Pós-graduação, pesquisa e avaliação das universidades: os males do academicismo

Pós-graduação, pesquisa e avaliação das universidades: os males do academicismo

Hugo Gueiros*

17 de setembro de 2020 | 07h30

Hugo Gueiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Procuramos demonstrar em outro artigo como a universidade se distancia de seus objetivos e, diante do desenvolvimento da tecnologia, perde sentido como instrumento de aprendizado de alto nível.

De modo particular, houve o propósito de expor como a universidade pública vem sendo superada como agente de formação dos cidadãos, diante das novas modalidades de acesso digital ao conhecimento, sem encargos para o contribuinte ou para os familiares do aluno.

Aqui, em desdobramento daquele comentário, propõe-se debate sobre pós-graduação, pesquisa e avaliação das universidades.

É preciso repensar o que se hoje entende como “pós-graduação“, a começar pelas restrições de ingresso. O acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um, é principio constitucional (art. 208, V) de sorte que não pode derivar, por exemplo, de breve entrevista e apresentação de currículo, nem mesmo de uma verificação de aprendizagem deveras subjetiva. Além disso, uma vez aplicadas as provas, que se fazem imprescindíveis, não se pode admitir que o seu conteúdo favoreça perfis ideológicos,  alunos da mesma instituição ou características pessoais outras, estranhas ao domínio do ramo científico – domínio que há de ser antes de tudo influenciado pelas exigências do mercado de trabalho, antes mesmo das  preferências intelectuais do corpo docente.

De outra parte, é imperioso que mestrados e doutorados sejam postos nos devidos lugares. O academicismo que já tomou conta de universidades não pode chegar ao ponto de dominar o acesso a ocupações profissionais estranhas à academia.

Não é o que se vê̂, porém. Portadores desses títulos se apresentam com nítida vantagem em concursos a cargos da administração direta e indireta, quando não a empregos de empresas que seguem o critério como uma onda no mar…

É algo inaceitável, considerando a disparidade entre o que a profissão exigirá e o que foi requerido para completar aquele curso, muitas vezes em especialidade diversa, ou sob enfoque exclusivamente acadêmico.

Muitos estudantes de alto nível são vitimas desse procedimento; outros resolvem logo se engajar nesse consumismo desenfreado de pós-graduação, na esperança de que o desemprego ou o subemprego após a formatura seja atenuado com mais um diploma. Saem beneficiados os ricos.

Alguém poderá́ redarguir com a notoriedade de certas universidades, seja Harvard, seja USP…

Ocorre que, se um bom aporte de habilidades e conhecimentos foi transferido a determinado aluno, é de esperar que esse aluno saiba fazer valer esses atributos na hora de ingressar no mercado de trabalho. O resultado do curso, não o curso em si, deve ser levado em consideração para graduar os candidatos.

Sob esse aspecto também devem ser considerados os critérios de avaliação e classificação das instituições a que procede ao Ministério da Educação em nosso País.

Tradicionalmente — e todos esperam que isso mude cada vez mais — pilares do academicismo também dominaram essas avaliações. A sociedade quer levantamentos, mas também a participação de institutos de pesquisa que levem em consideração empregos e ocupações concretamente obtidas pelos alunos após o ensino universitário, como se vê̂ nos rankings anuais das universidades norte-americanas, amplamente divulgados em minúcias.

Cidadãos custeiam com dificuldade essa formação educacional, imaginando que após a universidade a geração dos filhos estará́ apta ao trabalho remunerado, expectativa que tende à frustração.

As universidades públicas já são beneficiadas por uma desigualdade flagrante: seus alunos, que venceram disputadíssimo vestibular para estudar de graça, são em princípio os melhores e basta conservar essa condição durante o curso.

Impõe-se, pois, desde logo a seguinte avaliação: as instituições de ensino superior permitem essa conservação? Tornam ainda melhores os alunos? Ou piores?

A exemplo dessa avaliação, falta a dos professores, como em certo período fez a Faculdade de Direito da Unb, onde estudei e ensinei. Não que se proponha acirrada competição entre professores, mas uma avaliação feita pelos alunos que lhes atribua, por exemplo, três níveis de capacitação em cinco habilidades básicas da docência.

Espera-se dessa abordagem identificar os pontos fora da curva, para mais ou para menos.

A avaliação pelos clientes ainda não encontrou substituto para estimular o constante aperfeiçoamento de qualquer profissional, meta que, no caso dos professores, não pode ser diversa.

Diante do avanço tecnológico, a correlação que se reconheceu valida, no passado, entre gastos universitários e gastos com professores é mais uma a se dissipar.

O conceito de “pesquisa“ merece igual revisão. Pesquisa há de ter objetivos cercados de transparência e divulgação, para coadunar inovação e utilidade social. Não só́ os objetivos, mas as bolsas de estudo, não podem restar isentas de severo crivo da comunidade.

Discricionariedade não traduz livre escolha, mas busca da melhor opção para o interesse comum.

O grande erro de orçamentos e, em geral, da alocação de recursos públicos, no Brasil, situa-se na frase “isso é importante“.

Sim. Tudo é importante. Mas diante do quadro crescente de insuficiência dos recursos, não há como fugir da obviedade de que algumas coisas são bem mais importantes que outras. Contribuintes têm direito de optar pelo custeio de um doutorado sobre o uso da inteligência artificial na medicina e de abrir mão do patrocínio de outro, voltado a questionar a inteligência artificial em si, como fruto ou instrumento do imperialismo internacional. Ou vice-versa, o que não se sugere…

Esse deve ser um dos novos objetivos de CNPq, CAPES e institutos congêneres: hierarquizar critérios, dar-lhes publicidade e considerar a critica da sociedade a seu respeito.

Assim como ocorre com o conceito de “pesquisa“, é preciso redefinir o que se convencionou chamar de “produção cientifica”. Decerto não merecem tais designações muitas viagens ao exterior suportadas pelo erário, nem o sustento de “estudos” que só́ possuem o intento de garimpar fatos para reafirmar posturas filosóficas que, de antemão, o estudante ou seu orientador resolveu fixar.

Na melhor das hipóteses, faltam números para essa discussão. Sabe-se o custo aproximado do aluno — fala-se de R$ 40.000 ao ano – e que 20% dos alunos, também anualmente, deixam a universidade. Pouco se sabe do retorno sobre esse investimento, a curto e longo prazo.

O mesmo vale para o custo dos professores. É impossível negar o valioso trabalho de diversos profissionais. Até aqui, porém, nem a defesa mais apaixonada do sistema fez- se acompanhar de dados que permitam à opinião pública avistar mais do que ilhas de excelência, presentes em qualquer categoria profissional.

É preciso dar a conhecer as regras, não as exceções.

*Hugo Gueiros Bernardes Filho integra a Comissão de Inteligência Artificial da OAB Federal. Foi subprocurador-geral da República. É mestre em Direito pela UnB

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