Prepare-se para o metaverso

Prepare-se para o metaverso

José Renato Nalini*

23 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O futuro já chegou, pode não ser “admirável”, mas é bem surreal. A ideia de metaverso prevê uma intensa interação entre realidade e virtualidade. Funcionalidades já existentes e comprovadamente fantásticas serão usadas para uma completa imersão das pessoas no ambiente das conexões virtuais.

Pessoas que hoje são dependentes do mundo web praticamente perderão o seu contato com o que chamamos hoje “realidade” e mergulharão, de vez, nesse espaço que oferece infinitas possibilidades.

Pensa-se, por exemplo, em utilização da holografia, para que a sensação de presença entre pessoas que conversam pelos mobiles seja praticamente idêntica à de um encontro pessoal. Não se elimina a possibilidade de conversação com seres amados que já se foram, desde que haja suficiente material visual e auditivo que permita “recriá-los” para esse inimaginável diálogo.

Haverá ao menos três conceitos de realidade: a realidade em sentido estrito, aquela com a qual nascemos e nos acostumamos; a realidade virtual, que é a criada pelo universo da internet e a realidade aumentada, que multiplica a potencialidade de utilização, em escala exponencial.

O uso de óculos de realidade aumentada abre um leque incrível de oportunidades de estabelecer contatos com pessoas em qualquer parte do planeta. A criação de avatares propiciará contatos praticamente reais entre seres comuns e imaginários. Na verdade, subverte-se o conceito de avatar, que é a materialização de um ser superior, na tradição hindu. Com o metaverso, desmaterializa-se uma criatura que pode ter existência física real num símile virtual que contactará e se relacionará com o interessado.

A concepção de metaverso é relativamente antiga, mas ganhou incremento com o anúncio de Mark Zuckerberg de que o Facebook passará a se chamar Meta. Algumas experiências já ocorreram, como aconteceu com a jornalista Joanna Stern, que trabalha no The Wall Street Journal. Esse passo rumo à nova era web, faz com que as pessoas possam criar versões digitais para uma participação efetiva no mundo paralelo.

Relata a jornalista que passou vinte e quatro horas num quarto de hotel, utilizando-se de um headset Oculus Quest 2.

O início parecia uma brincadeira. Afinal, a gamificação faz parte do ambiente virtual desde os primórdios. Os games são praticados por crianças e jovens e os millenials têm desenvoltura singular para evidente intimidade com essa prática lúdica.

O jogo praticado pela jornalista foi o Beat Saber, que se utiliza de um sabre de luz para separar músicas. Em seguida, veio o supernatural, com o previsível empenho em se desviar de obstáculos que surgem numa caminhada em cenário deslumbrante. Depois disso, começa o metaverso. Ele oferece interação social no aplicativo AltspaceVR. Customiza-se o próprio avatar, que passa a dialogar com outros e participar de eventos que parecem reais.

É possível até tornar-se amigo daqueles seres com os quais se mantém uma conversação. A jornalista conseguiu ainda visitar um parque, um bar descolado e até assistiu a uma comédia. O humorista, que protagonizava o espetáculo, elogiou-a e exerceu certa dose de sedução, com o objetivo de captar sua simpatia.

A experiência incluiu também um espaço para meditar. Joanna chegou depois disso a dormir, leu a mídia com as principais notícias do dia seguinte e teve um suculento café da manhã.

Não se sabe se nesse período de vinte e quatro horas enfurnada dentro de um quarto de hotel, a experiência do metaverso correspondeu ao mesmo período temporal. Tudo indica que a sensação foi de um tempo muito maior.

A magia dessas inovações pode servir a inúmeros propósitos. Sem dúvida, o interesse primordial é financeiro. Tudo tem um preço e quem quiser provar da novidade terá de desembolsar polpudas quantias, para aquisição do equipamento. Não se exclui, todavia, a abertura de cenários apenas entrevistos na ficção científica. Mais uma rota de fuga para quem se decepciona com a política partidária rasteira que se pratica em nações de desenvolvimento tardio, aquelas repúblicas periféricas, peritas em retrocesso e a servirem de exemplo para o mundo civilizado: cuidado com suas escolhas.

O metaverso obcecou os que o conheceram. Que traga perspectivas mais auspiciosas para os que acreditam que as tecnologias da Quarta Revolução Industrial estejam a serviço da ética e do aprimoramento do convívio entre os humanos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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