Pós-pandemia: os desafios para os diretores jurídicos da América Latina

Ted Rhodes*

23 de novembro de 2020 | 04h30

É normal com a aproximação do fim de ano que as pessoas comecem fazer um balanço dos acontecimentos e projetem o futuro próximo. Em 2020 isso não é diferente. O novo, agora, é como enfrentar em 2021 as mudanças definitivas, tanto estruturais como sociais, que a pandemia trouxe.

Nas corporações, talvez a transformação mais significativa é o home office. Após o vírus, será preciso definir regras e condutas claras para garantir condições técnicas e igualdade de gênero, assegurando a todos os empregados as mesmas oportunidades. Também será necessário zelar pelo bem-estar dos trabalhadores porque não há mais a divisão entre escritório e casa. Empresas que priorizam os lucros em vez dos funcionários ou que não apoiam financeiramente o auto-isolamento do seu pessoal, provavelmente serão os primeiros alvos de escrutínio público.

Mas este será apenas um, dos muitos desafios que os advogados das companhias têm pela frente. No relatório inédito realizado pelo CMS, Diretores Jurídicos da América Latina, enfrentando o desafio, já há a sinalização de que os grandes grupos da região estão cada vez mais conscientes de que devem mudar suas práticas de trabalho, em resposta às preocupações da sociedade com impacto ambiental, diversidade e governança. Na era digital, a avaliação do comportamento corporativo acontece muito rápido e vem com força. Em alguns casos, pode ser determinante para o futuro da organização e dos indivíduos que a lideram.

Nunca se deu tanto importância à imagem pública de uma empresa como atualmente. O avanço tecnológico tem um peso importante, já que em questões de horas uma crise pode formar-se nas redes sociais. Mas muito além disso, um fator determinante, e que a pesquisa do CMS comprova, foi o surgimento nos últimos anos de novas áreas como ética e compliance.

Padrões internacionais de conduta e novas leis surgiram. A crise econômica mundial de 2008 mostrou para o mundo a importância da regulação. Começou pelo setor financeiro até chegar em todos os setores. A implementação da Lei Geral de Proteção de Dados, que no Brasil entrou em vigor este ano, é um bom exemplo do esforço governamental em restringir o poder dos grandes grupos corporativos de tecnologia.

Nos dias atuais, o mundo se volta para as questões ambientais, sociais e de governança, em inglês conhecida como ESG, que tomarão cada vez mais espaço na agenda global. Segundo um estudo da consultoria PWC, até 2025, quase 60% dos ativos dos fundos mútuos da Europa serão de empresas “sustentáveis”. A era de energias renováveis já começou e o Brasil é um ator de destaque. Muitos fundos mútuos estrangeiros estão investindo em setores como eólicas, solar, biocombustível e biomassa por aqui. A melhora da tecnologia e o aumento de escala provocaram uma diminuição de custos, e com o movimento de preservação ambiental inserido na agenda global, temos uma combinação de fatores perfeita. Há também a expectativa de que as organizações e os seus líderes usem o seu poder e influência para um bem  maior, uma forma de retribuição à sociedade, num conceito mais amplo de valor social e propósito.

Diante dos cenários apresentados, o trabalho do diretor jurídico pós pandemia impõe, antes de tudo, agilidade. Além de acompanhar, leis, normas, condutas, mais do que nunca é preciso estar atento a todas as tendências. A grande mudança nos últimos anos é justamente o ritmo com que as coisas se transformaram. Tudo pode mudar muito rápido. A própria pandemia é uma prova disso. Num momento assim, ser ágil na capacidade de adaptação é determinante para o bom desempenho de uma empresa.

Nas conversas com os diretores jurídicos da América Latina, fica claro que o advogado do futuro tem que saber responder no ritmo do negócio. Para uma companhia, o melhor é estar à frente do seu tempo, da regulação de seu país, entender as vantagens de agir primeiro. Mas ficar sempre com um olho no horizonte, avaliando os riscos que podem surgir junto com a próxima oportunidade.

*Ted Rhodes, advogado especialista em compliance e responsável pelo CMS no Brasil

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