Prefeitos: muita atenção

Prefeitos: muita atenção

José Renato Nalini*

17 de setembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A mais importante questão no próximo ano é a educação. Ela sempre foi relevante. Mas a pandemia escancarou a realidade brasileira. Os invisíveis vieram à tona, assim como os excluídos, cujo número é superior ao que se calculava. A falta de educação de qualidade agravou as consequências da mais grave crise de saúde enfrentada neste século.

Educação, reitere-se, é a única chave capaz de transformar o Brasil. Resolve, ou ao menos atenua, a integralidade dos problemas nacionais. Um povo educado não produziria a quantidade de resíduos sólidos que exaure boa parcela dos orçamentos municipais, porque a coleta, a remoção, a destinação nos famigerados “aterros sanitários” é algo dispendioso. E lembra o castigo de Sísifo. No dia seguinte, o lixo se acumula em todos os lugares.

Povo educado não permitiria que os caudalosos e piscosos rios se transformassem no vergonhoso canal de trânsito de esgotamento doméstico, substâncias químicas tóxicas e toda espécie de objetos dos quais a população quer se livrar.

Se a escola efetivamente viesse a cumprir sua função, haveria saneamento básico exigido como produto de primeiríssima necessidade. O esclarecimento do alunado o levaria a práticas de prevenção para questões de saúde que provêm mais da ignorância do que de fatores orgânicos.

Alguém com boa formação encontraria ocupação digna, da qual pudesse extrair o sustento próprio e o de sua família. Muito distante a situação atual, com milhões de jovens despreparados, alvos fáceis do sedutor recrutamento feito pelas facções criminosas. Elas oferecem à mocidade condições muito superiores às disponíveis no cardápio de uma sociedade consumista e egoísta e de um governo mais interessado em perpetuar-se.

Ensino e aprendizado eficientes contribuiriam para que a sociedade se tornasse mais civilizada, soubesse escolher melhor os seus representantes e não suportasse, de forma passiva e inerte, desmandos de toda a sorte.

Se os futuros prefeitos quiserem passar à História como lideranças imperecíveis, devem dedicar o melhor de sua determinação para promover uma reengenharia no sistema público de ensino.

Chegamos a um estágio em que só é possível melhorar. Mas o Chefe do Executivo deveria se submeter a um processo de auto-conversão, para ter coragem de abandonar esquemas evidentemente frágeis. Não diria falidos, porque o empenho de alguns heróis mantém o funcionamento de uma estrutura gigantesca e sem paralelo na iniciativa privada.

A educação é um projeto de que devem participar todos, sem exclusão de ninguém. Envolver a família, mas fazê-la parceira da empreitada de preparar crianças e jovens para o inesperado. O futuro só acena com incertezas. O que farão esses alunos nos próximos trinta anos?

A utilização das tecnologias da comunicação e informação tornou-se imprescindível. O ensino híbrido veio para ficar. Mas é preciso inovar. Não apenas oferecer conteúdo pelas redes, porém estimular crianças e jovens a criar aplicativos, a programar, a elaborar games e produzir esquemas fáceis de um aprendizado lúdico, de modo compatível com a expectativa dos millenials. Os nativos digitais não conseguem aturar a perpetuação de aulas prelecionais em classes de secular topografia. As longas fileiras e o mestre distante, junto à antiga lousa.

As escolas municipais devem ser estimuladas à originalidade e a um dinamismo que devolva à sua clientela o encanto de estudar. O ambiente escolar precisa ser sedutor, aprazível, causar alegria no estudante enquanto ali estiver e saudades quando não estiver.

Para isso, não se permaneça na padronização, algo inadmissível em se cuidando de seres humanos. Todos irrepetíveis, singulares, heterogêneos e muito diferentes de coletividades homogêneas como formigueiros, cupinzeiros ou colmeias.

Todas as modalidades de ensino/aprendizado devem ser permitidas. Assim como um contato permanente com a rede privada, que pode ser a escolhida por pais desgostosos com a educação oficial, incentivados pela municipalidade com vouchers. Pois a educação é dever do Estado e da família. Esta pode escolher outra orientação para a sua prole. Incumbe ao Município construir uma rede tão eficiente, que seja a eleita pelos pais, sempre querendo o melhor para os seus filhos.

Favorecer o empreendedorismo, trocar experiências e tornar íntima a convivência entre escolares e exercentes de atividades que garantam subsistência digna agora e no futuro. A escola não pode ser uma bolha isolada do que acontece na vida real.

O professor, tão necessário como incompreendido, deve ser alvo de um especial olhar por parte do chefe do Executivo. Assim como os diretores, almas que conseguem produzir milagres, dada a inadequação das estruturas atuais, todas defasadas, superadas, anacrônicas e, em alguma medida, até necrosadas.

Um Prefeito educador não poderá deixar de visitar uma escola, senão a cada dia, ao menos a cada semana. Sem avisar, sem ruído, sem o marketing que justifica as esporádicas inspeções daqueles que querem passar uma ideia de político efetivamente atento ao que se passa no ambiente escolar.

Sem esse compromisso ético e simultaneamente salvífico, liderado pelo Prefeito, não haverá mudança de rota na trajetória nem sempre brilhante da educação, em todos os municípios do Brasil.

Salvífico, sim, pois é um exercício de legítima defesa da sociedade em perigo, diante dos evidentes déficits da escola dos anos iniciais, a repercutir na tragédia dos demais níveis de ensino brasileiro.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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