Pós-pandemia e cibercrime

Pós-pandemia e cibercrime

Fausto Martin De Sanctis*

13 de julho de 2020 | 15h30

Fausto Martin De Sanctis. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A pandemia da covid-19 levou a desafios globais sem precedentes, sofrimento humano e perturbação econômica. Ela gerou e tem ainda gerado uma demanda significativa por suprimentos médicos, como equipamentos de proteção individual, ventiladores e medicamentos, existindo uma escassez de tais produtos por conta da grande procura.

O fechamento de muitas empresas devido a medidas de quarentena, de lockdown e de outras restrições ao comércio e às viagens levaram ao desemprego em massa ou à ausência do trabalho por parte de trabalhadores informais, com perdas de receita do governo e recessão econômica, impactando o comportamento financeiro e social de empresas e indivíduos.

Bancos e instituições financeiras continuaram, porém, em operação, entretanto, restringindo serviços bancários presenciais. Além disso, a covid-19 constituiu-se, forçosamente, uma oportunidade importante para entidades do setor privado acelerar a digitalização de serviços financeiros.

Assim, embora a maioria dos setores, como aviação e varejo, tenha sido significativamente afetada pelo coronavírus, a fintech, o setor de tecnologias financeiras, permanece praticamente inalterado. Na verdade, este setor tem sido cada vez mais forte à medida que as pessoas são obrigadas a somente recorrerem a serviços financeiros digitais.

Os aplicativos financeiros viram os downloads aumentarem desde o início dos bloqueios por coronavírus. De acordo com dados da consultoria financeira deVere, os aplicativos fintech tiveram um aumento de 72% no uso na última semana de março na Europa, segundo dados do deVere Group publicados no último dia 30.

Na verdade, a realidade digital passou a constituir um fenômeno não-temporário, mas marca um novo normal no comportamento do consumidor no mundo pós-covid-19.

A mudança de postura de clientes, necessariamente imposta pós-pandemia, provavelmente permanecerá após o surto. A transição para o digital que havia começado antes do covid-19, notadamente no setor financeiro, está se acelerando para tornar o digital a escolha preferida dos consumidores, à medida que estes se tornem mais confortáveis ​​e confiantes ao entrar na internet.

Geralmente, os gastos na pandemia foram relativamente baixos em muitos setores, mas houve crescimento em determinadas categorias, como entretenimento doméstico e compras on-line. À medida que a tendência para o digital ganha impulso, as organizações acelerarão suas agendas de transformação digital e projetarão as jornadas digitais dos clientes para oferecer uma experiência única ao cliente.

A digitalização das transações financeiras permite que consumidores acessem de forma conveniente e sem problemas os serviços e abram conta bancária em minutos em apenas algumas etapas, usando apenas sua identidade. A conta de saldo zero pode ser aberta imediatamente, não exigindo transferências salariais e permitindo benefícios como remessas gratuitas, cartões digitais gratuitos e recompensas em termos de bônus de boas-vindas.

As instituições financeiras devem procurar trabalhar com startups para atender às necessidades de seus clientes em um mercado pós-covid. Existe uma oportunidade para os participantes existentes no mercado alavancarem a tecnologia de fintech por meio de cooperação estratégica, o que pode ser uma situação em que todos saem ganhando.

As entidades de serviços financeiros podem aproveitar, por exemplo, a vantagem para ampliar o escopo de seu processo de digitalização, em vez de analisá-lo sob o prisma do cliente. O custo de integração deste pode ser reduzido com o uso efetivo das plataformas digitais Conheça Seu Cliente (Know Your Customer – KYC), melhorando a própria experiência do cliente e reduzindo os custos associados. Apesar de cara, a digitalização constitui maneira econômica de as instituições financeiras evoluírem digitalmente.

Por outro lado, importante a conscientização do mercado contra fraudes em resposta à crescente dependência das pessoas de serviços on-line, com sistemas robustos para proteção dos dados dos clientes. Deve haver controles de segurança avançados e multicamadas em vigor, com monitoramento 24 horas por dia, 7 dias por semana, para garantir a tutela dos clientes e de seus dados, impondo-se avaliação continuada desses controles de segurança para adaptação aos novos desafios. Por exemplo, importante que cartões tenham criptografia em nível elevado, bem assim a sua tokenização para fornecer um padrão mais alto de segurança. Com isto, evita-se clonagens tão comuns nos dias atuais. Isso já seria um bom começo para que se previna os cibercrimes em inéditos tempos pós-pandemia.

*Fausto Martin De Sanctis, desembargador federal do TRF3

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