Precisamos eliminar a fumaça do debate

Precisamos eliminar a fumaça do debate

Dérica Serra*

05 de maio de 2022 | 06h00

Dérica Serra. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há uma névoa pairando sobre a discussão a respeito dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF) no Brasil. Na grande parte das vezes, a generalização, onde todos são colocados no mesmo balaio, tem sido uma estratégia para bloquear o avanço de um debate sério, que ocorre em todo o mundo e que pode beneficiar mais de um bilhão de pessoas que ainda estarão fumando em 2025, de acordo com os números da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com todo o conhecimento acumulado ao longo de décadas, sabemos que não fumar é sempre a melhor opção. Quem fuma e se preocupa com a saúde deve parar imediatamente. Contudo, só no Brasil, existem mais de 20 milhões de pessoas que, por algum motivo, continuam fumando. Essas pessoas têm o direito de ter acesso a informações corretas sobre alternativas que se mostram menos tóxicas do que o cigarro.

Não estamos falando de produtos isentos de risco. Isso não existe, pelo menos até o momento.   Além disso, ao contrário do que pode parecer, essas alternativas não são todas iguais. É fundamental estabelecer essa diferença.

Os cigarros eletrônicos, mais conhecidos e difundidos ilegalmente no mercado brasileiro, não utilizam tabaco em sua composição. Ao contrário, vaporizam um líquido que pode conter nicotina e essências. Muitos deles podem ser manipulados pelos usuários, pois não são blindados. Nesses casos, em que o cigarro eletrônico é um “sistema aberto”, portanto, pode haver um risco importante relacionado ao produto em si.

Já os dispositivos de tabaco aquecido utilizam pequenos bastões de tabaco – semelhantes ao cigarro que já é autorizado pelas autoridades – que são aquecidos (e não queimados) por um dispositivo que não pode ser manipulado, o que traz maior segurança para o usuário e maior controle para as autoridades. A ausência de combustão e fumaça no tabaco aquecido reduz significativamente a formação de compostos tóxicos.

Importante ressaltar que, em nenhum momento, estamos dizendo que a ausência da combustão elimina totalmente os compostos tóxicos em comparação ao cigarro. Ou seja, o tabaco aquecido não é livre de risco, mas é uma opção menos tóxica do que continuar fumando cigarros.

Estudos científicos e pesquisas avançadas – sejam elas independentes ou realizadas pela indústria – demonstram claramente resultados favoráveis do tabaco aquecido em relação ao cigarro.

Em 2020 a agência reguladora dos Estados Unidos – Food and Drug Administration (FDA) – autorizou a comercialização dos dispositivos de tabaco aquecido como produto de tabaco de risco modificado. O governo da Inglaterra, por sua vez, reconheceu o papel das inovações apoiadas pela ciência para a meta estabelecida pelo Departamento de Saúde, em 2017, de reduzir para 12% a taxa de tabagismo entre a população até 2022. Também será avaliado se os novos produtos de tabaco têm um papel a desempenhar na redução do risco de danos aos fumantes.

Além dos Estados Unidos e Inglaterra, o produto de tabaco aquecido já está disponível no México, Colômbia, Portugal e Japão, países que compõem uma lista de 71 mercados ao redor do mundo, onde o dispositivo é comercializado e já recebeu a adesão de 15,3 milhões de pessoas que decidiram abandonar o cigarro.

Outro ponto crítico nesse debate é a preocupação legítima e válida de autoridades e especialistas sobre a iniciação ao tabagismo que poderia ser provocada pelos dispositivos eletrônicos para fumar. Pesquisas independentes, no entanto, apontam que esse risco é muito pequeno no caso do produto de tabaco aquecido.

Um estudo publicado no jornal da Academia Americana de Pediatria, em 2021, com 150 mil alunos na Califórnia (EUA), mostrou que apenas 0,67% dos adolescentes já haviam experimentado tabaco aquecido, sendo que somente 0,20% continuou com essa utilização. Entre aqueles que nunca haviam fumado cigarros tradicionais nem utilizado cigarros eletrônicos, os resultados apontaram que somente 0,01% havia usado produto de tabaco aquecido nos 30 dias anteriores à pesquisa. Ou seja, a atratividade desse dispositivo é muito baixa entre a população que nunca consumiu tabaco.

Mas o que vemos é uma confusão que passa a falsa impressão de que todos os tipos de dispositivo representam uma fonte de atratividade para os jovens, que todo aparelho explode ou oferece um risco equivalente ou pior do que o cigarro, e que “cigarro eletrônico” engloba tudo

Enquanto isso, o mercado é invadido justamente pelos aparelhos sem registro, contrabandeados, sem controle algum sobre sua fabricação ou composição, manuseio e consumo. Representam uma ameaça sanitária preocupante, que ocorre sob um cenário falso de proteção e controle. Ao mesmo tempo, impedem que as autoridades possam olhar com mais cuidado para itens desenvolvidos por empresas tradicionais e realmente comprometidas com a ciência.

Precisamos evitar a confusão e eliminar a fumaça desse debate.

*Dérica Serra é médica oftalmologista com especialidade em Neuroftalmologia, pós-graduada em Medicina Farmacêutica pela Universidade Federal de São Paulo, tem MBA em Gestão de Negócios pela IBMEC Business School, e formação em Princípios da Economia da Saúde e Aplicação na Tomada de Decisão pelo IECS Instituto de Efectividad Clinica y Sanitária, na Argentina. Atua como Head de Assuntos Médicos da Philip Morris no Brasil

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