Prefeita do ‘Brasil imperial’ comprou votos com tábuas e telhas

Prefeita do ‘Brasil imperial’ comprou votos com tábuas e telhas

Maria Barroso (PROS), do pequeno município amazonense Pauini, a 2.200 quilômetros de barco de Manaus, foi cassada em 2013, mas Tribunal Eleitoral lhe devolveu mandato

Julia Affonso e Fausto Macedo

11 de maio de 2016 | 05h30

Maria Barroso. Foto: Evandro Seixas/A Crítica

Maria Barroso. Foto: Evandro Seixas/A Crítica

A prefeita Maria Barroso (ex-PMDB, hoje PROS), do município amazonense Pauini, a 2.200 quilômetros de barco de Manaus – presa nesta segunda-feira, 9, pela Polícia Federal na Operação Cartas Chilenas – , já foi cassada por compra de votos com tábuas de madeira e telhas de alumínio.

Em abril de 2013, o juiz da 44.ª zona eleitoral do Amazonas, Flávio Henrique de Freitas, tornou Maria Barroso inelegível por oito anos.

O magistrado entendeu, na ocasião, que os secretários municipais de Obras e de Assistência Social da então peemedebista – em busca da reeleição em 2012-, ofereceram aos eleitores pauinienses tábuas de madeira, telhas de alumínio, rancho, pvc e material de limpeza em troca de votos.

Os aliados de Maria Barroso e ela própria receberam ainda multas em dinheiro – R$ 24 mil para cada secretário e R$ 2,4 mil para ela.

Embora cassada, Maria continuou no poder. O juiz anotou que Maria Barroso deveria prosseguir no comando da gestão municipal para evitar instabilidade política e para que não houvesse ‘alternância desnecessária de poder’ até que a demanda chegasse à última instância judicial.

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A cassação, porém, acabou revogada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas. Por cinco votos a zero, os magistrados da Corte eleitoral concluíram que a prefeita não comprou votos e lhe devolveram o mandato.

Na última segunda-feira, 9, a Polícia Federal prendeu Maria Barroso. Agora, ela é suspeita de fraudar licitações com recursos da União e do Estado. A PF e a Controladoria-Geral da União descobriram, entre outros atos, que a prefeita comprou 500 bolas para uso em apenas uma quadra esportiva da cidade de 10 mil habitantes e autorizou pagamento de R$ 1.780 para lavagem de um único micro ônibus.

Os desvios nas áreas de Saúde e da Educação são estimados em R$ 15 milhões pela PF e em R$ 14 milhões pela Controladoria.

Pauini fica às margens do rio Purus. Sua economia é baseada na agricultura de subsistência e depende quase inteiramente de verbas dos governos federal e do Estado.

A PF comparou Maria Barroso a ‘desmandos do governo no Brasil imperial’.

Cartas Chilenas, nome dado à operação que levou a prefeita para a prisão, são poemas satíricos que circularam em Vila Rica em manuscritos, poucos anos antes da Inconfidência Mineira, em 1789; com críticas à mediocridade administrativa da época.

Segundo a PF, na área da saúde foi apurado que medicamentos adquiridos de uma drogaria de fachada vinculada ao secretário de Finanças da gestão Maria Barroso ‘não foram entregues ao município e houve desvio de recursos do Programa Saúde na Família pelo genro da prefeita, que é falso médico e cooptou mais cinco falsos médicos que atuavam sob um único registro profissional’.

Operação Cartas Chilenas constatou que Maria Barroso contratou falsos médicos por salários de R$ 20 mil mensais.

A reportagem tentou contato com a prefeitura Pauini, mas ninguém atendeu. O espaço está aberto para manifestação da assessoria de Maria Barroso.