Por uma Quarta-Feira de Cinzas menos duradoura

Por uma Quarta-Feira de Cinzas menos duradoura

Fernando Ribeiro*

16 de fevereiro de 2021 | 07h30

Fernando Ribeiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Para muitos brasileiros, o carnaval de 2020 marcou de várias formas. Foi nosso último grande evento público e, ironicamente, foi também o início da pandemia de Covid-19 – o primeiro caso da doença detectado em nosso solo foi em plena terça de carnaval. Quem curtiu a Quarta-Feira de Cinzas não poderia nem imaginar o ano difícil que viria.

Corta para 2021. Mesmo após o anúncio dos adiamentos de festas oficiais, muitas cidades ainda se questionavam se um carnaval seria possível neste ano, talvez um fio de esperança com a chegada da vacina. Um grande equívoco, claro, diante do cenário que ainda vivemos.

Como de se esperar, muitas empresas acabam afetadas por isso. Escolas de samba, blocos carnavalescos? Sim, mas não só. Setor hoteleiro, alimentos e bebidas, viagens – até mesmo museus e outros locais turísticos que inevitavelmente poderiam receber visitantes entre uma festa e outra. A economia deve sofrer um baque na casa de R$ 8 bilhões (pelo menos), com a diminuição das vendas e também com a suspensão dos empregos temporários que o período de Momo gera.

Triste sobretudo para aqueles empreendedores que não criaram um plano B. Agora, em diversos segmentos da economia, principalmente para o varejo e serviços, as empresas se valem de um universo gigantesco e extremamente rico de dados e de tendências de consumo para desenvolver seus planejamentos. Impossível definir qualquer estratégia nesse cenário sem imergir no que está acontecendo fora das nossas bolhas.

Um estudo da Winnin, de novembro, antecipava um certo otimismo com relação ao relaxamento social, mas 40% dos entrevistados continuavam firmes no propósito de sair somente para fazer o essencial. Pesquisa recente de uma agência de eventos sobre a percepção do brasileiro em relação ao carnaval de rua mostrou que 49% dos entrevistados não pretendiam frequentar grandes blocos, mesmo com um cenário promissor de vacinação – o que ainda nem é o nosso caso -, e 67% considerava que os festejos deveriam ser cancelados. Um dado importante ainda indica que 28% das pessoas acreditam que as marcas que fizerem comunicação relacionada ao carnaval estarão associadas a uma imagem negativa. Mas, alto lá!

Para as marcas, é possível sim “fazer carnaval”. Se a conversa sobre carnaval existe, com ela oportunidades de engajamento são geradas. Conectar-se com os consumidores em um nível mais humano, promovendo o cuidado que o momento carece talvez seja o caminho. Vide as live streaming da folia, patrocínio em carnaval virtual de games, helicóptero para provocar chuva em quem se aglomerar, delivery com entregador fantasiado… Há um território criativo muito vasto – ainda que para muitos contraditório – entre carnaval e precaução.

Como um profissional de Estratégia, estou curioso para ver quais foram as decisões tomadas pelas marcas para criar valor para os consumidores nesse carnaval de 2021. Minha hipótese é que como seres humanos, antes de estrategistas, tenhamos ajudado a desenvolver opções de carnaval possíveis e seguras para os brasileiros. Porque oficialmente ou não, o carnaval vai sim rolar: coube a nós ajudar as marcas a participar com consciência. Para que 2021 não se torne outra longa Quarta-Feira de Cinzas que foi 2020.

*Fernando Ribeiro, Global Chief Strategy Officer da GUT

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