Precisamos de diversidade de verdade!

Precisamos de diversidade de verdade!

Diversificar não é lançar uma campanha interna, uma palestra ou um cartaz com pessoas diversas, ainda que seja isso um começo, mas ações afirmativas reais e perenes que propiciem uma verdadeira mudança de cultura

Edgard Carvalho*

18 de maio de 2019 | 12h00

Edgard Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não adianta dizer que as diferenças não existem e que todos temos a chance de começar a corrida de oportunidades do mesmo ponto de partida. Só quem sente o peso da indiferença ao diferente sabe que não é bem assim.

A depender de como o mundo te vê, os cem metros rasos passam a ser uma corrida com obstáculo, exclusivamente na sua faixa, e é duro ter que continuar correndo em condições tão desiguais.

Entretanto, na maioria das vezes, quem já se sentiu discriminado, sabe que desistir não é uma alternativa, pelo contrário, é motivação pessoal para se doar ainda mais e provar que pode chegar. Só que não é justo. Nunca foi.

Claro que evoluímos, não estamos estáticos nos preconceitos paralisantes que nos impediam até há pouco tempo de furar nossas bolhas e enxergar o que tem além dos nossos próprios feudos.

No mercado de trabalho, a diversidade é quase tão “disruptiva” quanto a tecnologia. Todo mundo fala, mas poucos refletiram se o motivo principal não é só porque o preconceito está fora de moda e a onda do politicamente correto tomou conta das redes sociais.

A verdade é que existem organizações discutindo sobre diversidade como uma forma de bancar a ideia de responsabilidade social, cumprindo os “nobres” papeis de receberem as minorias – que, em muitos casos, são maioria – em suas estruturas que não foram pensadas para elas.

É claro que é um passo, antes isso que perpetuar a negação da existência de diferenças numa sociedade cada vez mais plural.

Acontece que para fazer sentido e para que se possa efetivamente ver na prática os resultados de se promover a inclusão, é preciso enxergar além da ótica da vitimização e da utilização disso como uma fórmula revolucionária de marketing.

Segundo o psicólogo americano Joy Paul Guilford, o processo criativo é formado por dois tipos de pensamentos complementares, o convergente e o divergente. Enquanto aquele privilegia a descoberta de uma única saída para um problema, tendo por base o convencional, o pensamento divergente privilegia a multiplicidade de alternativas com soluções mais fluentes e livres.

A diversidade, então, por propiciar uma universalidade de possibilidades de pontos de vista, passa a se comprovar não porque se faz necessário realinhar os pontos de partida, isso é utópico, mas porque, comprovadamente, gera resultados inimagináveis quando comparado a um grupo homogêneo.

Cada vez mais temos exemplos transformadores de pessoas e empresas que provam o quanto a diversidade pode trazer inovação na forma de resolver problemas. E inovar não está necessariamente ligado à tecnologia, por mais que essas palavras têm andado juntas como irmãs siamesas nos últimos tempos. Inovar é verbo transitivo que significa realizar qualquer coisa que nunca havia sido feita antes.

Em épocas de empresas exponenciais, se diferenciar num mercado cada vez mais competitivo e de consumidores que buscam muito mais experiências do que simplesmente produtos, pensar sempre igual pode ser fatal.

Ao se falar na criatividade como uma das características mais eficazes para lidar com as adversidades, aí sim podemos começar a pensar verdadeiramente em diversidade.

Diversificar não é lançar uma campanha interna, uma palestra ou um cartaz com pessoas diversas, ainda que seja isso um começo, mas ações afirmativas reais e perenes que propiciem uma verdadeira mudança de cultura.

É preciso deixar a hipocrisia de lado e trabalhar os espaços físicos e sociais, a mentalidade das pessoas em todas as esferas da organização, para que se crie, realmente, um ambiente organicamente inclusivo.

Para que pensamentos divergentes de pessoas diferentes possam, de forma criativa, transformar uma organização, é preciso ter pertencimento. Quando nos sentimos pertencentes a um lugar e ao mesmo tempo sentimos que esse lugar nos pertence, surge a vontade e o interesse de interferir na rotina e nos rumos dele. Aí acontece a transformação!

Comecemos a trabalhar de dentro para fora e estaremos mais preparados a entender que promover a diversidade não é um ato assistencial, mas um reconhecimento de potencialidades inexploradas!

*Edgard Carvalho, vice-presidente do escritório Nelson Wilians & Advogados Associados; especialista em Direito Processual e em Gestão Empresarial

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