Precisamos de milícias ecológicas

Precisamos de milícias ecológicas

José Renato Nalini*

26 de setembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Meu primeiro contato com o verbete “milícias” foi na Escola Paroquial, mantida pelas Irmãs Vicentinas. Era comum a referência às “milícias celestes”, formadas pelos anjos. Eles se dividiam em inúmeras categorias: arcanjos, coros, potestades, querubins, estes os anjos das primeiras hierarquias, entre os serafins e os tronos.

Já adulto e estudante de Ciências Jurídicas e Sociais – assim se chamava o bacharelado em Direito – milícia, substantivo feminino cuja origem foi a arte e a prática da guerra, passou a designar o conjunto das tropas cuja missão é a defesa da Pátria.

Não havia a conotação pejorativa que hoje contaminou a expressão. O uso corriqueiro na mídia espontânea e nas redes sociais leva a uma ideia de atividade paramilitar, mas bastante próxima à ilicitude e à prática delitiva.

É a viagem que as palavras fazem no decorrer do tempo, com a sua malversação proveniente de um uso em desvio do real sentido. Talvez hoje, nem os chamados “milicianos” gostariam de se identificar com o sentido que “milícia” adquiriu.

Nada impede que se propugne a criação das milícias das quais este sofrido Brasil se ressente. Milícias ecológicas, pois a ecologia não é mais preocupação de ambientalistas ou de fundamentalistas radicais. A tragédia que se abateu sobre todos os biomas brasileiros, a começar do mais expressivo, comoveu o planeta. Não há um órgão sequer da mídia, vilarejo qualquer do mais recôndito confim do mundo, que não lamente a carnificina da flora, fauna e biodiversidade desta Nação. Aquela que foi pioneira na tutela ambiental, anfitriã da Eco-92, quatro anos depois de fazer inserir no seu pacto fundante a mais bela norma constitucional produzida no século 20: o artigo 225 da Carta Cidadã.

Pois bem. Se o Estado brasileiro transmite ao mundo o sintoma gravíssimo de que o ambiente não só é negligenciado, mas alvo de premeditada destruição, cumpre invocar o lema veiculado nos primórdios do movimento ecológico: “pensar globalmente; agir localmente”.

São Paulo continua a propagar uma política ecológica responsável e consequente com os nítidos sinais de exaustão da Terra. A promessa de recuperação do Pinheiros parece caminhar rumo à concretização. Instituições como a FIESP-CIESP, o sistema S – SESI e SENAI, principalmente e o Instituto Roberto Simonsen promovem ações no sentido de se investir na economia circular. Pragmatismo no surrado conceito de desenvolvimento sustentável.

Por que não ampliar essa cruzada salvífica e mostrar que os paulistas não concordam com a destruição orquestrada e condenada por todas as pessoas lúcidas?

A pandemia escancarou a miséria subjacente à realidade do Estado mais desenvolvido da Federação. Milhões de invisíveis mostraram sua cara triste. Os informais foram penalizados. Os pobres se transformaram em paupérrimos. É urgente uma resposta para recuperação da autoestima.

Ela pode residir na formação de milícias ecológicas encarregadas de suprir a deficiência da coleta seletiva, encarregando-se de liberar as margens dos rios, principalmente o Tietê, e depois todos os logradouros públicos, dos resíduos produzidos por um consumo irresponsável.

Aquilo que São Paulo produz de dejetos acentua a falta de uma educação de qualidade. Povos civilizados não descartam com a insensatez com que jogamos em qualquer espaço as sobras da nossa ignorância. Nosso “lixo” tem valor. Pode se transformar em mercadoria. Tudo é passível de aproveitamento.

A formação dessas “milícias ecológicas” auxiliaria a propagação de uma nova mentalidade. Todos os seus integrantes e cada um deles seria um agente eficaz de conscientização daquele que ainda lança plástico, móveis, geladeiras, carcaças de veículo e tudo o mais no leito daquele que foi um curso d’água límpido e piscoso. Dele fizemos condutor de substâncias químicas tóxicas e do esgotamento doméstico.

No momento em que a missão viesse a surtir efeito, com significativa redução do imenso volume de material aproveitável, haveria espaço para a formação de viveiros, para o preparo de mudas, para a coleta de sementes que as árvores oferecem gratuitamente e que se perdem porque não recolhidas.

Os recrutados fariam jus à remuneração de um trabalho digno e patriótico. Não precisariam permanecer à mercê de auxílios emergenciais de curta duração e nutridos por objetivos que podem ser questionados, já que a preocupação com a solidariedade, com a fraternidade e com o respeito à dignidade humana parece não ter sido tão enfatizada na história da República.

São Paulo tem condições de dar esse exemplo. Mais importante ainda, mostrar ao mundo que nem todo o Brasil é o território devastado e oferecido à grilagem, ao garimpo, ao invasor de terras públicas e indígenas e ao exterminador do futuro.

Basta vontade política e um pouco de sensibilidade. O mais, é perfeitamente factível.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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