Prefeito foragido fez ‘refém’ administração de Montes Claros, diz Justiça

Ao decretar prisão de Ruy Muniz (PSB), desembargadora Márcia Milanez, do TJ de Minas, aponta para 'imensurável poderio político e econômico' do político e dos riscos à ordem pública que ele representa em liberdade

Mateus Coutinho e Julia Affonso

16 de setembro de 2016 | 05h00

Ruy Muniz. Foto: Divulgação

Ruy Muniz. Foto: Divulgação

Ao decretar a prisão preventiva do prefeito afastado de Montes Claros, no interior de Minas, Ruy Muniz (PSB) e seu filho, a desembargadora Márcia Milanez, do Tribunal de Justiça do Estado assinalou que o município ficou ‘refém’ da quadrilha supostamente liderada pelo político.

“O imensurável poderio político e econômico do grupo em tela maximiza o risco que a liberdade de Ruy Muniz e de seus principais comparsas traria para a ordem pública. Malgrado haja outras investigações e procedimentos penais em curso em desfavor de envolvidos em tal quadrilha, tal circunstância não inibiu a atuação delitiva dos mesmos, os quais tornaram a Administração PúblicaMunicipal de Montes Claros refém de um esquema de desvios para enriquecimento ilícito”, aponta a magistrada na decisão que determinou a prisão do político na Operação Tolerância Zero, deflagrada nesta quinta-feira, 15.

Nesta investigação, Muniz é acusado de liderar uma quadrilha que teria desviado dinheiro da compra de combustíveis por parte da Prefeitura de Montes Claros, beneficiando empresários, além dele mesmo.

Para a desembargadora, a dimensão do esquema de corrupção e a própria ‘ousadia’ dos investigados exige “maior rigor na resposta judicial”. Por isso, a magistrada entendeu ser necessária a prisão preventiva dos investigados, incluindo o filho de Ruy Muniz e outros dois funcionários da prefeitura.

“A ousadia e a complexidade do modus operandi destes quatro investigados – acrescidas do fato de que eles coordenavam as atividades proscritas da organização criminosa, sob o mando de Ruy Muniz, inclusive com a cooptação de empresários para a expansão do esquema fraudulento de apropriação de dinheiro público – são elementos concretos indicativos de que suas constrições preventivas afiguram-se essenciais não apenas para a garantia da ordem pública, evitando que as empreitadas ilícitas prossigam, como também para a preservação da instrução criminal, de modo a assegurar a adequada colheita da prova sem a indesejável interferência dos investigados sobre os documentos e sobre as pessoas envolvidas nos crimes perpetrados”, conclui a desembargadora.

O entendimento da desembargadora contrasta com a fala da mulher do prefeito afastado, Raquel Muniz (PSD-MG) em seu voto pela aceitação do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em abril. “Meu voto (no impeachment) é pra dizer que o Brasil tem jeito, o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão”, afirmou a deputada, na ocasião.

No dia seguinte, seu marido foi preso pela Polícia Federal. Ele foi solto em julho por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Esta já é a terceira investigação contra Ruy Muniz, que somente em 2016 já foi alvo de duas operações da Polícia Federal, uma por suspeita de beneficiar hospitais privados ligados a ele e outra por suspeita de participar, junto com a mulher, de participar grupo que teria praticado fraudes tributárias e previdenciárias, estelionatos qualificados, desvio de recursos de entidades beneficentes de assistência social sem fins lucrativos e de verbas públicas federais.

Procurada, a assessoria da prefeitura de Montes Claros informou que não iria comentar o caso. A reportagem também entrou em contato com o gabinete de Raquel Muniz, mas foi informado que a deputada ainda não tinha um posicionamento.

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