Precisamos de embaixador da China no Brasil

Precisamos de embaixador da China no Brasil

Marcelo Knopfelmacher*

12 de junho de 2022 | 05h30

Marcelo Knopfelmacher. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em Ofício encaminhado ao Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, o Deputado Federal brasileiro Fausto Pinato, Presidente da Frente Parlamentar Brasil-China e Presidente da Frente Parlamentar dos BRICS, solicitou a indicação, por parte do governo chinês, de Embaixador da China no Brasil.

Muito embora esse Ofício seja do dia 26 de abril de 2022, a situação permanece inalterada:  continuamos sem Embaixador da China no Brasil desde o dia 5 de março de 2022.

Essa situação é extremamente séria e compromete a bilateralidade que deve pautar a relação internacional entre dois países, especialmente em se tratando de um parceiro tão importante para o Brasil.

Dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA em conjunto com levantamento da Academy of International Trade and Economic Cooperation chinesa apontam que o volume de comércio e mercadorias entre Brasil e China atingiu US$ 125 bilhões nos três primeiros trimestres de 2021, com crescimento de 44% em relação ao mesmo período no ano anterior (pesquisa disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=38718&catid=4&Itemid=2)

Ainda de acordo com o mesmo levantamento, a China importou US$ 87,3 bilhões em bens e serviços brasileiros em 2021, o que impulsionou o setor produtivo agrícola brasileiro e gerou crescimento de 36,7% no fluxo de importações.

O estudo também mostra que os acordos de cooperação comercial entre Brasil e China foram intensificados a partir de 2007.  Pelo diagnóstico, no período entre 2007 e 2020, as empresas chinesas investiram US$ 66 bilhões na América Latina.  O Brasil foi o destino de 47% dos investimentos chineses, sendo que os principais setores que movimentaram os fluxos de capitais foram em energia elétrica (48%), extração de petróleo e gás (28%), extração de minerais metálicos (7%), setor manufatureiro (6%), infraestrutura (5%), agricultura e serviços relacionados (3%) e serviços financeiros (2%).

Na visita do Presidente Xi Jinping ao Brasil, em 2014, por ocasião da celebração dos 40 anos de relações diplomáticas sino-brasileiras, foram celebrados 56 atos de cooperação internacional, dentre os quais destacam-se os seguintes:  protocolo complementar ao acordo sobre defesa, que prevê ações nos campos da tecnologia da informação, telecomunicações e sensoriamento remoto; memorandos de entendimento sobre cooperação ferroviária, infraestrutura e cooperação industrial; acordo para o estabelecimento de relação de porto-irmão verde, entre os portos de Tubarão e Lianyungang; acordo de cooperação estratégica entre a Eletrobrás e instituições chinesas sobre transmissão de energia elétrica; acordos entre a Embraer e empresas chinesas referentes à venda de 60 aeronaves comerciais; acordo entre a Empresa de Correios e Telégrafos e a Alibaba para a utilização de estruturas logísticas em apoio a exportações, de lado a lado; linhas de crédito em apoio ao comércio bilateral e financiamento a empresas brasileiras; memorandos alusivos à instalação de indústrias chinesas para produção no Brasil de baterias elétricas recarregáveis e equipamentos para a construção civil; instrumentos sobre ciência e tecnologia, em segmentos como computação em nuvens e dados de observação da Terra; acordos para a instalação de Institutos Confúcio na Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal do Pará e na Universidade Estadual de Campinas, dentre outros.

Diante desse quadro de relações bilaterais e prestes a completarmos, em 2024, o cinquentenário de relações diplomáticas com a China, a não indicação de Embaixador da China no Brasil vai na contramão do que representa a intensa cooperação de comércio, de investimentos, de tecnologia, de costumes e de confiança entre esses dois grandes países de dimensões continentais.

Por tais razões é que fazemos votos, em corroboração ao Ofício enviado pelo Representante do Parlamento brasileiro ao Governo Chinês, no sentido de que haja a indicação do Embaixador da China no Brasil, em substituição ao nome de Yang Wanming e sua extraordinária equipe.

Aliás, como bem ressaltado no aludido Ofício, o novo Chanceler brasileiro, Ministro Carlos Alberto Franco França, promoveu uma expressiva mudança no tom da política externa brasileira, com vistas a prestigiar o pragmatismo, a confiança e o respeito, sendo certo, outrossim, que ao povo brasileiro não interessa um distanciamento do povo chinês em hipótese nenhuma.

*Marcelo Knopfelmacher é advogado criminalista e diretor da BRICS Strategic Solutions em Londres, Reino Unido

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