Precisamos de um olhar diferente na luta pela igualdade social

Precisamos de um olhar diferente na luta pela igualdade social

A verdadeira revolução do século XXI não se fará com ideologias do século XVIII, mas com mais oportunidades e menos muros

Malu Molina*

11 de outubro de 2020 | 07h00

Malu Molina. FOTO: DIVULGAÇÃO

O desenvolvimento humano é o processo de ampliação das liberdades das pessoas. Liberdade de desenvolver suas capacidades a partir das oportunidades a seu dispor. Assim, a livre escolha se dá a partir das possibilidades apresentadas para cada indivíduo, e em uma sociedade livre, mas desigual, crescem as injustiças, a violência e a pobreza. Igualdade sem liberdade torna o indivíduo limitado de suas potencialidades, mas liberdade sem igualdade social pode se tornar mais uma coerção, e precisamos falar sobre isso.

A Constituição Federal de 1988 construiu um grande legado de liberdades individuais e coletivas, mas está longe de conquistar e promover a igualdade que é tão importante em uma democracia. Essa igualdade não tem apenas a ver com o valor igualitário do voto, mas também do acesso à uma vida longa e confortável, à educação e informação, e o acesso a uma renda que permita a construção de uma vida digna. Não existe desenvolvimento humano apenas com direitos iguais, se não houver igualdade de oportunidades. Sem igualdade, a liberdade é um privilégio.

A verdadeira revolução do século XXI não se fará com ideologias do século XVIII, mas com mais oportunidades e menos muros. Não superaremos a crise das desigualdades com extremismos. Nem socialismo, nem ultraliberalismo, nem populismo ou utopias. Nem mais, nem menos Estado. E sim um Estado capaz de promover o bem-estar social de maneira eficiente, com uma democracia mais participativa, e uma política mais representativa.

Precisamos de um olhar diferente para a luta pela igualdade social no século XXI. A extrema polarização política com gritarias vazias e cortinas de fumaça, nos distanciam de discutir e agir pelo que realmente importa. Não é normal que os bilionários do mundo tenham mais riqueza do que 60% da população mundial. Não pode ser normal que apenas 22 homens tenham mais riqueza do que todas as mulheres que vivem na África. Não podemos aceitar viver em um país com a  2ª maior concentração de renda do mundo, e esperar que fique tudo bem.

Não podemos voltar ao normal, o normal está errado. A sociedade está em um ponto de exaustão e nós somos obrigados a nos repensar. Esses níveis extremos de desigualdades são incompatíveis com a democracia, porque quanto mais desigualdades, menos democracia. Se não unirmos forças para radicalizar, fortalecer e otimizar a democracia, o coronavírus será a primeira de muitas outras grandes crises: ambientais, climáticas, econômicas e humanitárias.

A democracia precisa decidir melhor e mais rápido, deixar de ser analógica para ser 5G, na velocidade dos nossos problemas. A democracia está excessivamente branca e masculina. Para que as decisões sejam melhores é preciso olhar para todos, e por isso toda nossa diversidade deve estar representada na política. Fazer política é ter o direito de sonhar e construir um mundo melhor. Que tipo de mundo estamos construindo quando esse direito é negado para a grande maioria da população?

Direitos negados pelas desigualdades. Porque “quem quer consegue” apenas se tiver oportunidades para se desenvolver. Estamos trancados em casa – isso para quem tem casa para se trancar. Estamos trancados em um sistema que precisa ser reinventado, ou estará datado. Ou acabamos com ele, ou ele acaba com a gente primeiro. E é por isso que a luta pela igualdade social tem que ser de todos nós.

A devastação causada pela Peste Negra, que atingiu a Europa entre 1348 e 1350, resultou em uma mudança na visão de mundo que levou ao Renascimento. Precisamos romper com o atual modelo tóxico de sociedade, e construir um novo modelo que de fato promova e proteja a vida. Precisamos de um olhar diferente para a luta pela igualdade social através de uma ideologia do século XXI, que construa mais pontes, mais consensos entre os divergentes, e na velocidade 5G.

Só assim, conseguiremos construir coletivamente saídas para essa crise, e uma agenda de políticas públicas de curto, médio e longo prazo que enfrente efetivamente nossas desigualdades. Uma agenda de Estado, não de governo. Uma agenda que olhe para essa e para as futuras gerações, não para as próximas eleições. E é nas próximas eleições, que podemos acelerar essa mudança por um mundo mais justo, livre e igualitário.

*Malu Molina é cientista política e ativista pela redução das desigualdades sociais

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