Precisamos falar sobre saúde mental no trabalho

Primo Paganini*

08 de setembro de 2019 | 11h00

Durante muito tempo o mundo corporativo orgulhou-se de dominar a emoção através da razão. Executivos são seres racionais que tomam decisões baseado apenas na evidência comprovável, sem espaço para reações emocionais.

As novas evidências das últimas décadas têm demonstrado o contrário: o mundo corporativo, ao ser composto por seres humanos, está longe de ser um ambiente racional. A emoção se disfarça muito bem de equilíbrio, preocupação, foco e racionalidade, porém nota-se cada vez mais que decisões são tomadas passando pelo filtro emocional. De onde vêm “antipatias gratuitas”? De onde vem a desconfiança em relação a entrega do trabalho do outro? De onde vem a auto sabotagem? Por que profissionais altamente qualificados lesam suas carreiras devido à dificuldade em controlar os impulsos? Por que há quem não conviva bem com a diversidade?

Precisamos falar sobre saúde mental no trabalho. E bem rápido, pois os dados que discutiremos aqui nesse texto são bastante alarmantes.

Alguns dados sobre doenças mentais são preocupantes, ainda mais quando falamos de Brasil: se pensarmos apenas no transtorno depressivo maior, que acomete cerca de 350 milhões de pessoas ao redor do mundo, apresentamos 10% de casos em nosso país, ou seja, estamos falando de até 35 milhões de pessoas. Os dados da OMS, Organização Mundial da Saúde, demonstram que 25% da população mundial apresentará, em algum momento da vida, alguma doença mental que demandará tratamento psicoterápico e farmacológico. Nós, brasileiros, temos chances de apresentar um episódio depressivo ao longo de nossas vidas que bate a marca dos 18%, o que fica ainda pior se pensarmos em ansiedade: 33%!

O Brasil está no topo da taxa de doenças mentais na comparação com países como Estados Unidos, Nova Zelândia, França, Holanda, Alemanha, Itália e Japão. De acordo com dados da OMS e IBGE, a doença mental já é a segunda causa de afastamento do trabalho e apresentou um aumento de 20 vezes, VINTE VEZES, nos índices de uso de auxílio-doença na última década, e 44% dos funcionários apresenta alguma doença mental.

Não podemos não olhar para isso, pois pode ser muito caro: os gastos com depressão e ansiedade chegam a um trilhão de dólares anualmente, considerando-se tanto custos diretos quanto indiretos. No Brasil, considerando-se apenas o transtorno afetivo bipolar, condição que acomete cerca de 4% da população, temos gastos da ordem de 358 milhões de dólares.

Como está o investimento em saúde mental? Não poderia estar mais doente: da verba direcionada a saúde em geral, apenas 1% é destinado para saúde mental (fora do Brasil não é diferente: 3%).

Depressão já é a principal causa de incapacitação para o trabalho ao longo da vida. Explico-me: pacientes portadores de doenças mentais faltam ao trabalho, apresentam queda de produtividade, podem estar presentes no ambiente de trabalho, porém apenas fisicamente, saem de licença médica e são mais demitidos do que pacientes portadores de doenças cardiovasculares e doenças respiratórias.

Mas quais são as doenças mentais mais comuns no mundo das empresas? Depressão (62%), ansiedade e dependência de álcool (50%), insônia (39%) e abuso de drogas ilícitas (29%).

Quando pensamos nas consequências das doenças mentais, nossa grande e única preocupação deveria ser com suicídio, correto? Errado! Temos que pensar nas doenças cardiovasculares que surgirão como consequência da doença mental! Mas como é que acontece essa “conexão cérebro-coração”? A doença mental traz uma alteração bastante prejudicial ao sistema cardiovascular: a doença mental inflama o organismo, o coração e os vasos sanguíneos, aumentando o risco de hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, aumento da gordura abdominal, trombose e mesmo arritmias cardíacas. A Associação Americana de Cardiologia considera a depressão fator de risco para desenvolvimento de doença cardiovascular, estando no mesmo nível do tabagismo, sedentarismo e obesidade!

O que a doença mental faz no cérebro? Vale considerarmos uma publicação de 2017 elaborada por dois psiquiatras da Harvard University, em um artigo que, traduzido, significaria “uma teoria unificada da depressão”. O trauma/estresse inflama o organismo, elevando um hormônio do estresse chamado cortisol. Haverá uma alteração no funcionamento do cérebro: as amígdalas (reação de medo e agressividade) funcionam em excesso e os hipocampos (memória e controle do estresse) funcionam inadequadamente. Isso reduz a quantidade das substâncias que comunicam as diferentes áreas cerebrais entre si, com queda de Serotonina (responsável pelo prazer e alegria), Noradrenalina (responsável por memória e níveis de energia) e Dopamina (responsável pela motivação e interesse). Como se não bastasse, há aquilo que, modernamente, é chamado de lesão epigenética – o trauma impede que nosso material genético proteja nosso cérebro. Essas alterações tornam o indivíduo menos adaptado e menos resiliente, mas isso não é o pior ainda, pois o trauma impede que as regiões cerebrais responsáveis pela RAZÃO tenham algum domínio sobre aquelas responsáveis pela EMOÇÃO. Já está bom por aqui? Não, pois o pior vem agora – o trauma MATA as células cerebrais!

Como reconhecer os sinais da doença mental? Preste atenção nas alterações de sono, na dificuldade para pensar e raciocinar, mudanças no apetite, desejo de isolamento e irritabilidade. 38% dos funcionários teme que sua doença mental possa interferir negativamente em suas carreiras. Há uma frase muito ilustrativa da Harvard Business Review: “doença mental é um desafio, porém jamais uma fraqueza”. Publicações têm mostrado que gestores que já tiveram depressão ou ansiedade são líderes mais humanos, acolhedores e preocupados com o bem-estar de sua equipe.

Para os líderes que possuam subordinados com depressão e ansiedade – aborde diretamente o assunto, seja empático, ouça sem preconceitos, crie condições para a melhora dos sintomas, estimule a realização de psicoterapia e uso de agentes psicotrópicos e deixe claro que, assim como hipertensão arterial ou diabetes, a condição mental não interferirá em carreira.

A Neurociência nos presenteou com uma evidência única – nosso cérebro é rico em células-tronco que migram até o hipocampo (lembram-se dele? A região da memória e do controle do estresse) e lá se transformam em neurônios e criam intensa e rica rede de comunicação com as células ao redor e mesmo à distância. Sabemos que a atividade física, a leitura e os agentes psicotrópicos geram esse processo de nascimento de novos neurônios, processo chamado de neurogênese.

Falar sobre saúde mental precisa deixar de ser tabu. Estamos falando de doenças físicas com repercussões psíquicas. Ao encararmos esse aspecto de nossa vida emocional, quem sabe um dia conseguiremos a almejada racionalidade em nosso ambiente de trabalho.

*Primo Paganini, graduado em medicina pela FM/USP, com residência em psiquiatria pela USP, e CMO da eCare

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