Preconceito de CEP: quando o bairro em que moramos representa uma barreira de acesso ao trabalho

Preconceito de CEP: quando o bairro em que moramos representa uma barreira de acesso ao trabalho

Liliane Rocha*

12 de setembro de 2020 | 15h00

Liliane Rocha. Foto: Divulgação

“Aqui em Paraisópolis, há alguns anos, quando íamos procurar empregos escrevíamos no currículo que éramos do Morumbi”. Assim transcorre uma das conversas com Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis, São Paulo. Constantemente, conversamos e trocamos percepções sobre barreiras impostas pela sociedade, sobre como hackear o sistema, e mais ainda sobre como demonstrar – das mais variadas formas – para o empresariado brasileiro e o poder público, a potência da diversidade, da inclusão e das comunidades brasileiras.

Nestas conversas, falamos sobre como, por vezes, até o bairro em que moramos pode ser um entrave na busca de empregos, pois para quem mora nas favelas brasileiras, o CEP pode vir a representar, indevidamente, um corte no processo seletivo. Assim, quando falamos sobre diversidade em um país tão desigual como o Brasil, é preciso entender que a renda de um indivíduo também pode representar um marcador identitário, bem como é uma Interseccionalidade. Ou seja, os desafios se apresentarão de forma distintas para negros, mulheres, LGBTQIA+, e pessoas com deficiência, entre outros, oriundos de baixa renda. Entre abril e maio de 2020, contabilizamos cerca de 13 milhões de desempregados no Brasil. A pergunta que fica é: como garantir que grupos minorizados e vulnerabilizados não sejam os mais atingidos diante de um contexto sócioeconômico tão delicado?

Para avançar nesta agenda, é fundamental articular movimentos intersetoriais, coordenados envolvendo poder público, empresas e sociedade civil. Recentemente, sobre a liderança da pedagoga Rejane Santos, também de Paraisópolis, foi lançado o Emprega Comunidades. A principal proposta do movimento é conectar as empresas com os candidatos das comunidades, transformando vidas por meio do acesso ao trabalho.

O projeto está relacionado ao G10 Favelas, por isso tem capilaridade e hoje, além de São Paulo, está também em Minas Gerais e Brasília. Atualmente, conta com um banco de currículos com mais de 16 mil candidatos e realiza um processo seletivo de triagem antes de direcionar as pessoas para as vagas e entrevistas nas grandes empresas parceiras do Projeto. Segundo Rejane, graças ao Projeto, em um período de dois anos,
cerca de 700 moradores ingressaram no mercado de trabalho.

Luiza Helena Trajano, Presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, Ana Fontes, Fundadora da Rede Mulher Empreendedora, Lisiane Lemos, Gerente no Google, e eu somos algumas das madrinhas deste Projeto que tem articulado novos espaços e possibilidades de empregabilidade.

Segundo a empresa de recrutamento Catho, “uma pessoa em busca de emprego na cidade de São Paulo gasta, no mínimo, R$ 350,00 por mês com deslocamentos pela cidade”. Este contexto é mais intenso para pessoas que moram em regiões periféricas e precisam se deslocar para centros urbanos para participar de processos seletivos. Em localidades nas quais a ausência do poder público é notável e a fragilidade de acesso a
direitos básicos como, por exemplo, um bom transporte público e segurança são parte do cotidiano as distâncias se tornam ainda maiores.

Além disso, ao chegar finalmente no diálogo com as áreas de Recursos Humanos, por vezes, essa parcela da população lida com os vieses inconscientes dos recrutadores. Neste sentido, é preciso uma atuação conjunta das áreas de Responsabilidade Social e Diversidade, mostrando que é fundamental que o bairro não seja um entrave na contratação, mas sim mais uma característica, por vezes almejada, para compor os
procedimentos de inclusão da empresa.

O potencial de compras do G10 Favelas, composto pelas 10 maiores favelas brasileiras, é de 7 bilhões de reais por ano. Que forma melhor de criar produtos, serviços, e conexão com essa parcela da população do que ter seus moradores dentro da empresa, ajudando a construir a estratégia, a cultura e a visão de futuro? Mais um caso clássico no qual fazer a coisa certa é também garantir a perenidade do seu negócio.

*Liliane Rocha é CEO e Fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade.

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