Preconceito é doença crônica

Preconceito é doença crônica

José Renato Nalini*

30 de setembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Preconceito, opinião concebida sem racionalidade ou prévia e serena análise, é algo ínsito à natureza humana. As pré-compreensões equivocadas produzem nefasto resultado à convivência e são vedadas pelo pacto fundante cuja vigência teve início em 5.10.1988.

O preâmbulo já evidencia o propósito dos representantes do povo brasileiro de instituir um Estado Democrático amparado em valores hábeis à edificação de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos.

Todavia, subsistem na sociedade preconceitos resistentes à escalada civilizatória. À evidência, mais escancarados aqueles fundados na cor, na raça, no sexo, no sexo, na religião e na diferença social. Mas outros preconceitos permeiam o convívio humano e se antepõem ao ideal da fraternidade, conceito ético promovido no Brasil a uma categoria jurídica.

A História da Humanidade registra uma infinidade de episódios preconceituosos, alguns até bizarros, como aquele resultante de um livro bastante disseminado no século XVIII, a famosa “História Natural”, escrita pelo francês Conde de Buffon.

Para ele, os seres vivos da América eram em tudo inferiores, sob quaisquer fossem os aspectos considerados, aos do Velho Mundo. Para Buffon, a América era uma terra onde a água estagnada produzia nefastos eflúvios. O solo, pobre e frágil, não se prestava à agricultura. Os animais eram desprovidos de tamanho e de vigor. Suas constituições doentias eram ainda mais enfraquecidas pelos “vapores nocivos” que emergiam de seus pântanos pútridos e de suas florestas sem sol.

Quando menciona a “História Natural” de Buffon, o instigante Bill Bryson, no sua provocadora “Breve História de Quase Tudo”, não deixa de salientar que “em tal ambiente, mesmo os índios nativos careciam de virilidade. Eles não têm nenhuma barba nem pelos no corpo e nenhum ardor pelas mulheres. Seus órgãos reprodutivos eram pequenos e fracos”.

O prestígio do Conde de Buffon era tamanho, que sua versão passou a ser a verdade para uma legião de outros autores. A América ainda era mais desconhecida do que hoje. Os franceses se referiam ao Brasil como “la bas” (lá embaixo). O sentido não era geográfico: era depreciativo mesmo. A expressão perdurou. Basta lembrar o “não existe pecado do lado debaixo do Equador”.

Um pensador holandês, Corneille de Pauw, na sua obra muito popular “Pesquisas Filosóficas sobre os americanos”, enfatizou que os homens americanos nativos, além de reprodutivamente frágeis, “tinham tão pouca virilidade que saía leite de seus peitos”. Tudo isso converteu-se em verdade cediça e perdurou no território europeu até inícios do século XX.

Pouca reação verificou-se na América. Apenas alguns eruditos se indignaram. Um deles foi Thomas Jefferson, que em suas “Notas sobre o Estado da Virgínia”, fez com que o seu amigo, General John Sullivan, enviasse vinte soldados às florestas do norte para encontrar um alce americano macho de grande porte.

Depois de suas semanas, abateram um alce cujos cornos eram de tamanho inferior ao desejado por Jefferson. A solução foi substituir os pouco imponentes chifres do animal por uma galhada maior de um veado. Afinal, a França não saberia distinguir entre os dois animais.

Buffon morreu em 1788. Mas o estrago já fora feito.

Ele tem sido lembrado em pleno 2020, quando se verifica o nível de explicações oferecidas pelo governo quanto à destruição da Amazônia e incêndios provocados no Pantanal, no Cerrado, na Mata Atlântica e em outros biomas. Procurar justificar o injustificável, negar que o extermínio da biodiversidade tenha gravidade e atribuir a autoria dos focos a indígenas e a caboclos, alimenta o preconceito do Velho Mundo quanto à maturidade do Estado brasileiro.

Será também preconceito acreditar que o Brasil não leva a sério a maior ameaça contemporânea, a do cataclismo climático, produto da crueldade humana em relação ao Planeta? Ou essa convicção está mais baseada em testemunhos, em constatação da realidade e em postura imatura ou irresponsável de autoridades?

Para confirmar que a visão do mundo civilizado em relação ao Brasil é mais alicerçada em prudente análise do que o nosso País oferece à grande vitrine mundial, está a postura quanto à pandemia. Depois de quase cento e cinquenta mil mortos e cinco milhões de contaminados, continua-se a menosprezar os efeitos da peste. A incentivar aglomerações. A ridicularizar o uso da máscara. A impor a retomada a qualquer custo das atividades geradoras de lucro, como se este fosse mais importante do que a vida.

Os historiadores do futuro se deliciarão com o laboratório antropológico oferecido pelo Brasil neste 2020, ano que deveria ser devolvido à humanidade, pois prevaleceu um hiato ou funcionou em slow-motion, dando um breque ao dinamismo em que estávamos mergulhados.

A imagem do Brasil no mundo civilizado é fruto de preconceito ou de mera apreciação do que oferecemos à comunidade global?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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