‘Precisamos fazer esse acerto, é referente ao Metrô’

Eduardo Maghidman, diretor da Camargo Corrêa

Luiz Vassallo

13 de agosto de 2018 | 12h00

“Acho que você está entregando isso para a pessoa errada”, teria dito o diretor da Camargo Corrêa, Eduardo Maghdman ao seu superior, Jorge Yazbek, quando recebeu dele, em 2011, um contrato frio de obras em Jundiaí e na Rodovia Raposo Tavares com o fim de desviar dinheiro da Linha 5 – Lilás, do Metrô de São Paulo. Ambos são delatores e seus depoimentos embasaram uma denúncia e uma ação civil pública contra o ex-diretor da Companhia, Sérgio Corrêa Brasil, por propinas de R$ 2,5 milhões.

Eduardo, que entrou na Camargo em 1992, como trainee, chegou ao cargo de diretor operacional, posto que ocupou quando foi chamado para ficar à frente de obras da construção da Lilás, em 2011. Ele diz que, quando chegou, seu superior lhe entregou um contrato. “Eu perguntei: do que se trata isso? é um acerto que precisa ser feito, não pergunta muito, precisamos fazer esse acerto”.

“Não fiquei confortável porque eu não sabia do que se tratava e, quando eu tomei conhecimento de que o escopo do contrato era algo que nada tinha a ver com o Metrô. Era um estudo de viabilidade para uma obra na raposo tavares e outro estudo de trevo de jundiaí, não tinha nada a ver com metrô”, narra.

Ele conta ter questionado. “Eu: o que é isso aí, não é nada de Metrô, isso aqui não é comigo, acho que você está entregando isso para a pessoa errada. Ele [Yazbek]: ‘Não pergunta muito’.. como ele era meu chefe há dois meses, eu não insisti muito porque eu percebi que ele estava ficando incomodado e irritado com meu questionamento”.

Maghdman afirmou ter ligado para a pessoa indicada para ‘trocar CNPJs’ e elaborar um contrato para a operacionalização dos pagamentos. “Eram dois contratos. Cada um no valor de R$ 1,25 milhão nos quais eu teria que pagar cada contrato cinco parcelas de R$ 250 mil. Quando terminasse de pagar o primeiro, começaria a pagar o segundo. A pessoa me confirmou que era dessa forma mesmo”.

Ao contrário de outras empreiteiras, como a OAS e a Odebrecht, que confessaram às autoridades ter um departamento para repasses de propina e caixa dois, os delatores da Camargo Corrêa dizem que pagamentos dessa ordem eram feitos somente por contratos ‘simulados’ com empresas que serviriam para gerar dinheiro.

“Conversei com ele [Sergio Brasil] sobre a forma de pagamento. Falei que a Camargo não conseguiria pagar em dinheiro e que precisaria de uma empresa, um fornecedor para que pudesse gerar…”, afirma Jorge Yazbek.

As declarações dos delatores embasaram uma denúncia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro oferecida em maio e uma ação de improbidade administrativa em agosto contra Sérgio Corrêa Brasil e contra o dono da empresa AVBS, Gilmar Alves Tavares.

A Linha 5 – Lilás, do Metrô, é pivô de outra ação de improbidade, que levou à condenação do ex-secretário de Transportes Metropolitanos, Sérgio Avelleda. Atualmente, ele é secretário municipal de Gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB). Solidariamente, ele foi sentenciado à perda de função pública e suspensão de direitos políticos pelo prazo de cinco anos por improbidade administrativa e ao pagamento de R$ 326,9 milhões de ressarcimento do suposto prejuízo aos cofres públicos.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DANIEL CASAGRANDE, QUE DEFENDE SÉRGIO CORREA BRASIL

Sérgio Correa Brasil colocou-se à disposição do Ministério Público para prestar todas as informações necessárias ao término do procedimento de investigação, oportunidade em que iria demonstrar a inocorrência de qualquer irregularidade, mas não foi intimado a tanto. Portanto, aguarda citação para apresentar defesa nos autos da ação de improbidade. Desde já assevera que nunca exigiu, solicitou ou recebeu qualquer vantagem indevida em razão de sua função, bem como consigna que os fatos narrados pelos sedizentes colaboradores não correspondem à verdade.

COM A PALAVRA, SÉRGIO AVELLEDA

O secretário Avelleda não é acusado de fraude, não participou da elaboração do edital, não realizou a licitação, e também não assinou qualquer contrato referente à concorrência da Linha 5 do Metrô. Não há nenhuma referência ao secretário em atos de corrupção.

A única acusação feita contra Avelleda é ele ter dado continuidade aos contratos de execução da Linha 5, enquanto presidente do Metrô. O próprio Tribunal de Justiça, por duas vezes, já havia confirmado a decisão de Avelleda de ter mantido os contratos da Linha 5, pois do contrário haveria enorme prejuízo à população de São Paulo.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) já arquivou essa investigação. Cabe ressaltar que a Linha 5 está pronta, com estações sendo entregues à população. Se tivesse anulado os contratos, as obras não teriam sido realizadas, causando grande impacto na mobilidade da cidade.

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