias contra ele. “Recado para imbecis e analfabetos funcionais. É minha PRERROGATIVA como presidente da instituição exonerar esquerdistas e nomear conservadores. Isso não é assédio, suas antas. É dever moral! Não tenho que trabalhar com esquerdopatas nem com militantes vitimistas”, escreveu. “Preto de esquerda, além de burro, aceita coleira!”

Ao comentar reportagem sobre o pedido do Ministério Público do Trabalho para seu afastamento imediato, o presidente da Palmares reagiu: “Baseado em que, manés? Depoimentos mentirosos de traíras e de militantes que fiz muito bem em exonerar/demitir? Haja paciência!”

Antes disso, no domingo, 29, ele já havia postado uma mensagem sobre cabelos de negros. “Se você é preto e tem orgulho do seu cabelo, além de ridículo, será sempre um fracassado a serviço do vitimismo”, afirmou.

Embora uma das atribuições da Palmares seja preservar os valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade e combater o racismo, a fundação chegou a excluir, em dezembro do ano passado, por ordem de Camargo, 27 nomes de uma lista de personalidades homenageadas pela instituição, como artistas, atletas e políticos. Saíram da lista, por exemplo, Elza Soares, Gilberto Gil, Martinho da Vila e Milton Nascimento. Trata-se de mais polêmica, que até hoje está na Justiça, para o currículo de Sérgio Camargo.

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