Pós-verdade e liberdade: o perigo da politização do comércio com a China

Pós-verdade e liberdade: o perigo da politização do comércio com a China

Heni Ozi Cukier*

03 de julho de 2020 | 08h30

Heni Ozi Cukier. FOTO: DIVULGAÇÃO

No mundo pós-verdade, tudo foi tão relativizado que não apenas os fatos que perderam a validade. A politização da realidade dificulta distinguir as motivações políticas das não-políticas e, com isso, a capacidade de separar consequências causadas pelo imponderável de intenções premeditadas.

Se hoje tudo é politizável, não existe nada fora da política e todos os projetos políticos são trivializados ou imperceptíveis – principalmente aqueles perigosos. Enquanto a relativização dos fatos destrói a realidade e o conhecimento, a incapacidade de identificar motivações políticas elimina responsabilizações e confere poder para aqueles que usam a cortina de fumaça para mascarar seus avanços políticos.

Em uma pandemia, por exemplo, existe uma diferença clara entre errar ou desconhecer a realidade na hora de transmitir informações de utilidade pública e controlar ou enganar intencionalmente alertas para servir outros interesses que não os de saúde. Li Wenliang foi uma das oito pessoas presas pela polícia na China por “espalhar rumores” sobre a Covid-19, quando alertou outros médicos sobre um possível surto, ainda em dezembro de 2019, antes do reconhecimento oficial da epidemia.

Li foi obrigado a escrever uma carta criticando sua própria atitude. No texto, teve que prometer “manter a linha de pensamento e ação com o Comitê Central do partido”. Algumas semanas depois, o médico de 34 anos foi internado com Covid-19 e faleceu, deixando uma filha de 5 anos e uma esposa grávida.

Segundo uma investigação da agência Associated Press, durante os dias 14 e 20 de janeiro, o Partido Comunista (PC) não alertou sua população sobre os riscos da doença, apesar de saber da seriedade do problema. O presidente Xi Jinping só alertou ao público no dia 20, quando mais de 3.000 pessoas já estavam infectadas.

Um estudo britânico da Universidade de Southampton descobriu que, se a população fosse avisada com uma semana de antecedência para manter o distanciamento social, usar máscaras e fossem impostas restrições de viagem, seria possível reduzir em dois terços o número de contágios na China. Ou seja, a priorização dos objetivos políticos do PC de preservar sua imagem atrasou o combate à pandemia, contribuindo para a propagação de um vírus que matou milhares de pessoas em todo o mundo.

A politização da era pós-verdade também pode destruir o desenvolvimento e as relações econômicas. Nos anos 1960, o ganhador do prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman, observou a relação entre liberdade econômica e liberdade política. “Não conheço um exemplo sequer de sociedade, seja no tempo, seja em algum lugar, que tenha sido marcada por grande dose de liberdade política sem ter exercido dose comparável de liberdade de mercado para organizar o conjunto de suas atividades econômicas.”

Isso talvez explique o fato de que uma pequena ilha se ergueu para se tornar uma grande cidade e uma potência comercial do leste da Ásia. Com liberdade política, Hong Kong prosperou economicamente e hoje possui um dos maiores PIB per capita do mundo. Ao contrário da China, em Hong Kong existe liberdade, as pessoas vivem sob um estado de direito e são julgadas por tribunais independentes. Ou melhor, era assim.

O governo chinês aprovou uma lei de segurança nacional para Hong Kong que prevê punição às atividades separatistas, terroristas, subversivas e à interferência estrangeira na ilha. Apesar do embaixador da China no Brasil dizer que a iniciativa é urgente para aperfeiçoar o sistema jurídico de Hong Kong, na prática, o Ministério da Segurança Chinês poderá reprimir todas as liberdades, como fazem no continente. Mais uma vez, os objetivos políticos hegemônicos do PC vão acabar, não apenas com a liberdade política na ilha, mas com a economia de livre mercado e a autonomia limitada de Hong Kong sob a política “um país, dois sistemas”.

Outro efeito da politização do mundo pós-verdade é a facilidade com que interferências políticas passam desapercebidas nas esferas econômicas. O próprio argumento de que seria imprudente criticar o seu maior parceiro comercial revela um desconhecimento sobre a natureza das relações econômicas ou uma total complacência com os objetivos políticos do parceiro.

Uma relação comercial é, em primeiro e último lugar, ditada por ganhos e perdas, e a lógica econômica considera somente os riscos e benefícios econômicos da relação de troca. Mas quando a atividade econômica é regida por interesses puramente políticos, as relações comerciais se tornam instrumentos para garantir apoio, legitimidade e manutenção de um projeto de poder. O capitalismo de estado chinês é um exemplo de uso da atividade econômica para sustentar um pequeno grupo no poder e expandir sua influência doméstica e internacional.

Cada dia mais, o PC parece dividir o mundo entre países que apoiam incondicionalmente seu projeto político e, portanto, merecem receber investimentos, e países que criticam a ditadura e devem ser retaliados. Os esforços agora se concentram em intimidar e silenciar, inclusive, parceiros comerciais. A China ameaçou cortar exportações da Austrália, após o governo ter pedido à OMS uma investigação do surgimento da Covid-19.

Se não temos como extinguir os aspectos políticos intrínsecos da relação comercial com um país governado por um único partido, a pergunta urgente é: até que ponto podemos confiar que essa relação seja conduzida predominantemente pelo viés econômico ao invés do político?

Não permitir que os abusos e objetivos políticos do PC contaminem nossa relação comercial também depende da maneira como o Brasil se posiciona politicamente. Se o Brasil não estiver disposto a demonstrar independência e colocar freios nos fins políticos chineses, corremos o risco de, quando menos esperarmos, perdermos todos os nossos tão exaltados ganhos econômicos provenientes desta parceria. Se silenciamos diante de ataques tão ousados às liberdades vindas de nossos parceiros comerciais, não poderemos reclamar quando sanções ou represálias econômicas forem impostas a nós por não obedecermos às demandas políticas do PC.

Portanto, criticar a falta de liberdade e transparência na China não deveria afetar nossa relação comercial. Mas se isso acontecer, é sinal de que, mais do que nunca, devemos demarcar os limites entre a política e a economia nessa parceria. O momento exige que o Brasil reforce sua posição de apoio incondicional aos princípios democráticos. Afinal, quando já não temos mais liberdade para discordância, é porque já perdemos como democracia, e, em breve, estaremos perdendo também economicamente.

*Heni Ozi Cukier é cientista político, professor e deputado estadual de SP pelo Novo

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