Por uma Educação e um futuro antirracistas

Por uma Educação e um futuro antirracistas

Thainá Rocha da Silva*

23 de novembro de 2020 | 13h08

Thainá Rocha da Silva. Foto: Divulgação

O mês de novembro de 2020 é um dos mais importantes até agora. Nunca se falou tanto sobre o movimento e vidas negras, e a Educação nunca esteve tão em pauta. Uma pena que para tudo isso acontecer foi necessário termos uma grande quantidade de violência contra a população negra sendo, enfim, amplamente noticiada na grande mídia, além de uma pandemia para revelar os desafios enfrentados pelos docentes. Penso que então chegou a hora de discutirmos sobre algo extremamente importante, e muito menos falado do que racismo ou a práxis escolar: como proporcionamos uma Educação antirracista que gerará impacto na sociedade?

Antes de iniciar, porém, vale explicitar a diferença entre não ser racista e ser antirracista. Quando não somos racistas agimos em nosso microambiente: não praticamos ações explícitas ou criminosas que discriminam alguém por sua raça, como insultar, agredir ou tratar de modo ofensivo. Quando somos antirracistas, ampliamos a nossa ação instruindo outras pessoas a agirem da mesma forma. Além disso, praticamos ou apoiamos ações inclusivas para proporcionar mais acesso à Educação, cultura e melhores oportunidades de trabalho, por exemplo. Ser antirracista é, sobretudo, questionar as estruturas e processos que relegam pessoas às margens da sociedade e promover efetivamente a equidade de direitos e vivências.

Trazendo esse conceito amplo para o ambiente escolar, vale refletirmos como os conteúdos e convívio permitem este questionamento de nossos alunos e alunas sobre as estruturas dominantes. Promover uma Educação antirracista é promover um ensino plural e diversificado, que traz as minorias para dentro do debate acadêmico, e promove o acesso à cultura, história e conteúdos curriculares protagonizados por todos os grupos étnicos. Por exemplo, é urgente que a Educação contextualize grandes autores da literatura nacional como pessoas negras. É importante que o jovem negro veja um homem preto, como Machado de Assis, como inspiração, e não veja a sua cor estampada nas lousas e telas apenas quando falamos de escravidão, encarceramento e período colonial.

Vale lembrar que o ambiente circundante e as informações externas constituem a identidade do sujeito pós-moderno, como teoriza o sociólogo e professor britânico Stuart Hall, apontando que ela é formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Portanto, é imprescindível que as pessoas tenham essa multiplicidade de representações as impactando, para que se identifiquem em relação de alteridade. É imperativo que crianças e jovens negros saibam onde podem chegar. Saibam que existem pessoas da mesma cor ou tom de pele que eles, realizando coisas incríveis pelo mundo, sendo cientistas, advogados, médicos, artistas, programadores, analistas, administradores, empresários, escritores, astronautas, bailarinos, juízes, cineastas, engenheiros, psicólogos, filósofos, publicitários, fisioterapeutas, mestres, doutores, youtubers, CEOs, vice-presidentes, presidentes, âncoras de jornal em horário nobre, chefes de cozinha estrelados, protagonistas de novela, ganhadores de Oscar, Emmy, Grammy, Prêmios Nobel, professores… que eles podem chegar ao topo e alcançar o sucesso (seja lá qual for a definição particular de sucesso que tenham); e que a cada nova conquista consigamos naturalizar a presença de pessoas pretas “chegando lá”, para que deixemos de romantizar as exceções, os “pontos fora da curva”, e lutemos por equidade, até que ela exista de fato.

Como muito bem ressaltado pelo professor Silvio Almeida no vídeo “#ConversasQueImportam: o Futuro da Educação” em seu canal no Youtube, apoiado na teoria de Paulo Freire de sua Pedagogia da Autonomia, a Educação precisa ser exercida como prática emancipatória e formadora de sujeitos completos, empoderados, pensantes e atuantes na sociedade. Quando ensinamos, precisamos ir além do conteúdo básico do programa escolar, precisamos situá-los, contextualizá-los, mostrar os múltiplos papéis que eles podem ter no mundo e indicar os melhores caminhos de exercê-lo.

Eu, como mulher negra, professora universitária (geralmente a primeira professora negra de muitos alunos) e cidadã, estou pronta para construir uma Educação e um futuro antirracista. E você, vem comigo?

*Thainá Rocha da Silva é publicitária, escritora, especialista em marketing digital e redes sociais web, mestranda em comunicação de interesse público e desenvolve pesquisa na área de negritude e juventude. Atua como analista de comunicação e professora na Universidade São Judas.

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