Pós-pandemia: é hora de começar a planejar a nova fase do comércio e da economia, com a população vacinada em massa nos próximos meses

Pós-pandemia: é hora de começar a planejar a nova fase do comércio e da economia, com a população vacinada em massa nos próximos meses

Antonio Florencio de Queiroz Junior*

25 de julho de 2021 | 05h30

Antonio Florencio de Queiroz Junior. FOTO: DIVULGAÇÃO

Pela primeira vez desde que a pandemia começou, com quase metade da população já vacinada ao menos com a primeira dose, temos enfim um cenário confiável de uma data para o tão sonhado controle mínimo da pandemia: outubro deste ano, conforme declarou recentemente o ministro Paulo Guedes ao anunciar a prorrogação do auxílio emergencial até aquele mês.

A previsão do ministro vai na mesma linha do que sugerimos desde o início do ano, quando a Fecomércio do Rio sugeriu a prorrogação do auxílio emergencial e de outras medidas de socorro às empresas até que tivéssemos a população vacinada em massa, na casa dos 80%.  Disse o ministro no início de julho ao projetar o fim do auxílio em outubro.

“A economia está voltando, o retorno seguro ao trabalho e esses 3 meses adicionais agora, então vão ser aí 7 meses de proteção aos mais vulneráveis brasileiros. Isso aí na verdade é para dar essa proteção enquanto atingimos a vacinação em massa da população brasileira. Então, o ministro Queiroga prevê que em mais 3 meses vem o controle epidemiológico, o auxílio emergencial vai até lá e aí aterrissamos no Bolsa Família [ …]”, disse o ministro.

Independentemente de eventuais flutuações nessa data, é fato que a vacinação está avançando no Brasil após preocupantes engasgos. Os jornais agora têm sido fonte de boas notícias, com dados diários mostrando que casos de infectados e mortes estão recuando a níveis que nos deixam mais confiantes de que, caso sigamos com responsabilidade e confiança na ciência, esse pesadelo irá muito em breve acabar – ou pelo menos arrefecer para padrões mais previsíveis.

Alcançar esse ponto de controle epidemiológico, aguardado para daqui a três meses, será a senha para a retomada plena dos serviços que, ainda hoje, operam de forma ainda abaixo de sua capacidade. Mais do que isso: ainda operam com certa insegurança, sem poder planejar as próximas semanas ou meses – daí a importância da vacinação em massa e o horizonte de sabermos que em outubro temos enfim um cenário mais claro.

O comércio é representante central desse grupo ainda bastante impactado com a necessidade de restrições. É fato: não há retomada da economia sem crescimento no comércio. Temos três meses para começar a discutir, da mesma forma responsável que nos comportamos até aqui, como será esse mundo que nos espera, aqui no Brasil, no “pós-pandemia”.

O Rio de Janeiro, por exemplo, como a maior referência do país no turismo, será um grande espelho em relação ao que se fazer no restante do Brasil. O cronograma de normalização coincide com dois grandes momentos para essa tomada de temperatura na cidade: o Réveillon e o Carnaval.

A considerar as informações que chegam a cada semana, a perspectiva para o cenário de médio prazo é inegavelmente animadora, mas os passos têm de ser guiados por uma cautela talvez alguns decibéis abaixo do tom de empolgação que naturalmente acompanha a perspectiva de que um dos períodos de mais sacrifícios que já experimentamos chegue ao fim.

Esse planejamento tem que ser paralelo às discussões científicas. Nós, do comércio, temos que colocar na mesa aquilo que sabemos fazer de melhor: oferecer as melhores condições para os clientes e gerar emprego – que, diga-se, é o melhor programa social que existe.

Esses passos envolvem, primordialmente, a segurança para o cliente, para o trabalhador e para o empresário – que irá gerar, por consequência, a confiança de todos. Esse passo essencial, de retomada segura das atividades comerciais em geral, deve ter como norte a garantia de que o convívio nas ruas e em shoppings, por exemplo, seja feito de forma segura, para que novas variantes do vírus não tenham a oportunidade de se disseminarem.

Nosso objetivo é muito simples: aproveitar, com segurança, toda a demanda reprimida, sem deixar de zelar por protocolos que garantam um comércio seguro e evite uma nova onda. Não podemos correr o risco de uma nova onda e ter o comércio fechado.

Com a vacina avançando, no entanto, é natural permitir que as ruas voltem a ser ocupadas de maneira plena. Isso não significa, por outro lado, que adaptações sejam descartadas. Como podemos adaptar nossos espaços e nossos procedimentos para que bons hábitos de higiene, por exemplo, sigam presentes de forma permanente sem que o comércio pareça algo que impeça a tão importante espontaneidade da clientela e do contato direto entre vendedor e consumidor? Podemos, também, manter regras de distanciamento ou lotação para um comércio seguro – e sempre de portas abertas.

Esse é só um aspecto. No campo mais tecnológico, por exemplo, o delivery foi algo que se consolidou durante a pandemia. Não faz sentido acreditar que isso irá retroceder. É algo que veio para ficar. Como o comércio pode se adaptar a isso? Em que nível isso impactará a mão de obra empregada, as relações de trabalho, a forma de comunicação com o público?

Ainda no campo da tecnologia, há outras funcionalidades que surgem a todo momento e que podem ser incorporadas pelos comerciantes para que seus clientes tenham a melhor experiência possível – desde o pagamento via Pix e o prosseguimento de uso de máscaras pelos vendedores até um controle mais rigoroso da quantidade simultânea de pessoas dentro de uma loja.

Na pandemia, a profecia de que o consumo iria estagnar não se concretizou. Os consumidores seguiram sendo consumidores, mas aprenderam a consumir de outra maneira. Uma pandemia não gera fenômenos inteiramente novos. Como defende o historiador Leandro Karnal, o que eventos como esse provocam é uma aceleração de mudanças que já vinham em curso. Por isso, não convém acreditar que a pandemia é um bloco desagradável no meio da história. A pandemia é uma peça que não poderá mais ser descolada da nossa realidade.

Todos os fenômenos observados agora já eram fatores que vinham acontecendo, em menor escala, antes da pandemia – delivery, modernização de formas de pagamento, experiências mais confortáveis de decisão de compra.

O comércio tem tempo ainda de refletir sobre as adaptações necessárias nessa trilha de mudanças. Há um ponto mais claro no horizonte agora para um grau de retomada mais forte (e sempre seguro). Mas não existe uma volta ao “normal”. O normal do pós-pandemia, no comércio, deve ser criado por nós. O que definirmos agora é o que se transformará no normal lá na frente.

Há muitos elementos, e o Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ) deixa isso claro em números, para realmente apostarmos em um crescimento em “V”. A pesquisa de julho, por exemplo, mostra que aumentou em quase 50%, entre maio e junho, a proporção de consumidores fluminenses que estão “confiantes ou muito confiantes” em relação à economia do estado nos próximos três meses. Em maio, eram 29,9% que pensavam dessa maneira. Apenas um mês depois, já eram 44,5%.

Não se trata, portanto, de empolgação ou ingenuidade. É a combinação de demanda reprimida, a capacidade incansável de superação do brasileiro e de investimentos represados. Esse sucesso dependerá de ingredientes básicos de todo bom negócio: planejamento, sempre ouvir o consumidor e saber se adaptar à nova realidade que, mais uma vez, irá surgir nos próximos meses.

*Antonio Florencio de Queiroz Junior, presidente da Fecomércio-RJ

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