Por que sou contra o governo Bolsonaro mesmo quando a popularidade está alta

Por que sou contra o governo Bolsonaro mesmo quando a popularidade está alta

Marcelo Castro*

08 de setembro de 2020 | 15h10

Marcelo Castro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Um levantamento recente do Datafolha mostra que a popularidade de Bolsonaro atingiu o maior patamar desde o início do governo. O instituto mostrou que 37% dos brasileiros consideram o desempenho da atual gestão bom ou ótimo. A rejeição também caiu: de 44% para 34%. Ainda assim, sigo sendo duramente contrário ao governo. O levantamento coincide com o período de pagamento do auxílio emergencial e com um conveniente silêncio do presidente no que tange à defesas públicas de pautas autocráticas.

A iniciativa de pensar em algo como a renda básica universal é virtuosa, mas não é exagero lembrar que a defesa inicial do governo era uma renda mesquinha de R$ 200, felizmente aumentada pelo Congresso Nacional. O auxílio é bom, o silêncio também, mas é difícil acreditar que nossa elite intelectual se venderia por isso: uma gota d’água em um vulcão de erros. Explico.

Em uma pandemia que matou mais de 120 mil brasileiros, Bolsonaro perdeu 3 ministros da Saúde em menos de um mês por culpa única e exclusiva do que o The Washington Post apontou como a pior gestor da pandemia do mundo. Sem contar declarações desastrosas como o “Não sou coveiro, tá?” e o “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Menosprezou a ciência, terminou com um general no Ministério da Saúde e com um discurso tosco em defesa da hidroxicloroquina que o uniu com Nicolás Maduro, entusiasta do medicamento comprovadamente ineficaz contra a COVID-19. Nem Trump o salva: o presidente americano citou o caso brasileiro como muito ruim ao menos 2 vezes.

Educação? 4 ministros em menos de 24 meses! Velez Rodriguez permitiu livros didáticos com erros e tentou obrigar alunos a vociferar o lema da campanha do presidente em sala de aula. Weintraub mal sabia escrever português e tinha outras prioridades – como prender ministros do STF – o 3º foi Decotelli que… bom, vocês sabem. Um projeto de país jogado no lixo e o sonho das crianças brasileiras adiado.

Na economia temos um falastrão como Ministro. Paulo Guedes iniciou com muitas promessas, mas não está cumprindo. Nas palavras dele, houve uma “debandada” em sua equipe de secretários após muitos não acreditarem mais na possibilidade de implementação do famigerado “choque de liberalismo”. Privatização? Reforma Administrativa? Abertura comercial? Nada. Recebemos um saco de palavras.

Na diplomacia viramos pária mundial. Na gestão do meio ambiente também. Na cultura tivemos acesso a uma dança das cadeiras em que 4 secretários caíram em tempo recorde. Arroubos autoritários não faltaram: Eduardo Bolsonaro chegou a dizer que uma ruptura era inevitável e o presidente flertou com a defesa do AI-5 mais do que o Queiroz flertou em depositar cheques na conta de Michelle Bolsonaro. Não contem comigo para elogiar acertos que são um voo de galinha. O governo Bolsonaro, no fim do dia, ainda é… o governo Bolsonaro.

*Marcelo Castro é especialista em Gestão Pública pela John F. Kennedy School of Government

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